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domingo, 4 de junho de 2017

Centralizando a questão


É sempre avisado desconfiar daqueles que, com cândida singeleza e puritanamente, se confessam apolíticos. Na maior parte dos casos, são meros Tartufos disfarçados. E, ainda mais, é preciso desconfiar dos que afirmam que não há já razão ideológica para a existência, em política, de Esquerda e de Direita. Esses, ou são pobres de espírito (e será deles, como diz o Novo Testamento, o reino dos céus...), ou escondem objectivos inconfessados de infiltragem insidiosa, para catequizarem e se insinuarem, com mais simpatia, no país aborígene dos ignorantes e inocentes.
Dito isto, eu penso que, em muitos aspectos, a Esquerda conserva, em si, alguns sentimentos de culpa em relação às questões essenciais do mundo, alguma incomodidade, e tem, muitas vezes, uma excessiva gentileza democrática para resolver com objectividade determinadas situações. Aí, normalmente, a Direita é menos subjectiva, mais rude, mas também mais eficaz. Por exemplo, a Guerra. Relembro a hesitação democrática de Mendès France, comparada com o realismo de De Gaulle (Argélia). Ou Kennedy e Johnson, democratas, em confronto com o pragmatismo de Nixon, republicano, que acabou com a guerra do Vietname.

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

Pequena história (24)


No início de Novembro de 1963, diversas suites do Hotel Texas, em Forth Worth, próximo de Dallas, foram reservadas para a comitiva presidencial americana lá pernoitar, de 21 para 22 desse mês. A melhor suite do Hotel, por não oferecer tanta segurança, foi destinada ao vice-presidente Lyndon Johnson e mulher; a suite 850 foi reservada para o casal Kennedy. Para compensar o facto, as forças vivas de Dallas resolveram fazer uma surpresa ao Presidente e, com a ajuda dos museus regionais e de alguns coleccionadores particulares, projectaram decorar, régia e artisticamente, os três aposentos da suite 850.
Foram assim seleccionadas 16 obras de arte, onde se incluiam uma escultura de Picasso (A coruja zangada) e outra de Henry Moore, telas de Van Gogh (Estrada com camponês de sachola ao ombro), de Monet (Retrato da neta do Artista) e de Raoul Dufy (Baía de Deauville). Sendo as restantes obras de artistas americanos modernos: Thomas Eakins (Swimming), Marsden Hartley (Sombrero with gloves), entre outros quadros, bem como pequenas esculturas de Jack Zajac. Nenhuma destas obras tinha, na altura, mais de cem anos.
O casal presidencial Kennedy chegou à suite, cansado, pouco antes da meia noite, e ninguém sabe se apreciou, devidamente, a surpresa. O que sabemos é que foi a última noite dormida, com vida, por John Kennedy. A 22 de Novembro de 1963, seria assassinado nas ruas de Dallas.
O Museu de Arte de Dallas decidiu, recentemente,  comemorar a efeméride e o facto, inaugurando, nas suas instalações, uma exposição que reagrupa, de novo, as obras de arte que estiveram na suite 850 do Hotel Texas de 21 para 22 de Novembro de 1963. Só faltavam o retrato da neta de Monet e a paisagem marítima de Dufy.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Singularidades deste nosso mundo


Albert Camus dizia, com alguma ironia evidentemente, que bastava matar a porteira do nosso prédio para, no dia seguinte, o nosso nome aparecer na primeira página dos jornais. Quem se lembraria do nome de Buíça, se ele, a 1 de Fevereiro de 1908, não tivesse disparado, matando o rei D. Carlos, no Terreiro do Paço? Ou, saído da obscuridade e de um anonimato previsível, Lee Oswald não tivesse assassinado John F. Kennedy?
Jaime Ramón Mercador del Rio, nascido em Barcelona a 7 de Fevereiro de 1913, filho de uma beata do comunismo, seria um nome sepultado nos arquivos do KGB, não fora ter assassinado, a 21 de Agosto de 1940, talvez com requintes de malvadez e com um machadinho de picar gelo, no México, o célebre dissidente do estalinismo, Leon Trotsky (1879-1940). Que aí estava exilado, depois de ter sido expulso da União Soviética. Foi assim que o obscuro Ramón Mercader, agente secreto do NKVD, passou à História. E, após 20 anos de prisão, morreu em Cuba, tranquilamente, a 18 de Outubro de 1978.