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terça-feira, 6 de dezembro de 2022

Lembrete 70



Já saiu o número 18. O tema dicotómico Cidade/Campo presta-se a interessantes reflexões e promete. Veremos se estará à altura das expectativas do leitor.

P.S.: a escolha para a capa de uma tela de João Hogan (1914-1988), pareceu-me uma bela opção.

quinta-feira, 23 de setembro de 2021

Pinacoteca Pessoal 177



Em finais dos anos 70, numa esquina da Av. Joaquim António de Aguiar, do lado direito para quem descia, havia uma pequena galeria de arte (hoje substituída por um banal Café), onde eu parava junto à vitrine, sempre que por lá passava. Por ali havia sempre pequenas pinturas expostas, de fino gosto estético.



Eu já conhecia de nome, do C.A.M. e de algumas imagens e ilustrações (O Homem da Nave, de Aquilino Ribeiro, por exemplo, na edição especial da Bertrand), o pintor João Hogan (1914-1988), e as suas paisagens ermas e rasas, de volumes maciços, sem vislumbre de pessoas. Do pintor, de ascendência irlandesa, havia sempre uma ou outra tela visível na galeria referida, que me deixava encantado, quase sempre.


É que, depois de ver, o(s) quadro(s) de Hogan, eu seguia o meu caminho mais bem disposto, apesar da solidão que parecia perpassar pelas suas telas...


sábado, 26 de dezembro de 2015

Divagações 104


Até os dias parecem desabituados. Há um vazio nas lojas e nas ruas. No entre-entre do tempo. Do acontecido para o novo acontecer, daqui a dias. Zona de ninguém, de muito frio à sombra e Sol ao dobrar da esquina. O lixo feito de cartão vazio e de papel em volta dos contentores, donde todos os sonhos parecem ter fugido.
Tempo de poucas palavras, ou de palavras poupadas até nas notícias que não há, nem se conseguem inventar. Tempo moribundo ou morto à espera de um novo tempo, como se o próximo ano fosse tudo aquilo que pode acontecer. E contudo não há impaciência: há um vagar e uma espera neutra em terra de ninguém. Tempo para queimar, em silêncio.
Para que, do horizonte, alguma coisa venha. Recomeçar.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Divagações 54


Enquanto a lua sobe, em círculo perfeito, horizontal o casario ribeirinho imóvel se mantém sobre as águas nocturnas do Tejo. Há um espelho pressentido e líquido que não reflecte nada, porque o azul é profundo, escuro, e só poderá ser quebrado pela imaginação. O silêncio, não fosse o ar estar limpo, não deixaria que algumas vozes, raras, incomodassem a noite.
Do livro sobre a pintura de Fra Angelico (c. 1395-1455) que li a eito, nos últimos dias, ressuma das imagens uma escassez essencial, que despreza o acessório e o secundário, para sublinhar o mais humano, ou o sagrado. Há nas suas tábuas ou murais, um rente ao dizer (Eugénio de Andrade), que me fascina, como se o íntimo prémio e a generosa dádiva estivesse - e estaria para ele - no além-Terra.
A rudeza nua da paisagem, que lembra alguns quadros de Hogan (1914-1988) sobre Monsanto, antigo, quase incomodam. São, pelo menos, pinceladas avaras e cruéis, sobre o campo italiano que, dificilmente e mesmo no século XV, seria tão ermo e tão despovoado de vegetação. Porque são raras as paisagens frondosas nos quadros de Fra Angelico.
O que é que ele, simples, concentrado e essencial, nos quereria dizer?

quarta-feira, 6 de março de 2013

Motivos


Anos a fio, desejei ter por casa uma marinha, para que, sempre que me apetecesse, pudesse lembrar o mar, através da sua representação pictórica. Não um mar à Turner, excessivamente experimental e vanguardista - queria um mar clássico e convencional, apenas.
Acabei por me contentar com uma pequena tabuínha, de autor desconhecido, que comprei, improvavelmente, num alfarrabista, onde três ou quatro rochedos ocres são lambidos pela espuma branca das ondas e o areal é uma fímbria magra e estreita de hesitante limite.
Nem todos os artistas são atraídos pelas águas, mas António Carneiro (1872-1930), por exemplo, tem uma pequena tela do mar nortenho português, maravilhosa (Arpose: "Primavera", 21/3/2010), em tons róseos de manhã fria, verde azul e escuro, e branco da espuma das ondas - era uma marinha assim que eu gostaria de ter.
Pelo contrário, João Hogan (1914-1988) pintou, obsessiva e intensamente, Monsanto na sua aridez de camadas sobrepostas de terras e rochas, quase sempre sem pessoas, como se pretendesse sublinhar os tempos e, quem sabe, talvez a solidão. Como dizia Eugénio de Andrade: "Não se escolhe, é-se escolhido."

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Vergílio Ferreira, de novo, sobre Arte


Era frequente, nos anos 60 e 70 do século passado, que os catálogos de exposições de Pintura abrissem com palavras introdutórias de escritores portugueses, reflectindo sobre as obras  ou sobre a Arte, em geral. Eugénio de Andrade tem, por exemplo, magníficos e belos textos em catálogos de mostras de Resende, Ângelo de Sousa, José Rodrigues...
Os excertos de reflexões que vou reproduzir, de Vergílio Ferreira, iniciam um pequeno catálogo de uma exposição colectiva (Nadir, Dourdil, Pomar, Hogan, Skapinakis, Vespeira...) de pintura, realizada na galeria "Prisma", em Abril de 1973, em Lisboa. Seguem dois excertos:
"Falar hoje de arte instala-nos num certo mal-estar, ou numa certa má consciência. Porque antes de dizermos o que ela é, na realização dos que a realizam, submersamente se nos insinua a pergunta sobre se ela pode ser. E o facto de ela estar aí não é resposta bastante, como o não é sobre o romance a multiplicação dos romances, ou já sobre o poema épico a multiplicação deles no séc. XVII. Porque falar não é tagarelar. A fala instaura uma relação primordial com a vida e a tagarelice com a própria fala - tanto quanto uma relação com a vida não é já uma relação com palavras. Assim a sua multiplicação se estabelece no vazio. (...) Somente a arte é memória, e daí o que há de instável no seu equilíbrio de hoje. É uma memória que remete, se não para um referente (que em verdade reinventa), se não para um significado (que verdadeiramente o não é pela sua polivalência), remete ao menos para a recriação de um outro de nós, de um espaço a reorganizar, de um eco em que fale o seu silêncio, do intervalo em que se separe a sua materialidade da vibração que a transfigure no absoluto de uma presença. ..."

domingo, 17 de outubro de 2010

Impromptu


Motivos há
(decerto muitos)
que não dão margem
a grandes espantos:
são comuns,
morrem por si, abrangem
um minuto
de atenção, logo perdida.
Regressam a nenhures,
discretos, invisíveis
da sua pequenez
ao silêncio esquecido,
e para sempre.

17/10/2010