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terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Cotações no mercado


Se há escritores que não perdem, após a morte, a sua popularidade e cujas obras se vão continuando a imprimir e vender, como os livros de Simenon, por exemplo, outros há em que a crítica começa logo a questionar a qualidade da sua ficção, a seguir ao falecimento do autor, como foi o caso de John Updike. Ou mesmo em vida, como parece estar a acontecer, agora, com a avaliação que se tem feito  das últimas obras de J. M. Coetzee.
Na Inglaterra, a perda de interesse pela obra de Françoise Sagan (1935-2004) tem sido progressiva (o TLS regista-a) e raros, dos seus livros, têm sido reeditados, encontrando-se esgotados na sua maioria, talvez porque esse clima fluído e leve da ficção da escritora francesa, que lembra a atmosfera cinematográfica de um Rohmer ou de um Truffaut dos anos 60/70 ( certeiro, oTLS dixit), se tenha perdido para sempre, nos dias de hoje.

terça-feira, 19 de novembro de 2019

Uma fotografia, de vez em quando... (134)


Recentemente falecida, a britânica e judia Sally Soames (1937-2019) trabalhou fundamentalmente como fotógrafa para The Observer e para The Times. Retratista dotada, em boa parte da sua obra, é notória a sua faculdade inata para fixar pela expressão a personalidade principal dos seus modelos.


Desde o felino olhar cerval de Blair à quietude tranquila, ligeiramente tímida (ou irónica?) de Updike, Sally Soames tentava captar intimamente o modo de ser de quem retratava. Em 1966, terá passado toda uma tarde com Orson Welles, antes de o fixar para sempre através da sua objectiva.


quarta-feira, 10 de julho de 2019

Expectativas


Nem sempre, e à primeira vista, o TLS me permite alimentar grandes expectativas de leituras. Mas o último (nº 6066), que ontem adquiri, abriu-me logo o apetite. A imediata empatia com a capa de Darren Smith e o nome de John Updike (1932-2009) despertaram-me a atenção. Talvez venha a ser o ponto de partida para eu ir reler o grande romancista norte-americano. Embora Claire Lowdon se precate, ao duvidar que os seus temas possam ainda agradar à juventude. A  abordagem, simultânea e comparada, com Bellow, Mailer e Roth não deixa de ter interesse, mas revelar alguns riscos.
Mas este TLS traz ainda artigos desenvolvidos focando as obras de Graham Greene (The Comedians), Virginia Woolf e Scott Fitzgerald, o que me permite supor vir a ter uma semana de boas leituras. Tudo autores que conheço razoavelmente e de que gosto, desde há muito.

domingo, 30 de julho de 2017

A avisada e prudente usura


Aguce-se o crítico bisturi pessoal para raspar as camadas de ferrugem que cobrem o essencial.
Não se vá atrás da emoção de uma capa bem esgalhada, das badanas encomiásticas ao autor, para deslumbrar o ingénuo e putativo leitor, esqueçam-se as estrelinhas dos jornais, gabando o livro, como best-seller da actualidade. Que, em menos de um ano, será vendido nas estações do Metropolitano a metade do preço ou, talvez, triturado nas guilhotinas impiedosas dessas editoras sem critério literário, mas com poderosas baterias de propaganda com meros objectivos comerciais. A que se juntam umas senhoras e uns raros senhoritos que abriram blogues chulos e mercenários, em parceria (disfarçada) com as ditas editoras, em que, para além de falarem de tachos e panelas, também escrevem sobre livros, de uma maneira infantil e paupérrima. Porque, quanto à chamada crítica literária, em revistas ou jornais portugueses, hoje em dia, estamos conversados.
A juventude pode dar-se ao luxo - como eu fiz, aliás - de gastar perdulariamente o seu tempo com autores menores e leituras inúteis. Mas pede-se à maturidade, e sobretudo à velhice, que seja mais prudente e use o seu tempo de forma mais útil e criteriosa. O tempo já vai medido, e não é muito...
Um bom amigo meu contou-me, há dias. Tinha à sua beira dois livros. Um do nacional hugo mãe (zinha), outro do norte-americano John Updike. Isentamente, abriu um após o outro, e leu as primeiras linhas de cada livro. Entre a prosa paroquial, pequenina, a pretender ter graça, e a prosa séria, universal de Updike, não teve dúvidas. Continuou a ler o romancista americano e abandonou o livro do escritor (?) português. Até porque nem sempre é verdadeiro o slogan: o que é nacional, é bom. Pode ser péssimo, mesmo que lido com piedosa e patriótica caridade...

domingo, 7 de setembro de 2014

Contos : breve balanço de leituras


A palavra escrita, para quem sabe ou gosta de ler, tem o condão de despertar o respeito e/ou a curiosidade, por todo e qualquer documento impresso. Ainda hoje, ao depositar os jornais antigos, no contentor do papel, não pude deixar de sobrevoar uma olhadela platónica pelo que por lá havia. Folhetos de publicidade e jornais velhos, na sua quase totalidade. De vida breve, portanto.
Lidos os 25 contos de ficção, para intervalar a prosa longa de "Guerra e Paz", das duas antologias que comprei, há dias, há que fazer um balanço curto. Há dois de que poderei contar a história resumida, para algum amigo ou conhecido, que tivesse curiosidade. O primeiro que li, "A senhora do cãozinho", de Anton Tchekhov, passado em Ialta; e "A piscina orfã", de John Updike, ajudado talvez pela - julgo - magnífica tradução de Luísa Costa Gomes. À distância, e com benevolência, poderia fazer alinhar, ainda, uma curta narrativa de David Lodge e, outra, de O. Henry (Primavera à la carte). Os restantes contos são esquecíveis.
E foi tudo: magra colheita...

quarta-feira, 18 de junho de 2014

Romances de Amor, uma escolha de Updike


Até finais dos anos 70 do século passado, e por razões académicas, mantive-me relativamente actualizado sobre a figura e obra do poeta e romancista norte-americano John Updike (1932-2009). Depois, o acompanhamento foi bastante mais bissexto. Mas uma recente recensão, no TLS (nº 5802), sobre a saída de uma biografia do escritor (Updike, de Adam Begley), permitiu que eu actualizasse alguns dados e fosse em busca de outros. Deparei-me, por exemplo, com a sua escolha pessoal dos 5 melhores romances de Amor, da literatura mundial, que veio a ser incluida no volume Due Considerations: essays and criticism (2007). Por ordem cronológica, a escolha de Updike é a seguinte:
1. La Princesse de Clèves (1678), de Madame de La Fayette.
2. Les Liaisons Dangereuses (1782), de Choderlos de Laclos.
3. The Scarlet Letter (1850), de Nathaniel Hawthorne.
4. Madame Bovary (1856), de Gustave Flaubert.
5. Loving (1945), de Henry Green.
Tentei fazer o mesmo exercício, mas pessoal e apenas em relação a obras portuguesas. De momento, e pese embora algum lapso de memória, só consegui seleccionar três:
1. As Cartas Portuguesas (Les Lettres Portugaises, Paris, 1662), atribuidas a Mariana Alcoforado, mas mais provavelmente da autoria de Gabriel de Guillaragues.
2. Amor de Perdição (1862), de Camilo Castelo Branco.
3. O Primo Basílio (1878) ou Os Maias, de Eça de Queiroz.

P. S. : Por oportuna sugestão de HMJ, que apoio, junta-se uma 4ª escolha portuguesa - Menina e Moça ( 1554), de Bernardim Ribeiro.

sábado, 22 de junho de 2013

Retratos 10 : o Ben


Eugénio de Andrade escreveu um dia: "Não se escolhe, é-se escolhido". Mas há também encontros que nos orientam caminhos, bem como opções que não permitem senão uma escolha, em nome da solidariedade humana. Ou do dever, seja ele familiar, ou não. Que nos fazem inflectir, ou voltar atrás.
Provavelmente, eu nunca teria feito o trabalho de Seminário para a tese, na Faculdade, sobre John Updike (1932-2009), se não tivesse conhecido o Ben. Não me lembro como é que ele chegou àquela improvável República lisboeta, ou Lar, onde os saberes se misturavam numa Babel única e cristã: futuros engenheiros, historiadores, médicos, professores, advogados... E onde as paredes se juncavam de gravuras escuras de José de Guimarães, ainda com traços muito visíveis e influenciados por Rouault. Mas nesses anos 60, havia, apesar do dinheiro não ser muito, imensa alegria juvenil.
O Ben vinha de uma longa, em tempo, e extensa em geografia, viagem europeia, à boleia. Com pertences sucintos que se acomodavam numa mochila de campismo: livros, umas sandálias ortopédicas, de madeira, 2 ou 3 mudas de roupa, e pouco mais. Vinha cansado e ficou aboletado no Lar por quase um ano. Entretanto, aprendeu a falar português. Aquário e alto, escocês, com cerca de 25 anos, era filho segundo de uma família de agricultores, gostava do ar livre e do sol, de música, e parava muito pouco em casa. Era frugal no comer. Pagava a mensalidade da mesada que o pai e o irmão mais velho lhe destinavam da exploração da Quinta que trabalhavam, na Escócia.
Além disso, o Ben conseguiu criar uma banda de rock, com o António M. e um terceiro elemento, que teve algum sucesso efémero, chegando a ganhar um prémio num concurso do Parque Mayer. Depois, ia tocar a pequenas festas, ou discotecas, e assim arredondava o seu orçamento mensal. Foi-se criando uma boa amizade entre nós. Em Fevereiro de 1967, o Ben recebeu um telegrama da Escócia, em que o velho pai lhe comunicava que o irmão mais velho se tinha suicidado. E que precisava dele, para o amanho da Quinta. Respondeu prontamente à chamada.
À despedida, deixou-me dois livros de Henry Miller e umas sandálias de madeira, ortopédicas, que ainda usei uns bons dez anos. E também herdei "The Same Door", de John Updike, que li sofregamente. O Ben nunca mais deu notícias, embora tivesse prometido escrever...

sábado, 4 de maio de 2013

As enormidades e a desproporção


Quando me falam do Ensino, em Portugal, eu fico logo de pé atrás.
Ultimamente, pelo Chiado, tenho visto romarias de jovens subindo e descendo a rua do Alecrim, acompanhados de professores de bonés com pala, dando a volta ao Largo, seguindo para o Camões. Normalmente, junto à Brasileira e à volta da estátua de Fernando Pessoa, de Lagoa Henriques, há paragem e perlenga, fotografias também. Já sei ao que vêm estes jovens estudantes excursionistas: "estudar", in loco, os percursos queirozianos e pessoanos - é a moda, que se há-de fazer... Coitados dos estudantes de Bragança ou de Angra do Heroísmo, que não têm Lisboa à mão!... Como será, com eles?
Mas, hoje, tive uma notícia fidedigna e surpreendente, que me deixou estarrecido. A uma jovem estudante do 11º ano, foi pedido pela professora, ao seu grupo de trabalho (que integra mais 4 ou 5 colegas), que fizesse um trabalho escrito sobre "Os Maias", de Eça de Queiroz, com, pelo menos, 200 páginas. Será que a professora terá ensandecido?!
No Seminário do meu último ano da Faculdade, e com vista ao trabalho de tese sobre a obra de John Updike (1932-2009), que eu ia fazer, pediram-me, previamente, uma sinopse de cerca de 50 páginas sobre a obra que me propunha executar. Volto a perguntar, estarrecido: será que essa professora, do 11º ano, ensandeceu?

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Revisitar Updike


Não sei se estarei de acordo, mas dá que pensar, uma frase de Phil Baker (professor da Universidade de Illinois) que, na recensão de "Higher Gossip / Essays and criticism", de John Updike (1932-2009), o crítico aplica ao escritor americano.
A afirmação surge no último TLS (28/9/12) e refere o seguinte: "...Updike não é mais do que um grande evocador (evoker) e, de há muito que existe a suspeita que os seus poderes descritivos são muito superiores àquilo, o que quer que seja, que ele tem para dizer, mais voz que visão, e que as suas frases são maiores do que os seus romances. ..."
É, no mínimo, arrasador. Vou ter que revisitar Updike - um dos meus escritores de estimação. Mas, valha a verdade, que estas palavras assassinas se poderiam aplicar a muitos escritores que estão na berra e bem vivos...

domingo, 13 de fevereiro de 2011

Variações a propósito de John Updike



Ao reler o poema de John Updike ("Requiem", inserido em Endpoint and other poems), que traduzo a seguir, vieram-me à memória, por associação, alguns casos de intelectuais portugueses. A idade cerca quase sempre de silêncio os últimos anos da vida de um homem; é de regra, normalmente. E, talvez nesse dilúvio que é a velhice ou a doença terminal, convenha mais o esquecimento e a penumbra. Perturbaram-me os últimos anos de um Eugénio de Andrade cercado de silêncio. E o longo Alzheimer de Gérard Castelo-Lopes (1925-2011). Como não me deixam indiferente quer o caso de Agustina, quer um apagamento gradual de Óscar Lopes, de que pouco ou quase nada sei.
Então, John Updike, agora:
Requiem

No outro dia ocorreu-me:
Estando para morrer, que ninguém dissesse,
"Oh, que pena! Tão jovem, tão cheio
De futuro promissor - mistérios insondáveis!"

Ou então, com uma ruga e de olhos secos
Acolherão meu passamento;
E a vaga reacção será, eu sei,
"Pensei que ele já tinha morrido."

Porque a vida é um vil subterfúgio
E a morte é real, opaca, e medonha.
O seu impacto será registado
em nenhures, mas onde acontece.

domingo, 3 de outubro de 2010

Um poema de John Updike


O início do Outono assemelha-se no tempo, por vezes, e na luminosidade aos dias do final do Inverno e ao prenúncio da Primavera. Por isso me deu vontade, hoje, de traduzir este poema de John Updike (1932-2009), incluído em Endpoint and other poems (pg. 56, "Stretch"), de 2009.

Esforço

Que luz será mais terna
do que esta de Fevereiro jovem
às 5 e 5 da tarde, ou à volta disso
tentando romper em claridade?

Os caixotes do lixo estão vazios
e erguem-se direitos na curva da rua,
as árvores no pequeno parque
mantém, na sombra, velhos flocos de neve,

mas a rude canção de um pássaro
atravessa a nuvem de esperados brotos
enquanto uma nuvem real se vai avermelhando
no repentino azul que se prolonga.

terça-feira, 23 de março de 2010

Carta a um Amigo que faz anos





23-24/3/2010

Meu Caro:
Estive a consultar canhenhos, memória e, é certo, que foi em 1970, que nos conhecemos. Outubro, provavelmente. Vachsel Lindsay versus John Updike, ao contrário das nossas vocações..., é curioso. Depois, a geografia sentimental: Av. de Roma, São Sebastião da Pedreira, S. João do Estoril, "As Gaivotas", Azarujinha (e aquele arroz de mexilhões que deram à praia...), Rodrigo da Fonseca, Algés; mas antes, houve a noite de Lisboa, o Cunha Telles, o "Continuar a viver", cujo argumento, ele nunca pagou, salvo as CR&F e o Whisky que lhe bebemos em casa, para abate... E ainda, e agora o "Rio Grande", a Lisboa queiroziana. Claro, "Os Cornos de Cronos", "O Rei dos Lumes", "A Última Ceia" e o teu desencanto literário, depois de "Shadows in a Dream" a duas (?) mãos. As abóbodas da Bertrand com o Vergílio Ferreira ou o "Espelho de Água", a ver o Tejo, à noite. Tanta coisa, tantos anos: quase 40.
Vai a carta, com música. Pensei no Mahler de que tu gostas (mas que eu não aprecio, particularmente), depois no Marcos Portugal que fazia anos no teu dia - se puderes, ouve a ária "Carlota" de "Le donna cambiate", que é muito bonita. Mas tu andas numa de Rameau... por isso vai um bocadinho de "Les Indes Galantes". E, no que diz respeito ao "outro capítulo", apetece-me glosar o rei espanhol, pela positiva, e perguntar: "Por que te callas?"
Também segue um velho e amigo abraço de parabéns, e lembranças à "merryl". Até quinta!
A. S.

quinta-feira, 18 de março de 2010

John Updike



Se fosse vivo, John Updike (1932-2009) completaria, hoje, 78 anos. Com Mary Mccarthy, Salinger e Truman Capote pertence à geração de lídimos sucessores directos da geração de Hemingway, Steinbeck e Faulkner, grandes renovadores do romance norte-americano. Updike é, no entanto, aquele em que a cultura europeia mais se faz sentir. Vermeer, a Inglaterra e a França aparecem na sua obra. Até os Açores surgem num seu poema. Para além duma obra em prosa vasta, foi também crítico de arte e literatura, em colaborações regulares para a revista "The New Yorker". A série de romances que têm por personagem central "Rabbit" (Harry Rabbit Angstrom), "The Poorhouse Fair", "The Centaur" ilustram claramente os seus temas centrais: pequenas cidades de província, classe média, conflitos pessoais ou sociais. Para a poesia deixou as preocupações religiosas, os sentimentos e a morte. As suas figuras tutelares, do ponto de vista filosófico ou religioso, foram S. Kierkegaard e o teólogo Karl Barth. Da poesia, de John Updike, escolhemos um dos seus últimos poemas, publicado em "The New Yorker", em 2003. Intitula-se "Evening Concert, Sainte-Chapelle". Esta Igreja de Paris é uma construção gótica de 1248, celebrada pela luz e cor intensas que se filtram através dos seus altos e belos vitrais. É frequentemente escolhida para recitais de música clássica.

Concerto ao fim da tarde, Sainte-Chapelle

As célebres janelas afogueadas na luz
que vem do norte, derramada através do Sena;
ocupamos, sussurrantes, os lugares. É então que os violinos
celebrando o vigor estridente de Vivaldi, depois Brahms
parecem sorver com doçura apaixonada,
pouco a pouco, a força do vermelho,
o azul de luz intensa, para que o olhar audível
possa ver as duras linhas negras em forma de cruz
e de escudo, suporte e anel que entrelaçam
a sagrada, luminosa fantasia.
A música surgindo; o brilho como leite,
um sussurro para os olhos, reflexo atenuado
até que o bater dos corações, os nossos violinos
se vão cobrindo por finas, mas sólidas folhas de chumbo.