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quarta-feira, 2 de setembro de 2020

Máxima


O animoso faz da vontade força, e o discreto, conselho da necessidade.

Jorge Ferreira de Vasconcelos, in Comédia Aulegrafia (pg. 104).

sábado, 29 de agosto de 2020

Esquecidos (3)


Permito-me opinar sobre um assunto momentoso e próximo, de que não sou porém especialista.
Eu creio que a degradação e miséria dos resultados práticos do ensino se devem, essencialmente, não à quantidade de cultura ministrada, mas à ausência de uma estratégia coerente  (ministério), à insuficiência dos agentes de educação (professores, maioritariamente), à passividade ignorante das famílias inertes e ausência de intervenção sua positiva junto dos jovens. Tudo isto maximizado pela idade das trevas em que vivemos e que alguns querem com fervor perpetuar, para seu descanso administrativo. Pão e circo sempre narcotizaram o povinho, em favor da tranquilidade dos imperadores e das ditaduras...


Dizia-me, há dias, HMJ que só não tiraram Camões dos programas de ensino (e Pessoa), porque seria excessivamente escandaloso. Mas, entretanto, todo ou quase todo o século XVI, talvez o mais rico da nossa história, literariamente, foi varrido do ensino às criancinhas, para lhes proporcionar o cómodo facilitismo das aulas reinadias.
E, no entanto, houve nesse século, alguns verdadeiros best-sellers, como por exemplo a Comédia Eufrosina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515?-1585?), que, em 11 anos teve nada menos do que 4 edições (1555, 1560, 1561 e 1566). Tendo sido traduzida para castelhano, com prefácio de Quevedo, em 1631.  E, em 1951, o filólogo e bibliófilo espanhol Eugenio Asensio (1902-1996) fez imprimir em Madrid uma nova edição da comédia referida, com uma elucidativa introdução.
Creio ter sido o último trabalho de vulto, até hoje, que se produziu sobre o escritor português.


Já M. Bernardes Branco (1832-1900), em pequeno prefácio à segunda edição do Memorial das Proezas da  Segunda Tavola Redonda (Typ. do Panorama, Lisboa) se interrogava assim: "Mas quem lerá esta obra? Os leitores dos modernos romances? Certamente que não. Jorge Ferreira de Vasconcellos não é um Walter Scott, nem um Alexandre Herculano, Rebello da Silva ou C. Castello Branco. Os antigos talvez não gostassem dos modernos romances, se os podessem ler; mas bofé que os modernos tãobem se não deleitam muito na leitura dos romances dos seculos XV e XVI.
Quem serão então os leitores do Memorial dos Cavalleiros?
Hão de ser, com rarissimas excepções, os amantes dos livros portuguezes antigos, que considerarão sempre esta obra como util para os amantes da pureza  de linguagem, para os que gostam de ver os progressos que os estudos romanticos fizeram em Portugal, para os estudiosos dos antigos usos e costumes nacionaes e para pouco mais."


Estas palavras de Bernardes Branco são realistas e de sabedoria... E hoje será ainda pior.
Concordo que, para a imensa maioria, ler uma das obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos seria grande sensaboria e só, talvez, alguns poucos chegariam ao fim do livro.
Estes textos terão, no entanto, pequenas e gratas compensações. Se a acção e enredo dos livros não são muito movimentados, o entrelaçamento de sentenças, anexins, máximas e provérbios é enorme. E o léxico é riquíssimo e fresco, apesar de antigo. Deixo por aqui um cheirinho, para apreciação, retirado da página 18, da Eufrosina:
"A filha da puta estava bonita como ouro, de sua vasquinha amarela quartapisada, em mangas de camisa, seus cabelos ataviados com hua fita encarnada tam de verão que vos ride vos de mais Serea pintada. E por mais ajuda em me vendo ficou brasa."


Admito que Jorge Ferreira de Vasconcelos será um caso esquecido e perdido, para sempre, como escritor. Ainda para mais, as edições das suas 4 obras conhecidas, além de raras, saem sempre caras, em alfarrabistas ou leilões, em que  escassamente aparecem.
Que se há-de fazer?!...

terça-feira, 19 de julho de 2016

Da leitura (14)


Ao seu romance Grande Sertão: Veredas (1956) chamou João Guimarães Rosa (1908-1967) "autobiografia irracional". Mas ele não destoa, de um modo geral, do registo da sua restante obra. A toda ela preside um tratamento onírico (poético?) da linguagem, onde o léxico antigo se mescla no regional, estrangeirismos sabiamente aportuguesados, convocando reminiscências sensoriais, sabedoria popular, mas também científica, num discurso que muitas vezes se assemelha ao piloto automático do surrealismo.
Por alguns aspectos os seus livros lembram-me, também, dois antigos escritores portugueses: Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515?-1585) e, um pouco menos, Francisco Manuel de Melo (1608-1666). Nas Comédias do primeiro são frequentes os bordões de linguagem, normalmente, provérbios que o escritor utiliza num encadeamento vertiginoso em que é difícil distinguir o que são as palavras do autor e a sabedoria ancestral e popular. Idêntico processo se verifica em algumas obras do poeta seiscentista.
Voltando a Guimarães Rosa, de que releio Grande Sertão: Veredas. É manifesto o uso de adágios, existentes, ou criados para o efeito da função de máximas, que asseguram (numa espécie de suspension of disbelief) ou fortificam o decurso da narração que é um prolongado contar de história, quase monólogo, saborosíssimo, aliás. Por aqui deixo 4 pequenos exemplos das primeiras páginas:
- "...quem mói no asp'ro, não fantasêia. ..." (pg. 11)
- "Sua alta opinião compõe minha valia." (pg. 11)
- "...passarinho que se debruça - o voo já está pronto!" (pg. 13)
- "Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal!" (pg. 14).

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Idiotismos 35


Expressões há que já nem damos por elas, de tanto as usarmos no dia a dia, outras que se foram desapropriando do tempo, e é com surpresa que as vamos encontrar nos clássicos, sob a pátina respeitável dos séculos. Outras ainda que, de súbito, nos interrogam a meio de uma conversa, perguntando-nos a nós mesmos a sua origem e razão. 
Ao ver tanta ave pelos céus e campos alentejanos, dei-me a pensar que até os pássaros têm o seu destino traçado, de nascença. Às águias e às gaivotas, ou mesmo às cegonhas, ninguém as caça e mata para comer. Outro tanto não acontece às perdizes que nos caíram no goto, como prato de eleição, ou aos tordos, infelizes, que os caçadores perseguem incansavelmente.
No meio destas variações, gastronómicas ou não, se estabelecem também oposições curiosas. Se cair no goto significa engraçarmos com, ou gostarmos de, a expressão entrou-me no goto pode ser uma aflição, porque nos engasgamos e podemos sufocar, já que goto é a forma popular de glote, que é o local da faringe com a função de saída e entrada do ar nos brônquios e pulmões.

Nota complementar: a primeira vez que a expressão cair no goto aparece, em literatura, data de 1555, na Comédia "Eufrosina", de Jorge Ferreira de Vasconcelos. Herculano utilizou-a também em "O Monge de Cister" (1848), bem como Camilo no romance "Aventuras de Basílio Fernandes Enxertado" (1863).

agradecimentos a A. de A. M., pela colaboração e ajuda.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Adagiário CCXVIII


Um pouco na esteira de algumas obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos e Francisco Manuel de Melo , embora com menor intensidade, é um punhado de ditos ou provérbios, que aqui deixo, colhidos de Aquilino Ribeiro, no seu conto "O burro do senhor seu dono", incluido na obra "Quando ao gavião cai a pena". Como se seguem:
- Burra de vilão burra de Verão (pg. 205).
- Antes a lã se perca, que a ovelha (pg. 206).
- Mais por bife de burro do que por coixa de carneiro (pg. 206).
- Filho da fortuna, neto da extravagância (pg. 207).
- Deus te dê o que te falta, que é o fole mais a gaita (pg. 218).

terça-feira, 16 de abril de 2013

Citações CXXVIII : Jorge Ferreira de Vasconcelos


"Onde há verdadeiro amor não cabe desprêzo, e os amores de princípio levam a ser depois públicos. Porque as mulheres querem que as mereçam por tempo. E aos homens por isto lhes é forçado fazerem muitas coisas na praça que danam ao diante. ..."

Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515?-1585?), in Comédia Eufrosina.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Idiotismos 13


Algo documentada, desde há muito, em obras literárias, a expressão ir bugiar ou mandar bugiar significa mandar à fava ou, mais literalmente, mandar pentear macacos, como refere Alexandre de Carvalho Costa, na sua obra já aqui referida. No fundo, uma forma mais extremada de dizer: Não me aborreças!
Parece que a expressão terá tido origem em Bougie (Argélia), onde os espanhóis, quando lá aportaram teriam visto muitos macacos. Foi esta terra do norte de África que Teixeira Gomes escolheu para exílio, e lá acabou por morrer.
Mas, e voltando ao princípio, a expressão já aparece na Ulysipo, de Jorge Ferreira de Vasconcelos:
 Vai, vai Joana bugiar,
não andes no alparvado.
E Gil Vicente usou-a também, no Auto de Mofina Mendes:
Senhora não monta mais
semear milho nos rios.
Que queremos por sinais
meter coisas divinais
na cabeça dos bugios.
Porque, classicamente, bugio é uma classe de macacos. Muito embora já tenha visto o vocábulo utilizado para significar rochedo, no meio das águas. E no feminino (bugia) valha, também, por pequena vela de cera, ou griseta.
Antenor Nascentes lembra que o étimo do nosso bugiar talvez possa ter origem comum ao do verbo italiano bugiare - dizer mentiras. Custa-me a aceitar. Mas seja como for, a expressão está ligada a macacos e, sobre isso, não há dúvidas.
A propósito, já agora, pergunta-se porque chamaremos nós, Forte do Bugio, à pequena fortaleza, com farol, na Barra do Tejo? Com planos mandados fazer, ainda no reinado de D. Sebastião, mas só edificada no tempo de Filipe I, foi instalada na ilhota de Cabeça Seca. Inicialmente denominado por Forte de S. Lourenço, o povo crismou-o, para sempre, como Forte do Bugio (do macaco?).

segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Idiotismos 10 : ainda sobre argueiros e araújos


Falei aqui, algumas vezes, de argueiros e araújos, a propósito de uma visita importuna e indesejável, que vem ao Arpose. Referi, por exemplo, que araújo é um argueiro no olho - incómodo, portanto. Mas, há dias, vim a descobrir mais algumas coisa sobre este vocábulo.
O seu uso é antigo, porque já na "Aulegrafia" (1619), Jorge Ferreira de Vasconcelos refere: "...não sofrer argueiro nas orelhas...", no equivalente a pulga, decerto. Carolina Michaelis comparou-o, por sua vez, ao ácaro (daí a imagem). João Ribeiro (Frases Feitas, 1908) explica que argueiro é "qualquer partícula ínfima e levíssima das que andam no ar".
Por sua vez, no Rifoneiro português, embora com significado um pouco distinto, existe o provérbio: "Fazer de um argueiro um cavaleiro". E, mais uma vez, para me justificar e comprovar a sua antiguidade, cite-se do "Cancioneiro Geral" (1516) de Garcia de Resende:
Pode ser maior marteiro
Se no ombro cai argueiro
Que não se há-de espenicar?
E, já que estamos em verso, para terminar, registe-se da "Hora do Recreio", de J. Baptista de Castro:
Quem case não case às cegas,
Mas seja sagaz e astuto,
Argos em vez de argueiros
E nos lances lince agudo.
Por hoje, de araújos e argueiros, é tudo.