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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Ilustrações e discordâncias


Penso que um dos perigos maiores que nos podem assaltar, na maturidade, e quando julgamos ter adquirido algumas verdades essenciais e inamovíveis, é constatar, muitas vezes com desagrado e até alguma irritação, que nem todos pensam como nós. E termos dificuldade em perceber, nos outros, o facto de terem chegado a conclusões tão diferentes das nossas - por vezes, até, diametralmente opostas.
Há dias, numa deambulação despreocupada pela net, fiquei profundamente chocado ao ver, num blogue, um poema de um dos meus poetas de referência, com os versos amplamente intersectados (melhor diria: decepados) por quadros célebres, que lhe interrompiam a leitura, num profundo desrespeito pela obra e num barroco e despropositado exibicionismo de cultura (?).
O mesmo acontece, frequentemente, com ilustrações de vídeos, na net. Músicas estimáveis em vídeo são, por vezes, acompanhadas por ininterruptas imagens redundantes, despropositadas e cheias de rodriguinhos bacocos ou paisagens "bonitinhas". Como se a música, em si, não bastasse. E o problema é que, às vezes, não há outra escolha possível... Com alguma melancolia há que concluir que não há só uma verdade.

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

As palavras, ainda


As palavras têm vida incerta e evolução imprevista, muitas vezes. Umas irradiam, crescem, abarcam novos sentidos, coisas diversas na sua dinâmica própria. Outras concentram-se e intensificam o seu domínio. E outras ainda, simplesmente, perdem a utilidade, ficam no tempo - morrem. E nunca mais ressuscitam, a não ser fugazmente pela curiosidade de um antiquário ou algum arqueólogo de coisas perdidas, mais persistente.
Para mim, Chico, na sua vocalização, lembra-me, logo à partida e de imediato um amigo. De infância, que se chamava Francisco José, mas o Cardeal Saraiva (Obras Completas, IX, 1880, pg. 125) ensina mais do que isto. Aqui vai:
" Chico - Este vocábulo, nas antigas línguas, ou dialectos da Espanha, significava o que é pequeno. Assim (por exemplo), as pequenas ilhas, que há nas costas da Galiza se chamavam cicas. A serra que divide o Algarve do Alentejo se chamava monte-cico, donde fizemos Monchique. Os Galegos chamam chiquitos os meninos pequeninos. Os pequenos porquinhos chamam-se chicos, e chiqueiro o lugar em que se recolhem. Finalmente ajuntamos cico e cica a alguns vocábulos como terminação diminutiva, e dizemos cou-cica, lugar-cico, etc., por cousinha, lugarzinho, etc."

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

O abuso das palavras


O plano da linguagem do dia-a-dia obriga ao uso, muitas vezes por câmbio, abusivo, exagerado e insensato de palavras, para expressarmos um mesmo grau de veemência, ou "qualidade" expressiva, em relação ao Outro. Como num restaurante aonde vai chegando mais gente e onde se vai falando cada vez mais alto, para nos ouvirmos, até se chegar a um ruído quase insuportável.
As palavras vão assim perdendo a sua força própria com o uso inapropriado. E com o abuso que fazemos delas. E, com elas, perdem também força a expressão dos nossos sentimentos, das nossas reflexões, dos nossos próprios argumentos. Como na poesia, em que poema após poema, o poeta repete o jogo malabar da experiência adquirida e do fogacho iluminado sobre o vazio inócuo.
Há, creio, no geral, três possíveis alternativas: ou recuperar palavras antigas que, há muito, já não usávamos, nos casos em que afirmação pessoal se quer autêntica; ou a utilização de novos vocábulos que nos vão ganhando sabor na sua descoberta e aplicação selectiva. Para que os sentimentos, as reflexões e os nossos argumentos possam ganhar um peso diferente ou uma nova pureza.
A terceira alternativa é, cada vez mais, aproximarmo-nos do silêncio.