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segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

Portugal no seu melhor


Por mero acaso, assisti na TV a um diálogo (com moderadores equilibrados, mas activos e perspicazes) entre Manuel Alegre e José Cid. Sobre temas da actualidade. Nada de mais oposto, politicamente. José Cid, monárquico empedernido, Manuel Alegre, retintamente republicano, mas ambos de uma coerência ideológica firme e cristalina que nunca excluíu um diálogo urbano, solidário e inteligente. Houve momentos de emoção, de humor, de picardia, por vezes, mas sempre num tom de respeito democrático e elevado. Foi salutar, para mim. Até ambos, numa aliança de nobreza e dignidade, recusaram "jogar", durante o programa, o desporto, muito em voga hoje em dia, denominado "tiro ao Cavaco" - assim crismado pelo acutilante Professor Marcelo.
No final, José Cid sentou-se ao piano e cantou, com letra de Manuel Alegre, uma canção dedicada a um amigo comum - Adriano Correia de Oliveira. O Poeta assistiu, de rosto emocionado. Foi um momento bonito de uma fraternidade portuguesa que pode ultrapassar os pormenores da divergência, para se unir, naquilo que nos é essencial. 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Miscelânea, em piloto-automático


Nada do exterior me diz respeito, ao contrário da célebre frase, a menos que me desperte fascínio, compaixão, ou simpatia. O percurso ainda vai ser longo, o joelho direito começa a dar sinal, mas nada que resista a um eficaz piloto-automático, estóico, a trote pelas ruas ensolaradas. Umas horas antes, quando pedestal expectante, aguardava, fiquei envolvido, de repente, por um grupo de turistas alemães azamboados, vindos do Camões, à volta da estátua do Pessoa metálico, seguindo como pintaínhos desprotegidos, e cegamente, uma guia lusa "de paupérrimas feições", que perorava em cassete. Tive que afastar-me, cautelosamente, do cerco dos teutónicos embevecidos pela verve poética da guia portuguesa.
No Largo, felizmente discreto e pouco conhecido, até encontrei um amigo que não via, há anos. Estava com óptimo aspecto, moreno, reformado da Marinha. Foi um bónus, porque bastaria o diálogo de sangue, as palavras abertas que, normalmente, se cruzam muito claras e límpidas. Prolongamentos, no tempo, do que sinto, ou lembro que senti.
No percurso cego do piloto-automático, vem à colação, para além do José Cid e do Paulo de Carvalho, uma pergunta, ontem, de outro amigo: "-Mas acha que há 1.500 portugueses que comprem o Steiner?" Já em Sete-Rios, já só vejo perfis, pombos atrevidos, fiapos de nuvens...- o piloto-automático, em grande. Reinventario o passado recente: no Largo, só o preto repetitivo não começou aos gritos às três da tarde. O resto, igual: as putas, os chulos habituais, as velhinhas a ir para a Igreja, alguns turistas oblíquos e perdidos. E o Largo, na sua placidez, esteve sempre tranquilo. Acenei à Sagitário-Carneiro, despedi-me, afectuoso, do Caranguejo-Balança. Do Touro-Escorpião, já lhe dissera adeus havia uma hora, quase.
Quando cheguei a casa, fui logo ver o limoeiro. Respondeu-me com 12 limões viris (mais um do que na safra passada), de verde intenso, pujantes e com força de crescer. A dor, no joelho direito, estava esquecida. ou desapareceu. Três horas depois, achei que devia acabar com Saramago, que ando a reler. Por isso, segue: "...o povo vive longe, não lhe chegam notícias, ou não as entende, só ele sabe o esforço que lhe custa manter-se vivo..." Amén.

para os meus Amigos.