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quarta-feira, 8 de abril de 2026

Uma fotografia, de vez em quando... 208

 

Destes Cristos em madeira, normalmente do século XVIII e em mãos de particulares, raros são os íntegros. Dos meus dois, a um faltam-lhe os braços e, ao outro, o corpo acaba-se-lhe nos joelhos. Ainda assim não deixam de ser interessantes, expostos na parede.
Este, na fotografia, do escritório de José Régio (1901-1969), em Vila do Conde, só lhe faltam as mãos. Quase um milagre...

sexta-feira, 17 de maio de 2024

Osmose 136

 

Costumo arrumar os livros nas prateleiras da biblioteca por afinidades subjectivas, ou em sequência cronológica. Os do António estão junto aos meus. Torga é vizinho de Régio. Mas vi-me aflito para descobrir o único livro de Casimiro de Brito (1938-2024), Corpo Sitiado (Iniciativas Editorias, 1976), que tinha, para além da plaquete canto adolescente inserta no conjunto poesia 61, que abordei no Arpose, em Bibliofilia 36 (2/9/2010). Casimiro de Brito (recentemente falecido) estava arrumado, mal, junto a Pedro Tamen. Rectifiquei: pu-lo ao lado de Gastão Cruz (1941-2022), outro dos 5 poetas que, com Luiza Neto Jorge (1939-1989), eu privilegio desse grupo geracional.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2022

Bibliofilia 202



Recebi recentemente um catálogo de Natal de um livreiro alfarrabista de Lisboa, promovendo a venda de alguns livros interessantes. De uma forma geral apercebi-me que havia uma acentuada quebra de preços, muito embora, por outro lado, algumas obras mais procuradas e raras se tinham estabilizado ou até, nalguns poucos casos, subido de valor. No primeiro caso, estava a Antologia de Poesia Erótica e Satírica, na sua contrafacção do Rio de Janeiro, sem as ilustrações de Cruzeiro Seixas, que se vendia por 30 euros; ora a mais próxima venda anterior tinha alcançado os 68 euros, segundo os meus apontamentos. Da Artis, vinha proposta a venda, da colecção de as mais belas poesias trovadorescas, da écloga Crisfal, a 25 euros. Esta colecção é de grande qualidade estética, e foi editada durante parte dos anos 50/ 60.



As obras, de cada um dos autores, numeradas, tiveram orientação e escolha de José Régio, tendo sido ilustradas pelos melhores pintores portugueses da altura. Nomeadamente: João Abel Manta, Alice Jorge, Rogério Ribeiro, Júlio Pomar, Lima de Freitas...



Fui ver o que tinha: os números 7, 10 e 12. Respectivamente, de Sá de Miranda, Diogo Bernardes e Frei Agostinho da Cruz. Pois todos eles tinham sido comprados (em muito bom estado) por apenas 6 euros, cada um.

Ora, de 25 para 6 euros, de há uns anos atrás, sempre é uma diferença de tomo muito significativa.

domingo, 10 de janeiro de 2021

Mercearias Finas 165


Dizia José Quitério (1942), na sua ampla sabedoria e competência culinária, que o único prato de alta gastronomia portuguesa era a Perdiz à Convento de Alcântara. Mas, neste décimo dia do novo ano de 2021, confinado parcialmente, HMJ resolveu-se a confeccionar um Cozido à Portuguesa, com todos os matadores, e eu a abrir, cerca de 2 horas antes, uma magnum alentejana de 2010. Que, como diria José Régio (1901-1969) poeta (ao contrário, e com o portalegrense Suão...), este frio esfarela os ossos,/ dói nos peitos sufocados, pelo seu severo rigor penetrante, convidando assim a vitualhas robustas e aconchegantes.

Do Pêra Doce (Trincadeira, Aragonez e Syrah), alentejano e com 13,5 º, com os seus 10 anos completos, estava eu com receio, porque os desta região demarcada querem-se jovens, normalmente, ao beber, embora  alguns raros, clássicos, se aguentem muito bem na velhice, e com nobreza. Este portou-se lindamente à altura das expectativas. E, do Cozido, nem se fala, que o silêncio é de ouro e recomenda-se!...

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Últimas aquisições (25)


É sabido que a Babel (ex-Guimarães Editores, de melhor memória e ilustres pergaminhos), recentemente, repudiou Agustina, mas a Família da escritora, prontamente e bem, arranjou a Relógio D'Água para lhe reeditar a obra, sobretudo a esgotada. A escritora só ganhou com o incidente, de um ponto de vista objectivo.
Ora, eu de há muito que queria ler O Susto (1958), de Agustina Bessa-Luís (1922-2019). E por várias razões: a obra foi inspirada em Teixeira de Pascoaes (1877-1952) e, na altura da publicação, causou grande polémica e troca de azedumes, entre a escritora e a família do Poeta. Régio ainda tentou pôr água na fervura. Em vão...
Aqui há uns meses, vi a obra, na edição primitiva, usada, à venda. Pediam pelo livro 35 euros, o que me pareceu uma exorbitância oportunista, e não o comprei. A segunda edição saiu este ano, em Janeiro, com a chancela da Relógio D'Água. Adquiri, assim, o livro, por pouco mais de 17 euros.
E vou começar a lê-lo...

sábado, 7 de março de 2020

Ideias fixas 54


À terceira ou quarta página de A Sibila, relendo, veio-me à memória Camilo. Embora actualizado de vocabulário. Somos assim, naturalmente: ou pelo mundo, como Eça, ou nortenhos e terrunhos, amando de perdição. Em boa companhia, aliás, com Régio, Manoel de Oliveira... - tudo da mesma família.
Ao menos, poupavam-se os néons amaricados. Ou marcanos? De lojas pindéricas, a armar ao fino, por esses algarves foleiros e lisboetas pacóvios. De gentinha, que imagina saber inglês.

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Últimas aquisições (18)


Os dois volumes da Biblioteca Breve, iniciativa do Ministério da Cultura, pertencem a um conjunto que foi editado durante os anos 70/80, sob a direcção de especialistas das várias temáticas abordadas. Eugénio Lisboa analisa, no nº 22 da colecção, a obra de José Régio, de quem foi amigo e é talvez o maior admirador, vivo, no presente. O nº 47 da Biblioteca Breve é um apanhado descritivo das principais publicações de olisipografia que, ao longo do tempo, se foram editando. 


Trouxe também, usado mas em bom estado, do alfarrabista, um catálogo (1984) extenso mas sucinto da Tate Gallery (Londres), que é talvez, fora de Portugal, o museu que eu mais gosto de visitar. A capa reproduz uma obra de Matisse - The Snail (1953).
Dei pelos três livros 5 euros, o que me pareceu ser um preço muito em conta e justo.

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Por que razão se visitam os blogues?



Oficialmente, eu frequento 13 blogues. Três dos quais - creio - congelados ou findos, infelizmente, mas que conservo com estima, na minha lista de seguidor. Sabe-se, e é dos livros, que a maior parte dos blogues dura, no máximo, apenas 4 anos. A persistência (se eu fosse jovem, diria: resiliência) só por acaso resiste às contingências da vida. Por outro lado, há quem se inscreva como seguidor por emoção momentânea ou pensando na reciprocidade, num jogo ligeiro e mercantil de interesses. Se ninguém se tivesse "desarriscado" de seguidor do Arpose, eu já teria mais de cem seguidores, assim tenho apenas 99 (aqui, agradeço aos fiéis e estimados seguidores persistentes!). Que é uma boa conta, e capicua. Seis desertores eram interesseiros... Mas eu não lhes fiz a vontade, por variadíssimas razões pessoais, e eles "desarriscaram-se", cerca de uma semana depois de se terem inscrito. Porque, dos blogues que eu sigo, faço-lhes visita, diariamente, desde que haja coisas novas publicadas. Por fidelidade e coerência. Posso é não comentar.
Serei rigoroso: eu visito, com relativa frequência, mais quatro blogues portugueses, que me atraem pela sua qualidade, irreverência inteligente, pela naturalidade humana, riqueza de conteúdos, originalidade e interesses afins. Dito isto, e sem compromisso especial de benignidade, encontrei, num deles, esta frase, ontem (30/5/2017): O resto, isto é, quem aqui vem, fá-lo por "voyeurisme" voluntário. O re-comentário é do embaixador Francisco Seixas da Costa, no seu blogue Duas ou Três Coisas. E, tenho que dizê-lo: o Diplomata foi injusto, do meu ponto de vista. E redutor, na sua classificação totalitária. Eu sei que uma grande parte das visitas, que o seu Blogue tem, é  também de alumbrados e deslumbrados (que devem frequentar as revistas róseas), gente que tem uma grande sede de ser lida, pelos comentários que faz, alguns iliteratos (bastará ver certos comentários), e  uns (poucos) mas contumazes reaccionários cobardes e anónimos, que o Embaixador, numa enorme gentileza democrática, permite.
Mas também se pode ir a um blogue alheio por estima e afinidade, não só por voyeurisme. Por curiosidade intelectual ou, muito simplesmente, por misteriosas razões, entre as quais pode caber gostarmos de ler um português escrito, escorreito e bem esgalhado, que é algo raro nos nossos dias.
As coisas nunca são tão simples como os taxativos e mecânicos algoritmos. Há mais mundos - como disse, humanamente e para sempre, José Régio. Que nem sequer era sociólogo.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Bibliofilia 136


Vou referir vários poetas, tenham paciência...
A minha opinião sobre Teixeira de Pascoaes (1877-1952) foi sempre um pouco ambígua. E a leitura dos seus poemas poucas vezes me entusiasmou. Menos ainda a sua prosa. E, se Eugénio de Andrade pouco me falou dele, é bem certo que vários textos admiráveis escreveu sobre o Poeta do Gatão. Como alguns também escreveu Cesariny. Poetas que eu aprecio e cuja opinião costumo ter em conta.





Também Jorge de Sena lhe dedicou estudos com a sua habitual agudeza crítica, gabando-lhe o estro, com algum entusiasmo. Mas nem sempre podemos coincidir nas afinidades electivas. Também Sena estudou Florbela com devoção e eu nem por isso lhe consagro a minha adoração, muito embora, em arroubos de juventude eu gostasse de ler os seus apaixonados versos. Como a José Régio também, aliás. Ambos, ousaria eu dizer, devedores ou familiares, se não dos temas, pelo menos do tom exclamativo de Junqueiro que, na adolescência, muito frequentei...



Os livrinhos, que ora se apresentam, são o fruto da dedicação que o poeta vimaranense Guilherme de Faria tinha por Teixeira de Pascoaes, impressos em 1924 e 1925, com mimosos cuidados estéticos e pequena tiragem de muito boa qualidade. D. Carlos, em tiragem especial, custou-me, nos anos 80, Esc. 1.900$00. Os restantes fui-os comprando por cerca de metade do preço, em anos posteriores.


Por curiosidade, posso informar que a caricatura de Teixeira de Pascoaes, que encima este poste, é da autoria do também poeta, de origem moçambicana, Rui Knopfli.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Uso Pessoal 13


Ponto de honra e para memória futura, deixo exarado que, nestas errâncias portuguesas de Norte a Sul de Portugal, tive a sorte e o acaso de ver uma lindíssima imagem (séc. XVIII?) de Sta. Iria, na sacristia da igreja da Misericódia de Faro. Em talha dourada de fino recorte e panejamentos ondulantes, apesar de um pouco arrebicados, não desdenharia eu de tê-la, para melhor a admirar...
Não excluo imagens votivas ou os Santos, da minha convivência. Neste particular, não sou um laico puritano e ortodoxo, antes, um liberal. Vem-me de infância o gosto de tê-los por perto, ainda quando gostava de coleccionar santinhos, alguns em pergaminho, muito bonitos. Mas também pela hipótese de alguma hesitação tardia, ou dúvida final que ocorra, na hora da morte. Haverá por aqui - dirão alguns - oportunismo. É possível...
Dos domésticos, em estatuária bisonha e tosca de santeiro de província, o meu preferido é o Menino Jesus de Praga, de cabelo de poupa levantada e com o orbe em sua mão pequena. Oferecido e comprado em Esposende, por pessoa já falecida, e de minha grande estima e memória. Depois, uma Senhora das Angústias (é assim que eu lhe chamo), na sua porcelana já um pouco erodida. Estupidamente caro, comprei, há talvez quase três décadas, a um santeiro de Belmonte, grande negociante (cigano? cristão-novo?), um interessante e bem trabalhado S. Tiago em faia, a que não falta a icónica vieira e o cajado de viandante.
Finalmente, dois Cristos mutilados e crucificados, a que já faltam as cruzes. Que instalam na casa uma ponderação sofrida, mas também, com as suas chagas ensanguentadas, uma estridência anti-junqueiriana, que me lembra sempre José Régio...

sábado, 19 de março de 2016

Da leitura (11)


Terei de confessar que, até há pouco tempo e talvez sem grande fundamento racional, a minha opinião sobre a obra de Eugénio Lisboa (1930) não era muito lisonjeira. O seu acrisolado afecto literário - que me parecia exagerado e acrítico - por José Régio, terá decerto contribuído para essa minha apressada opinião e preconceito.
Ando a ler As vinte e cinco notas do texto (IN-CM, 1987), pelo exemplar que Eugénio Lisboa ofereceu e dedicou a Ascêncio de Freitas (1926-2015). Bastaria o capítulo "O Teatro de Jorge de Sena" (pgs. 35 a 44) para alterar os meus preconceitos desajustados. É uma análise brilhante e comparativa, do ponto de vista biográfico, entre a peça O Indesejado e a personalidade psicológica de Sena.
Mea culpa... E, desde já, emendo a mão e recomendo, sem reservas, para quem se interesse pela obra do autor de "Sinais de Fogo", a leitura deste livro de ensaios de Eugénio Lisboa.


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Da leitura (5)


Há muito que a leitura de um conjunto de avaliações críticas, sobre literatura e autores portugueses, não me dava tamanho prazer. O que hoje se faz, tirando um reduzido número de críticos que se poderá contar pelos dedos de uma mão, é uma espécie de reprodução das badanas, sem critério algum e muito menos conhecimento de história literária. Para não falar da proliferação de blogues pretensamente literários, encapotadamente pagos por editoras, ou que se vendem na miserável e mediocre esperança, pequenina e paroquial, de receberem uns quantos livritos, como recompensa do seu frete pindérico e mercenário. Daí eu não me admirar de tanto sucesso literário conseguido por esse trabalho de sapa e pela eterna ausência maioritária de sentido crítico de grande parte dos ledores portugueses. Análise ou crítica literária, hoje e em Portugal, quase não existe: é como procurar agulha num palheiro...
Por isso este Régio, Casais, a «presença» e outros afins, de Jorge de Sena, publicado em 1977, me está a dar tanto prazer de leitura. Com o sabor de reencontro de uma voz amiga, sólida, que nos chega do passado, nos enriquece, nos faz pensar e nos traz a visão lúcida de quem sabia ler e distinguir a qualidade. Aqui vai um bocadinho de um dos textos de Sena:
"...Para muita gente, Régio atingiu sempre uma altitude espiritual que Torga não pode disputar-lhe; como, para outra, Torga possui uma humanidade imediata, feita de espontaneidade vital, de rudeza «telúrica», de vivência das serranias, que Régio não abarcava. O religiosismo de Régio, num país onde a poesia de índole religiosa descera ao nível das cantigas de sacristia, repugnou sempre à onda do livre-pensamento, e suscitou sempre desconfiada antipatia dos católicos - e daí que a sua consagração tenha, em grande parte, advindo dos meios universitários de tradição positivista ou agnóstica, que são hipóstases de uma análoga atitude da burguesia prudente que, por outro lado, encontrou, em Régio, e sem compromissos, as alegorias e símbolos da sua educação católica. E a pretensa espontaneidade de Torga oferecia ao anticulturalismo dos anos 30 e 40, um sabor da terra, de primitivismo, de força viril e exterior, que fazia esquecer quão obsessivamente individualista ele é também, fechado, tanto como Régio, na contemplação menos da personalidade profunda que da exemplaridade genial do indivíduo eminente. Que ambos poderiam ter existido sem Pessoa ou Sá-Carneiro até tecnicamente - apesar da maestria indiscutível de ambos - é quase inteiramente a verdade: e tão verdade que, tanto um como outro, foram sempre, até hoje, muito reticentes em proclamar em público a grandeza de Fernando Pessoa. ..."

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Lisboa-Nova Iorque-Lisboa


Por entre as vicissitudes da diáspora e o pequeno meio editorial lisboeta dos anos 60 portugueses, surge esta correspondência, entre José Rodrigues Miguéis (1901-1980) e José Saramago (1922-2010), que começa por ser quase só de teor comercial, mas que se vai alargando para os limites das letras e chega a atingir o tom cordial da amizade. Director (?) literário da Estúdios Cor, Saramago vai dando notícias, números de venda e enviando cheques (direitos de autor) a Miguéis que, em Nova Iorque, quase sempre amargurado e sedento de novas do seu país, apesar do sucesso das suas obras (Leah, Escola do Paraíso...), lhe vai dando conta da sua via crucis, por terras americanas. A correspondência cessa em 1971, altura em que Saramago se demite da Editora, quando os donos lhe impõe, como chefe e directora literária, a escritora Natália Correia.
A franqueza entre os dois predomina, nesta conversa de homem para homem, pese embora alguma reserva de Miguéis, nas suas cartas iniciais. Saramago é mais frontal, chega a desabafar, por vezes:
"...Espero com o maior interesse o seu artigo sobre o Raul Brandão, que é uma das maiores e mais velhas admirações minhas em literatura. Um livro como o Húmus, por exemplo, como é possível que tanta gente o ignore? Não percebo, palavra. Falava o Régio, já aqui há uns tempos, no mau gosto de certas passagens. Bolas! Sempre gostava que me dissessem onde há, nos livros do Régio, às vezes duma pieguice muito professor-de-liceu-em-cidade-de província, algo que iguale em ternura aquelas «mãos como cepos» da Joana, dessa criação única da nossa literatura que é a mulher da esfrega! Quantas vezes exprimiu assim a frustração um escritor português, uma frustração que nega até o direito a sonhos próprios?... Assim estamos nós, descendentes de Afonso Henriques e Albuquerque, de Cabral e Camões... Desculpe o excesso de a-propósito da ironia!..." (pg. 106)
Editado em 2010, é um livro que vale a pena ler, até porque nos traz, ressuscitado, o panorama literário de Portugal, que se vivia nos anos 60 do século passado.

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Reencontro


Os reencontros, passados muitos anos, nem sempre são felizes. Por crescimentos diversos de quem se revê, divergência nos interesses que se aprofundaram entretanto, pelas rugas do tempo na face outrora jovem - sentimento que nem sempre pensamos poder ser recíproco...
Há muito que eu não voltava à poesia de Reinaldo Ferreira (1922-1959) que li, empolgado, em anos de extrema juventude, por um livro emprestado por um amigo. E, hoje, no alfarrabista que frequentemente visito, o livro (em imagem) oferecia-se-me, acusando o tempo, mas até com as páginas por abrir. Lá o trouxe, que o preço era convidativo.
No prefácio, José Régio, certeiro, aponta-lhe as influências de Cesário e Pessoa, com muita justeza. Bem como uma certa desigualdade na qualidade dos poemas. A leitura de "Receita para fazer um herói" já não me empolgou como na juventude. Até porque já nem há a guerra colonial, no horizonte.
Mas continua a ser interessante um pequeno poema que eu quase sabia de cor, e voltei a ler:

Mínimo sou,
Mas quando ao Nada empresto
A minha elementar realidade,
O Nada é só o resto.

Breve nota sobre efemérides e imortalidade


Será talvez um dia auspicioso para o nascimento de poetas, esta data de 17 de Setembro. Nada menos de 4 respiguei eu de várias fontes informativas:
Francisco de Quevedo, em 1580.
Guerra Junqueiro, no ano de 1850.
Em 17/9/1883, nasceu William Carlos Williams. 
Finalmente, José Régio, em 1899.
Também se diz que, depois da morte, os poetas (e outros artistas) terão de passar vários anos no limbo, até serem redescobertos, e ressuscitarem, nalguns casos.
Sobre Quevedo, não tenho eu dúvidas. Quanto a Junqueiro e Régio, tão conhecidos em vida, rezemos-lhes pela alma, a ver se ressuscitam...

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O regresso da "madalena" de Proust


Quando saí do restaurante à beira da estrada, seriam aí umas 13h50, lembrei-me de contar tudo isto mas, na altura e para melhor me situar, teria de citar a "Toada de Portalegre", de José Régio, pareceu-me pseudo-erudito demais, e desisti da ideia de o narrar, aqui no Arpose. Até que, ao entrar em casa, disse para comigo: tens toda a tarde, para pôr isto por escrito, ó Alberto! Não te chega?!

Das memórias sensoriais, talvez a das imagens e do olhar seja a mais fiel e longeva. Da táctil, alguma coisa nos fica, de áspero ou macio, ao menos, bem como da auditiva, embora se torne bem difícil trazer à recordação uma voz de alguém que já não ouvimos há muito, porque desaparecida. Mas eu diria que a memória dos cheiros e sabores é ainda mais caprichosa, por ser imaterial e evanescente.

Quando a travessa do entrecosto grelhado me chegou à mesa, estava eu a acabar de ler, no TLS, um artigo em que se falava do "mercantilismo", palavra que, criada no século XIX por um historiador, é das poucas que a linguagem corrente, os economistas e os políticos adoptaram; até porque estes dois profissionais raramente aproveitam as lições da História - e têm-se visto os resultados...

Pois do lado direito da travessa, que me trouxeram nesse restaurante à beira da estrada, brilhavam e distinguiam-se, amarelinhas de dourado e apetitosas, as batatas fritas do acompanhamento. Assim irresistíveis, peguei em duas delas com os dedos, antes de me servir, e levei-as à boca. Crocantes e muito bem fritas, o seu sabor fez-me recuar até ao longínquo Verão de 1963.

Nesse Agosto já distante, quase diariamente, quando eu desembarcava na estação de comboios de Bona, vindo de Witterschlick, creio que por volta das 17h30, ao sair, numa esquina e em direcção à Tillmannhaus, não deixava de comprar um pequeno pacotinho de batatas, fritas na altura e à vista de quem passava. Que traziam um minúsculo garfo de plástico e que custavam, julgo eu, meio marco alemão.

Essas batatas fritas, e as de hoje, pareceram-me gémeas, na memória do sabor. Inesperadamente, se replicaram no tempo, por um feliz acaso.

sábado, 10 de agosto de 2013

Para entrar pela noite de Verão


Nesta baforada de quentura árida que, mesmo em casa, entra pelas janelas e varandas, não posso deixar de me lembrar da Toada de Portalegre, de José Régio:

"...(Lá vem o vento suão
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
Dói nos peitos sufocados..."

Mas, a ler o poema todo prefiro, sem dúvida, ouvir esta transcrição para harpa, da Mondschein Sonate, de Beethoven, interpretada, suavemente, por Catrin Finch.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Graciliano, e famílias


Já o disse, aqui: quando um livro me agrada muito, saboreio-o devagar, tentando prolongar, por mais tempo, esse prazer da leitura. Tem sido o caso de "Infância", de Graciliano Ramos, que tenho vindo a devorar lentamente. E que considero uma obra-prima da língua portuguesa.
Há dias, ouvi Mia Couto confirmar, numa entrevista, o que eu já sabia ou pensava. Que João Guimarães Rosa era um dos seus escritores preferidos, e um dos seus Mestres. Bem como referiu que Luandino Vieira lhe tinha confidenciado, também, a enorme admiração que tinha pelo escritor brasileiro de Cordisburgo. Também já eu tinha suspeitado - os vestígios são evidentes. Mas Rosa não existiria, assim como o conhecemos, se não houvesse, atrás, um Graciliano Ramos. Como Aquilino não seria o mesmo, sem Camilo ter acontecido e escrito, antes. Há sequências de ADN e sangue, até mesmo em literatura. Numa continuidade progressiva.
Esta pequena história de "Minha irmã natural", apenas um pequeno capítulo do livro "Infância", de Graciliano Ramos, é uma pérola. Deixo o início, em imagem, como isco, ou para aguçar o apetite.

P. S.: faço votos para que algum dos visitantes do País-irmão, que representa quase 40% das consultas ao Blogue, ao ler este poste - e não conhecendo Graciliano Ramos -, se tente. Ganhará, certamente, muito mais, do que a ler Paulo Coelho, ou a perder tempo com outras burundangas que são o mainstream literário dos tempos que vão correndo... Felizmente, "há mais mundos", como dizia José Régio.  

terça-feira, 20 de setembro de 2011

Pelos finais de Setembro e do Verão


Estavamos a beberricar um Bucelas na esplanada, eu e o meu amigo Luís. O mar parecia manso, depois das marés vivas, as areias já quase livres e lisas de pegadas. E o azul anémico do céu mostrava alguns flocos de nuvens borbulhantes e mexidas. Era quase Outono, propenso à memória de outros dias mais luminosos. O Luís começou, então a contar-me (são palavras dele ligeiramente rectificadas, salvo num ou noutro pormenor):
"...anteontem, fui ao mesmo restaurante onde já não ia desde Agosto. Tu sabes, o olhar fica errante e curioso quando almoçamos ou jantamos sozinhos, fora. O mesmo acontece se somos o único estrangeiro, à mesa, num grupo de nacionais, porque falamos menos. Sobretudo se só soubermos dizer: sim, não e obrigado.
Depois reparei que, à minha frente, estava o mesmo grupo de pessoas que estavam da última vez que lá tinha ido. Só faltava um casalinho simpático que abancara com os outros, em Agosto. Mas o filho pequeno permanecera com os mais velhos, que deviam ser os avós. A jovem mulher do casal ausente devia ser nórdica, porque só a tinha ouvido dizer: sim e obrigado, com sotaque. Tinha o olhar claro, errante e curioso e trazia um vestido cor de fogo (lembras-te do José Régio?), de alças, que contrastava, quase escandalosamente, com o marfim da pele. Vi-a sorver com volúpia as ostras que vieram de entrada. E lamber, de olhos semi-cerrados, com prazer, o suco que escorria das gambas al ajillo. Dava gosto vê-la, sabes, assim jovem, assim abandonada no seu vestido escarlate quente. Mas anteontem já não estava lá. Para minha pena.
Por respeito à memória de Agosto passado, não pedi ostras, nem gambas. Optei por umas Tripas à moda do Porto, e acompanhei-as com Quinta de Cabriz, tinto. Porque estava frio, na sala. Tu sabes, às vezes, sou um romântico, sobretudo quando o Outono está por perto..."

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Meter o Rossio na Betesga


Como se sabe, a palavra betesga significa ruela estreita, viela. E esta expressão popular, que usei no título deste poste, quer dizer: meter algo grande num espaço pequeno demais.
Dito isto, julgo que, às vezes, chego a ter compaixão pelo Google. Para além de ter, frequentemente, o motor gripado, de o Alzheimer de que sofre ser progressivo, ainda para mais, muitas vezes, lhe pedem coisas "fantásticas", surreais ou barrocas, desmesuradas, irracionalmente. Ora vejamos dois casos sintomáticos que chegaram ao Arpose, via search words glutonas a quererem "meter o Rossio na Betesga":
1º caso - o distinto pesquisador escreveu e clicou para o motor do Google estas palavras: "escansão do quarto canto nunalvares pereira do livro mensagem de fernando pessoa". O Google baralhado e confundido titubeou, mecanicamente, 2 postes: "A ressaca de Pessoa" (12/6/10) e "O escanção aconselha" (27/6/10)...
2º caso - o minucioso investigador escreveu, como search words: "musicas a desgarradas dos açores do bairro das laranjeiras avô e neta % 2". E o Google, "ceguinho de choro (José Régio)", mandou-o para "Laranjeiras de Machado" (poste de 9/7/10) e também "Para um Avô que faz anos", de 26/7/2011.
Finalmente, fiquei banzado com uma das últimas search words que chegou ao Arpose. Nada menos que: "francisco sá de miranda papel de parede".
Mas que despautério!...