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terça-feira, 30 de outubro de 2018

Confusão de sentimentos


Por entre sentimentos contraditórios, tomei conhecimento da dispersão, através de leilão, da biblioteca de François Miterrand (1916-1996), recentemente em Paris. As heranças a distribuir, neste caso particular, são o diabo!...
Eu creio que, perante situações destas, um bibliófilo honesto e autêntico, experimenta sensações adversas, no seu íntimo. Projecta o futuro dos seus livros e é atingido por uma nostalgia ontológica; depois, encara o leilão concreto, como uma janela de oportunidades, para enriquecer a sua biblioteca.
Senghor (1906-2001), com Aimé Césaire e José Craveirinha são os poetas da negritude que eu mais estimo, sobretudo, por questões de qualidade do seu ofício.

Por isso, embora vindo de uma biblioteca que se dispersou, por força do destino, eu não quis perder este livro com dedicatória do poeta e político senegalês. Que a endereçou a uma representante de uma família guineense conceituada, que ainda tinha raízes na Serra Leoa. Porque África, por metáfora excessiva, também pode ser considerada uma pequena aldeia... E, também, porque apesar da descolonização, ainda há muita coisa que vem parar à Europa. 

sábado, 26 de março de 2016

Craveirinha


No Pórtico (Prefácio), diz o poeta moçambicano, do livro acabado: "O Maria balada inteira aí está". Só pelo tom comedido será justa a classificação, do que eu diria antes ser uma longa e belíssima elegia, que José Craveirinha (1922-2003) foi compondo por entre os 9 anos que passaram, depois da morte da Mulher. É um poeta viúvo que perdeu meia face e, com a outra, própria e sozinha, foi continuando a escrever o dia a dia. Nas suas coisas mais simples, mas já desamparadas pelo monólogo da casa.
Porque entre Karingana ua Karingana (1982) e Maria (1998), os versos cada vez mais portugueses, e menos africanos, numa estridência que sempre foi medida, ganharam o granito da terra e a essencialidade da maior poesia. Que este último livro tenha sido pouco falado, e menos ainda recenseado, não me surpreende. É sempre mais fácil falar de coisas banais (parece que se publicam, diariamente, 2/3 livros de versos, hoje, em Portugal...), do que ter de elevar o tom, para apreciar uma obra singular e única.
Fiquemo-nos pelo poema que José Craveirinha designou por Ao gosto de Maria:

Dizem que o Zé Craveirinha
é um velho sempre na moda
que sabe vestir
e calçar bem.

Mas o Zé diz que tudo o que ele usa
não é ele mas Maria
que o faz escolher
ao gosto dela.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

Um poema de José Craveirinha (Moçambique, 1922-2003)


Aforismo


O preconceito da ave
não é o tamanho das suas asas
nem o ramo em que poisou

Mas a beleza do seu canto
a largueza do seu voo...
o tiro que a matou.

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

José Craveirinha



De José Craveirinha (1922-2003), poeta moçambicano e Prémio Camões 1991, já aqui falámos algumas vezes, no Blogue. Para lhe sublinhar a medida e discrição por contraste, sábio, em relação à habitual estridência da maior parte dos vates africanos. Para além dum cuidadoso, quase clássico, uso da nossa língua comum. Rui Knopfli considera-o "o maior poeta africano de expressão portuguesa" - eu não poderia estar mais de acordo.
Este livro "Maria" (1988), em imagem, é um exercício raro. Uma longa elegia de amor conjugal, pela morte da Mulher. Dos mais de quarenta poemas, seleccionamos:

Solitários

Primeiro uma injuriosa nódoa nas calças.
Depois a falta de um botão na camisa.

E no princípio da noite
eu e a sobra do almoço
solitários na casa toda
aborrecidos um com o outro.

sábado, 5 de maio de 2012

Um poema traduzido de Aimé Césaire


Com Léopold Sédar Senghor (Senegal, 1906-2001), que ainda tinha nas suas raízes sangue português, Aimé Césaire (Martinica, 1913-2008) é, talvez, dos menos reconhecíveis poetas da negritude, na língua francesa. Neste aspecto e do meu ponto de vista, muito próximos do moçambicano José Craveirinha (1922-2003), na sua relação poética com a tradição e língua portuguesa. Quero eu dizer, quase não há nas suas obras aquela estridência tropical exclamativa, aquela superficialidade exuberante que caracteriza muita da poesia ultramarina, mesmo que escrita em língua europeia. Dito isto, que será polémico, passemos a traduzir, de Aimé Césaire, o poema:

Percurso

Da minha íntima saliva retive líquido
o sangue
impedindo que ele se perdesse por escamas esquecidas
Cavalguei por entre mares incertos
os golfinhos memoráveis
desatento a tudo excepto
no recensear o recife para marcar o amargo
Por porto seguro tenho deuses
reinventei as palavras
Onde desembarquei trabalhei o baldio
escavei o sulco desenhei as leiras
cá e lá sacrificando limite após limite
Ó Esperança a química humilde
da tua amarga estaca

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Decantação


Eu teria que dizê-lo um dia.
Houve em Portugal, sobretudo nos anos 80 e em meios universitários, principalmente, uma excessiva benevolência crítica para com as obras escritas que nos chegavam, ou tinham chegado, nos anos 70 do século passado, das ex-colónias portuguesas. Penso haver 3 razões capitais para este "deslumbramento" acrítico:
1. um certo gosto parolo pelo exotismo, que foi uma moda da modernidade em sequência de alguns bons romances sul-americanos;
2. remorsos reflexos de alma dos ex-colonizadores;
3. num universo rarefeito de autores de língua portuguesa, alguns professores universitários sem matéria em que se debruçassem, descobriram a árvore das patacas e novas pastagens, e cadeira: "Literaturas Africanas de Língua Portuguesa". Este maná também chegou ao Brasil.
Assim, autores de terceira ou quarta ordem, e de muitíssimo duvidosa qualidade literária, passaram a merecer monografias detalhadas, estudos bacocos e medíocres, atenção idolatrada. E, deste modo, alguns mestres universitários engordaram com estas novas pastagens.
Quem se lembrará hoje de Basílio da Gama, ou lerá Cláudio Manuel da Costa, senão no Brasil?
Mas no meio do joio de que falava acima, para ser justo, há também autores de primeira água, como, por exemplo, José Craveirinha que morreu há precisamente 8 anos (6/2/2003). Mulato moçambicano, filho de pai branco português e mãe negra, nasceu a 28 de Maio de 1922. Foi Prémio Camões, em 1991. E é um bom poeta de língua portuguesa. Lembrêmo-lo:

Gumes de Névoa

Lágrimas?

Ou apenas dois intoleráveis
ardentes gumes de névoa
acutilando-me cara abaixo?