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quarta-feira, 20 de julho de 2016

Regresso ao Futuro


Não sei porquê, mas imaginei Joana Vasconcelos daqui por uns bons anos...

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Para MR e Artur Costa, e em resposta aos seus comentários no poste "Nada se perde, tudo se transforma"


Os dois postes de hoje (Manguel/Koons) tinham, propositadamente, embora de forma pouco perceptível, uma relação reflexiva e umbilical, de denúncia do mercado e seus agentes, na sua venalidade oportunista e  actual. O medo, a insegurança e a falta de sentido crítico permitem que o "rei vá nu", mas todos, ou quase todos, se calem.
No fundo, e de forma rude eu diria que se quer, por motivos óbvios, mas inconfessáveis, confundir estética com consumo, quantidade com qualidade. A arte que, na sua essência, deveria "elevar" e fazer pensar, desceu ao "lumpen" da facilidade literal, à indigência banal de poder ser compreendida por todos, sem ajuda nem explicação, porque a sua superficialidade não o exige. E o motivo é simples: vender, vender sempre e mais a toda a gente. As editoras fazem o mesmo... E os meios não importam. Cicciolina foi uma forma de Koons chegar a um nicho de mercado de difícil acesso e onde a "arte" não ia muito além do chinelo e da colorida lingerie. Com isso alargou, grandemente, o seu leque de clientes.
Depois, há uma legião de curadores, marchands, editores e "artistas" que precisam de ganhar vida, mesmo que seja a vender banha da cobra.
A benefício de inventário, há que dizê-lo: no panorama de desemprego e miséria actuais, Koons e J. Vasconcelos dão trabalho a muita gente e são uma espécie de mini-centro-de-emprego. Leve-se isso em conta dos seus pecados, até porque, se eu fosse elitista, teria que dizer que a Arte ou a Literatura são outra coisa...

Nada se perde, tudo se transforma


Com uma restrospectiva, no Whitney Museum, que seguirá depois para o Centre Pompidou, Jeff Koons (1955) soma e segue... Em imagem, Split-Rocker, uma espécie de escultura-brinquedo gigantesca, composta de cinquenta mil flores.
A aceitarmos Koons, teremos que ser complacentes para com Joana Vasconcelos (1971).

sábado, 5 de abril de 2014

Sobre Arte


Os excertos, que traduzi do francês e irei transcrever, pertencem a uma entrevista que Nathalie Heinich (Marselha, 1955) concedeu ao "Obs." (nº 2577), a propósito do lançamento do seu recente livro "Le Paradigme de l'art contemporain" (Gallimard, 2014). A socióloga francesa e estudiosa de Arte, que tem um trabalho anterior, de referência, sobre a pintura de van Gogh, dá-nos a perceber, de forma simples mas evidente, algumas questões essenciais que estão ligadas à Arte, actualmente.
Não é difícil associar, quando ela refere "as várias dezenas de pessoas que realizam as suas obras", repito, associar e pensar, por exemplo, nas instalações da artista portuguesa Joana Vasconcelos; ou, quando fala do "simulacionismo", nos lembrarmos dos trabalhos do norte-americano Andy Wahrol.
Porque me parecem reflexões importantes e pertinentes sobre a Arte actual, julgo útil partilhá-las e fazê-las constar do arquivo do nosso Blogue. Seguem:

"Temos tendência a usar «arte moderna» e «arte contemporânea» como termos equivalentes, cuja única diferença seria cronológica. É um erro: há tantas diferenças entre a arte contemporânea e a arte moderna como aquelas que existem entre a arte moderna e a arte clássica. Cada uma distingue-se pelas regras de jogo implícitas, que formam aquilo que Thomas Kuhn chamava um «paradigma». Assim, a arte moderna baseia-se na transgressão das regras da figuração clássica (impressionismo, cubismo, surrealismo...). A arte contemporânea, essa, transgride a própria noção de obra de arte tal como ela é normalmente reconhecida. Por exemplo, a obra não será mais feita pela mão do artista mas fabricada por terceiros. O acto artístico não reside já na manufactura do objecto mas na sua concepção, no discurso que o acompanha, nas reacções que suscita... A obra pode ser efémera, evolutiva, biodegradável, blasfematória, indecente. Uma corrente surgida nos anos 80, o simulacionismo propunha até fazer desaparecer toda a ideia de originalidade, porque se tratava de reproduzir com maior exactidão obras já existentes. A arte contemporânea é uma invenção permanente dos modos de experimentar os limites ontológicos (a noção de obra) e morais (a maneira de ser artista). Donde as reacções que suscita."
"...Jeff Koons é um velho comerciante e veste-se com fatos completos e clássicos, contrastando com as calças já coçadas do artista boémio. Ele e Hirst não escondem que ganham muito dinheiro e que também gastam imenso. São empreendedores, com ateliês de várias dezenas de pessoas que realizam as suas obras, e tão depressa encontramos esses dois artistas nas páginas cor de rosa, como nas páginas de revistas culturais. As suas obras situam-se no cruzamento do sensacionalismo com a cultura popular: Hirst expõe uma vitela cortada em duas e conservada em formol, Koons fabrica peluches monumentais. Esta tendência corresponde à chegada ao mercado da arte de novos compradores ligados à financiarização da economia mundial (negociantes, burguesia dos países emergentes). Desde há uma quinzena de anos que se formou uma bolha artístico-financeira que fez com que algumas obras atingissem preços exorbitantes, o que repercute o próprio espírito dessas obras - o quitche, o cinismo, o espectacular. ..."
"... Na arte contemporânea, a personagem central é, com o crítico, o comissário da exposição, uma profissão relativamente recente. O comissário opera para um organismo público - museu, bienal, centro de arte - e as suas escolhas vão permitir que a cotação de um artista cresça exponencialmente." (...) "Os intermediários procuram promover artistas sempre mais jovens, e vêem-se artistas que tiveram desde cedo a sua hora de glória, regressar brutal e rapidamente ao anonimato. (...) Para alguns, a arte contemporânea é uma decepção desoladora e uma caricatura pungente dos caprichos mais pueris da época. Para outros, é, pelo contrário, um instrumento de reflexão fascinante e até mesmo uma catarse saudável e desejável. Quanto à minha opinião pessoal, ela é das mais banais: certas propostas da arte contemporânea parecem-me excelentes, outras, sem qualquer interesse. De resto, é uma das grandes características da arte contemporânea, que é a de obrigar a ter uma opinião, de ser provocadora de opinião. E, isto, é também apanágio da nossa época."


quarta-feira, 17 de abril de 2013

Os dias internacionais de...


Creio que, amanhã, se celebra o Dia Internacional dos Monumentos. Estas celebrações fátuas, talvez configuradas para formatar o mundo e intensificar o comércio ou o turismo, deixam-me relativamente indiferente a obrigações devotas e ao cumprimento das boas regras, por considerar, neste acerto de datas, uma intenção obscura.
Se o CCB, a Expo 98 e ainda os megalómanos estádios do Euro luso, hoje, desertos (de que algumas virgens normalmente ofendidas nunca se queixam...), estão aí para testemunhar o tempo em que os euros chegavam, diariamente, da Europa, para serem gastos rapidamente, hoje, a situação é outra - estão a cobrar uma factura que nos custa os olhos da cara.
Há quem afirme, talvez malevolamente, que Joana Vasconcelos é a artista do Regime (este, português). Não irei tão longe, nem me sinto capaz de tal afirmação. Mas se tivesse que escolher, para amanhã, um monumento português, para o Dia deles, não escolheria o Palácio da Ajuda, com certeza. Anteriormente, optei pela pequena igreja de Bravães. Este ano, escolheria a pequena e rústica igreja de S. Miguel, junto ao Castelo de Guimarães.
Ambas estão mais de acordo com as nossas posses. E são robustas, porque aguentaram séculos e séculos de delapidação nacional, de indiferença e de governantes incultos e medíocres, resistindo tenazmente no seu granito pobre, mas sério.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Sonhos e pesadelos


Ora imagine-se que, por obra e graça, o Cussaruim, de Manuel Bandeira, passa, aqui do Blogue, no espaço virtual, para um Tapir do Mato Grosso (será que existem lá?), num sonho meu, real, que não chega a semi-pesadelo, porque era um bicho nutrido, mas simpático.
Proponha-se, como tema de conversa sugerida, e seguindo H. N. (com toda a minha complacência) que uma boa parte da arte actual é de pesadelo. Nem é preciso convocar a Joana, nem o Palácio da Ajuda, basta lembrar Francis Bacon. E que, no metropolitano, ao princípio da tarde, eu veja um rapaz (30 anos?), de pele mui branca, com um penteado "enlacado" com cerca de 30 centímetros de altura. Que até trazia guarda-sol, para que uma eventual chuvada lhe não viesse a estragar o toucado...
E, já em casa, em imagens televisivas publicitárias me apareçam meia dúzia de crianças ululantes, mais dois ou três adolescentes frenéticos, com ares um pouco choné, propagandeando sumos e refrigerantes calóricos, cheios de "castrol"...
De que mais ingredientes precisamos nós, para o começo de um extravagante pesadelo?
Podemos dispensar de vez os gaspares e os coelhos e embarcar, nesta viagem maravilhosa, com a Alice, para sempre.