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sexta-feira, 17 de abril de 2020

Apontamento 133: Por uma nova racionalidade



Paul Klee

Há bastante tempo que se vinha aflorando, em tertúlia particular semanal nossa, que havia qualquer “fim de festa” no ar, sem se saber o que viria a seguir. De certeza apenas “a consciência da vida caótica que o capitalismo engendra”, singularmente expresso por José Gil no seu último artigo:

“Vivemos, neste momento, dois tempos diferentes, em simultâneo: o nosso presente da vida confinada e o tempo da espera que a pandemia acabe. Nem um nem outro, nem os dois sobrepostos, ajudam a agir. Alguns pensam que este período de isolamento deverá ser aproveitado para tomar consciência da necessidade de mudar de vida, recusando voltar à “normalidade”. A normalidade representa o tecno-capitalismo e a vida caótica que ele engendra. (...) Mas mais profundamente, ela mostrou, segundo muitos, a futilidade e o vazio da vida sem sentido em que os povos viviam antes da pandemia”.
José Gil, Público, 13.4.2020

O que se deseja, certamente e de uma forma lúcida, é que a humanidade regresse a uma outra racionalidade, porventura numa retrotopia, palavra que fixei com interesse. O livro de Zygmunt Baumann, com o título Retrotopia está a caminho. Restam, para já, as palavras do autor, ditas numa entrevista ao El País: “Mirar atrás para recoger no significa ir atrás no volver”.

Post de HMJ

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Qualidade e quantidade


A nossa época é generosa e descuidada. Talvez por falta de critério. O consumismo desenfreado ajudou, os shares das tevês impuseram-se, tiranicamente, o feicebuque e os seus likes desmiolados contribuiram em grande. E até mesmo algumas publicações, com algum prestígio, se contagiaram por esta praga de números, que desprezam a qualidade.  Ou, pelo menos, são muito condescendentes e permissivos.
Já  aqui falei, há pouco tempo, na diferença numérica das escolhas anuais do TLS (20 livros) e Le Magazine Littéraire (100), quanto a opções de leitura aconselhadas. 
Uns bons anos atrás, L'Obs capeou de título e nomeou 20 filósofos do futuro. Portugal estava representado, honrosamente, por José Gil, nos happy few. Na última edição da revista literária francesa Le Magazine Littéraire a caridade generosa e de mãos rotas continua a ser norma. São, nada menos de 35, os pensadores destacados. Só que, desta vez, não há nenhum pensador português na lista.
Pudera!, quando alguns, pela escassez nacional e falta de sentido crítico, consideram Teixeira de Pascoaes como filósofo, o que seria de esperar das promessas destas novas gerações?
Generosidade, sim, mas devagar, pelo menos uma vez... 

domingo, 8 de julho de 2018

Morte assistida


Nunca morri de amores pelo DN. Acomodatício aos regimes e conservador com o poder, teve, no entanto, alguns bons jornalistas. E, nos anos 60, a sua página literária semanal dirigida por Natércia Freire, revelava alguma qualidade, apesar de muito encostada à Direita e às academias dominantes...
Mas não foi sem alguma melancolia que tive notícia da sua desaparição como diário, para surgir apenas semanalmente, ao Domingo. Pacheco Pereira prognosticou-lhe a morte anunciada, com uma prévia e prolongada agonia - previsão que subscrevo também, pelos indícios.
Resolvi, no entanto, dar uma última oportunidade ao velho(-novo) DN, e hoje comprei-o na banca. O jornal é enorme e incómodo de ler, pelo tamanho. Custa 3 euros e traz uma revista (Evasões), mas muito fracotinha. Vários colaboradores e cronistas, de que se aproveitam, na minha modesta opinião, apenas os artigos de Ferreira Fernandes, Soromenho Marques e Fernanda Câncio. E uma entrevista a José Gil, interessante. O resto, é banalérrimo.
De surpresa, apenas a reprodução, em separado, de um cartoon de Stuart Carvalhais, que aproveitei para imagem deste poste. Mas, como era também gigantesco, usei apenas cerca de 1/3 dele...

segunda-feira, 8 de maio de 2017

Do que fui lendo por aí... (8)


Às vezes, vemo-nos melhor de fora, imersos na realidade de outro país. Apercebemo-nos, com maior acuidade das virtudes e dos defeitos deste nosso povo de portugueses. Estão por aí palavras duras, como punhos, de Jorge de Sena, ou palavras pensadas, maduramente, de Eduardo Lourenço e José Gil, sobre os portugueses, para citar apenas três dos mais recentes escritores da nossa diáspora, crónica. 
Há dias, tive ocasião de ler uma saborosa entrevista de Onésimo Teotónio Almeida (1947), ao  jornal Expresso, em que este açoreano, catedrático da Universidade de Brown, radicado há 45 anos nos E. U. A., também discreteava, com irónica sabedoria sobre os nossos hábitos, virtudes e defeitos.
Na altura, fiz alguns sublinhados nas suas palavras, que vou passar a transcrever:

" A nossa geografia e a nossa arquitetura não são grandiosas, mas são graciosas. Felizmente, graças aos apoios europeus, preservou-se o centro de muitas cidades e vilas históricas. Guimarães é um exemplo, mas também Melgaço, Monção, Valença, Ponte de Lima, Amarante, a Beira está cheia de vilas dessas, o Alentejo também..."
...
" Irrita-me o barulho que se faz à mesa nos jantares, não se consegue conversar. Há pouca curiosidade em conversar sobre assuntos mais sérios, dificilmente se dialoga. Depois, as pessoas aqui sabem tudo sobre o mundo, têm sempre lições e soluções para todas as questões. Fala-se muito e ouve-se pouco."
...
" Quando discuto ideias, discuto-as muito a sério. Em Portugal, acabo a contar anedotas e histórias porque não dá para muito mais. Em vez de me irritar, passa-se um serão agradável entre amigos."

segunda-feira, 5 de março de 2012

Um aniversário


Como de vez em quando acontece, o meu jornal, que faz hoje anos, convidou alguém de fora a ser director por um dia, com ampla liberdade para o formatar e preencher à sua vontade. Caíu a sorte, coube-nos a sorte, de ser José Gil (1939) a exercer essa função. Por outro lado, o "Público" de hoje era grátis. Isso veio, no entanto, a criar-me um problema inesperado e um  incómodo quase fatal: na banca onde o compro, religiosa e diariamente, esqueceram-se de me guardar um exemplar e, não fora a "peregrinação" errante de HMJ (obrigado!) por bancas de "trancos e barrancos", e eu ficaria sem ler o jornal de hoje - que está magnífico.
Na edição de hoje, o "Público" tenta abordar o país, Portugal, pelo seu lado mais escuro, desconhecido e profundo. Uma espécie de sondagem à alma dos portugueses. Do editorial de José Gil, retenho um pequeno excerto que passo a transcrever:
"...O nosso país está demasiado cheio (de informações, imagens, bugigangas de toda a espécie) e quanto mais se enche mais se enterra o vazio essencial a que não se dá a importância que tem. ..."

quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Citações LVI : José Gil


"Tudo isto entra no mesmo plano de não-inscrição que atravessa a existência dos portugueses. Compõe-se assim a estranha imagem de um povo com um fundo de barbárie envolvido por inúmeras camadas de cultura (desde o paganismo grego e latino aos celtas e árabes) que não conseguem transformar completamente esse fundo em civilização.
Qualquer coisa de não formado, de tosco, de não acabado pertence ainda à cultura portuguesa de hoje. Qualquer coisa que, no entanto, perdeu a força diante da extraordinária produção cultural popular, que foi absorvendo o fundo bárbaro sem nunca o esgotar, sem nunca o transferir para formas civilizacionais."
José Gil (1939), Portugal, Hoje: O Medo de Existir, pg. 99.

quarta-feira, 10 de março de 2010

O Silêncio



"...Nós precisamos de silêncio. E isto não são coisas muito profundas. O que é terrível é que se tenham tornado coisas profundas! São coisas evidentes! Estou-me a lembrar de um amigo etnólogo, francês, a trabalhar no Senegal. Acontecia que um dos homens da região onde ele trabalhava no terreno vinha a Paris, batia à porta de casa dele, entrava, sentava-se e parece que ficava cinco horas sem dizer uma palavra. Cinco horas depois, levantava-se e dizia adeus, ia-se embora. É outra maneira de estar. Tinha feito o que era necessário: retomar a amizade, no silêncio... Portanto, estamos a falar de coisas simples e que, de repente se tornam coisas esotéricas..."

José Gil, em entrevista ao "Público" de 10/3/2010