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quinta-feira, 18 de julho de 2019

Retratos (24)



Esguio, muito seco de carnes, pele muito branca, o que nele mais surpreendia era o aperto de mão musculado e forte vindo de uma tão aparente fragilidade corporal. 
Naquela vilória desengraçada e repetida, encontrá-lo era um oásis de frescura, no meio das minhas deambulações profissionais desinteressantes. E o prólogo apetecido de dez dedos de conversa estimulante. Bancário reformado, viúvo, pertencera à tertúlia lisboeta de José Marinho, era um ledor compulsivo e os seus diálogos tinham quase sempre um pendor filosofante.
Ele no início dos seus 80, eu a entrar nos sessenta, apesar da diferença de idades, fizémo-nos amigos leais, porque nos entendíamos facilmente. Trocámos muitas ideias e livros, mas há mais de 5 anos que o não vejo. O mais provável é já ter falecido, seguindo talvez o seu amigo Luís Amaro que lhe morava perto e de quem me falava muitas vezes.
O que eu não posso esquecer é que referindo-lhe eu, esmorecido, as leituras de Cícero (De Senectute) e Simone de Beauvoir (La Vieillesse), nos preparatórios para a velhice, J. Braga me tivesse oferecido, alguns dias depois, os Comentarios sobre la Vejez..., de Blanco Soler. Que foi, até hoje, o melhor livro que li sobre o assunto. E que conservo, religiosamente.
E já que falei de coisas santas, e a ele, que era crente, lhe desejo daqui a tranquilidade filosofante, lá, no assento etéreo, para onde provavelmente subiu.

sábado, 11 de outubro de 2014

No prosseguimento da leitura


A continuada leitura de "Guerra e Paz", de L. Tolstoi, levou-me a fortificar algumas convicções anteriormente pressentidas. Antes de mais, e como boa parte dos romances do século XIX, a obra foca uma sociedade ociosa, ou que vive dos seus rendimentos fundiários. E cujas ocupações são apenas os bailes, as roupas, as viagens, as caçadas, os amores e a guerra. As referências a profissões mecânicas, ou a trabalhos agrícolas, são mínimas.
Do ponto de vista formal, a tradução de José Marinho parece-me boa, ou em bom português, pelo menos, mas a revisão, destes livros da Inquérito, foi extremamente desleixada - há inúmeras gralhas ao longo dos volumes. Por outro lado, a exiguidade de notas, ou quase total ausência delas (fossem elas de pé de página ou finais), parece-me um factor muito negativo. Se, hoje, alguns mistérios podem ser resolvidos, em 1957 - quando a obra saiu - o seu esclarecimento seria problemático. Refiro-me a termos russos, em itálico, que vão desde utensílios domésticos ou alfaias, danças típicas eslavas, até nomes de roupas...
Já aqui falei e clarifiquei (18/8/2014) o que era "Danielo Cooper" que, após alguma pesquisa consegui identificar como uma dança muito em voga, na sociedade russa da época. Desta vez, e mais recentemente, assim li na página 113, do II volume:
"Mitka afinou a balalaika e começou a Barínia num tom alegre e vivo."
Nota do tradutor ou editor, sobre o que fosse barínia, não há...Que imaginasse o leitor o que seria. O recurso à net e ao Youtube veio a permitir-me saber que se tratava de uma dança folclórica russa, que aqui fica exemplificada, numa versão actual:

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Achar o fio à meada...


"Logo que se ouviram os sons alegres de «Danielo Cooper», tão parecidos com a dança russa do trepak..."
" - Sim, isto é que é «Danielo Cooper" - replicou Maria Dmitrievna..."
Estas palavras podemos encontrá-las, respectivamente, nas páginas 87 e 88 do romance "Guerra e Paz" (Inquérito, 1957), de Leão Tolstoi (1828-1910), na versão portuguesa de José Marinho. A busca a que procedi sobre esta dança, não me trouxe dados muito sólidos, e até o próprio nome aparece sob múltiplas siglas: Danilo Kupor, Daniel Cooper, Danila Cooper, para além da que foi escolhida pelo tradutor português.
Ao que parece, teria sido uma dança muito popular entre a aristocracia russa, no período das guerras napoleónicas (1803-1815), daí ser referida por Tolstoi. A música teria tido a sua origem numa antiga contradança inglesa, caracterizada por movimentos fáceis, mas rápidos, provindo o nome do compositor que a criou.
O vídeo é uma encenação moderna, russa, desta música e dança, mas dará para fazermos uma ideia de como seria executada, no tempo de "Guerra e Paz".

com envoi para MR.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Os livros que temos e os livros que lemos


Há dias, no "Público", Pacheco Pereira cronicou sobre a possibilidade de leitura de um ser humano, ao longo de toda uma vida. Concluía que, um leitor regular e empenhado, no máximo, talvez conseguisse ler, ao todo, 4.000 a 5.000 livros.
É normal, quando alguém conhecido entra, pela primeira vez, nas nossas casas (quando elas estão cheias de livros), perguntar: "Já leu estes livros todos?" Até aqui há uns anos, eu costumava responder: "Só cerca de 80%..."; mas, hoje, a fasquia teria de ser posta mais abaixo. Para ser verdadeiro, teria de dizer: "À volta de 60-70%, apenas..."
E tenho várias pedras no sapato. Nunca consegui ler o "À la recherche du temps perdu" de Marcel Proust, embora já tivesse feito inúmeras tentativas. "A Morte de Virgílio", de Hermann Broch, é outra das minhas faltas. Mas o meu maior remorso é o "Guerra e Paz" de Tolstoi. Em tempos de extrema juventude, consumi a minha Mãe, para que me comprasse os 3 altos ( e caros na altura: 150$00 escudos) e grossos volumes da Editorial Inquérito (1957), com tradução de José Marinho. Minha Mãe, depois de muito instada, lá mos comprou. Pois, infelizmente e até hoje, nunca consegui passar da página 70.
Mas tenho esperança de que nem tudo esteja perdido. Também tinha vários livros de Graham Greene, na biblioteca, desde os meus vinte anos, e nunca os tinha conseguido ler. Uma vez, já depois dos 45 anos, peguei num deles ao calhas e, gradualmente, li-o todo, e todos os outros com enorme agrado. Quase com tanta voracidade como quando, em 24 de Maio de 1971, fiz perto de uma directa, sem dormir, a ler, do princípio ao fim, nessa noite, "O Aprendiz de Feiticeiro" de Carlos de Oliveira.