Patriotismo é hoje uma palavra em desuso. Pior, para muitos, é considerada perigosa ou, pelo menos, envergonhante. A par com o vocábulo Património, por muita gente tido como uma abstracção romântica, despida de sentido e sem rentabilidade económica. Engrossam, no fundo, a categoria desses abencerragens embotados de espírito que, na segunda década do século XX, levaram à votação, na Câmara de Guimarães, deitar abaixo o Castelo, para com as pedras da fortaleza se calcetarem as ruas da cidade. O Castelo salvou-se por um voto, e ainda lá está. Como por cá andam, ainda hoje, os utilitaristas modernaços, bem como os leiloeiros e merceeiros burocratas que têm vendido o país ao desbarato. Coisas e resultado de um internacionalismo de direita, acrítico e sem cultura, que encontra grande prazer em arremedar, nos seus discursos, um léxico mascavado a imitar a língua inglesa, mas de raiz americana. Senhoritos pobres que talvez sejam felizes e se sintam mais importantes, assim.
Quem não valoriza a pertença nacional de um Crivelli, ou a permanência em solo português de um significativo acervo de obras de Miró, na minha opinião, é um pouco rombo de cabeça ou pobre de espírito. Os patacos por que serão trocados, rapidamente serão gastos em munificências de discutível qualidade e breve duração. E o país cada vez ficará mais pobre, mais desinteressante como destino de turismo cultural - hoje, muito procurado. Ficarão apenas esses turistas do eléctrico 28, que pouco deixam, mas tudo fotografam sem critério nem sentido estético de gosto.
O último L'Obs dedica algumas páginas à agressiva caça ao tesouro de várias instituições culturais (norte-americanas e europeias), na sua gula por obras importantes e acervos culturais significativos de artistas famosos, de forma a enriquecer o seu património. Seja ele nacional, ou estrangeiro, de origem. Algumas precauções chegam a parecer-nos insólitas. Surpreendeu-me, por exemplo, que a BnF (Biblioteca Nacional de França) faça deslocar, periodicamente, um Conservador da instituição, a casa do escritor Pierre Guyotat (1940) para registar os últimos livros que ele comprou, os seus apontamentos e até os SMS do seu telefone portátil, garantindo assim, antecipadamente, um acervo tanto quanto possível completo do artista.
Como quase sempre, Portugal continua atrasado e na cauda da Europa. Os agentes culturais viegas e quejandos despacham crivellis, para poder continuar a fumar Habanos, outros pensando ser modernos e desempoeirados querem vender mirós e as jóias de família, para com esse dinheiro comprar bugigangas inúteis que, na sua parolice mental, lhes parecem indispensáveis. Patriotismo? Património? Isso já não se usa e é redundante!...