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domingo, 17 de outubro de 2021

Memorabília (19)



Em tempos, que hoje me parecem imemoriais, adquiri na rua do Alecrim, nº 44, em Lisboa, ao alfarrabista sr. Tarcísio Trindade (1931-2011), um conjunto  dos 12 primeiros números da celebrada revista Seara Nova, encadernados pela própria empresa. O lote custou-me Esc. 1.200$00, modestos.




Gradualmente, e a pouco e pouco, fui comprando, creio que no mesmo local, alguns outros números soltos da revista, sempre dos mais antigos. No grupo se inseria o nº 51, de 15 de Agosto de 1925, que tem uma capa impressiva, curiosamente e quando nada o fazia prever, do escritor José Rodrigues Miguéis (1901-1980).
Este poste acaba por ser uma parceria geminada com outro poste de MR, no seu Prosimetron, que celebrou, na altura própria (15/10/2021), o centenário da famosa revista portuguesa.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lisboa-Nova Iorque-Lisboa


Por entre as vicissitudes da diáspora e o pequeno meio editorial lisboeta dos anos 60 portugueses, surge esta correspondência, entre José Rodrigues Miguéis (1901-1980) e José Saramago (1922-2010), que começa por ser quase só de teor comercial, mas que se vai alargando para os limites das letras e chega a atingir o tom cordial da amizade. Director (?) literário da Estúdios Cor, Saramago vai dando notícias, números de venda e enviando cheques (direitos de autor) a Miguéis que, em Nova Iorque, quase sempre amargurado e sedento de novas do seu país, apesar do sucesso das suas obras (Leah, Escola do Paraíso...), lhe vai dando conta da sua via crucis, por terras americanas. A correspondência cessa em 1971, altura em que Saramago se demite da Editora, quando os donos lhe impõe, como chefe e directora literária, a escritora Natália Correia.
A franqueza entre os dois predomina, nesta conversa de homem para homem, pese embora alguma reserva de Miguéis, nas suas cartas iniciais. Saramago é mais frontal, chega a desabafar, por vezes:
"...Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como o Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há uns tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes duma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-de província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?... Assim estamos nós, descendentes de Afonso Henriques e Albuquerque, de Cabral e Camões... Desculpe o excesso de a-propósito da ironia!..." (pg. 106)
Editado em 2010, é um livro que vale a pena ler, até porque nos traz, ressuscitado, o panorama literário de Portugal, que se vivia nos anos 60 do século passado.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Sobre amizades


As informações, ou conhecimentos cruzam-se, por vezes, de uma forma inesperada e, quase em simultâneo, convergindo. Soube, hoje, por acaso, que José Rodrigues Miguéis (1901-1980) tivera, como grande amiga, Irene Lisboa (1892-1958), e a correspondência, entre ambos, é disso exemplo evidente e indesmentível. Não o sabia, de todo.
Hoje, também, li, por acaso, uma frase interessante de Madame d'Arconville (1720-1805) sobre os três tipos de amizade possíveis. É um ponto de vista feminino e talvez polémico, mas curioso.
Seguem as palavras desta francesa, em tradução livre, mas que creio ser fiel à ideia:
"A amizade entre homem e mulher é a ligação mais agradável de todos os sentimentos; mas a dos homens, entre eles, é mais sólida e menos sujeita às contingências. No que diz respeito à amizade entre mulheres, é tão rara que se pode considerar como inexistente."