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sábado, 5 de agosto de 2017

Paisagem com aves


Não tenho visto muitos pássaros, este Verão.
Mas no sexto andar, com terraço, do prédio em frente, 8 ou 9 pombas, jovens, costumam pousar, quase todos os fins de tarde, desde a Primavera. E parecem divertir-se saltitando do telhado para o murete e do murete para o telhado, alternadamente. O andar está devoluto, certamente, e as pombas sabem-no ou pressentem. Não creio que lá façam ninho. Julgo antes que o local funciona, para elas, como uma espécie de parque infantil com autonomia plena.
Cerca das 20h30, as pombas juvenis desamparam o lugar. Pouco depois, ao alto, passa uma última gaivota solitária, de Leste para Oeste. Em direcção ao mar. Quando não chega, pontual, acendo ainda uma cigarrilha, na varanda, expectante, como se aguardasse o raio verde de que fala Júlio Verne.
Lá vem ela!
Vai quase cheia, a lua...

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Divagações 112


...Conchas, pedrinhas, pedacinhos de ossos..., como disse Pessanha, a que eu ajuntaria pequenos juncos que vieram dos canaviais das margens do Sizandro, arrumar-se em cónicos e breves montículos na pequena praia de escassas areias, porque estava maré cheia. Dois ou três jovens pardais, da cor da fuligem, saltitavam e debicavam nessas breves colinas de lixo natural, em busca de não sei o quê.
O Sol declinava. À distância, parecia estar apenas a um metro da altura das águas e iluminava nuvens que iam do sulfúreo ao cinzento, passando por um róseo e um ainda mais escasso azul, tímidos. No pequeno bar-restaurante, meia dúzia de estrangeiros jantavam e nós bebíamos café. Um velho lobo do mar encostava-se ao balcão e beberricava um copo de tinto. Ciclicamente, olhava para trás, em direcção ao pôr-do-sol. E entoava, baixo, uma cantilena.
A uma sibilina pergunta da empregada do balcão, respondeu, alto: "Estou a ver se, desta vez, vejo o raio verde!"
E foi aí que eu me lembrei do meu Pai e de Júlio Verne...

sábado, 5 de março de 2016

Classificações


Numa prévia declaração de interesses, devo esclarecer que nunca li nada do sul-africano J(ohn) R(onald) R(euel) Tolkien (1892-1973). O apelido final, foneticamente, sempre me pareceu pesado e de substância, soube há pouco que será de origem germânica. E tinha uma vaga ideia que era um autor muito popular e com muitos leitores entusiastas. O que eu desconhecia (TLS dixit) é que era um escritor fracturante (como agora se diz) entre os críticos literários. Há quem lhe atribua qualidade literária, e quem lha recuse. Creio que a sua posição equidistante se encontrará num limbo, muito semelhante ao de Júlio Verne...
A sua caracterização como pessoa, nas palavras de Roz Kaveney, que acabei de ler no TLS, parece-me, no entanto muito curiosa e, por isso, vou pô-la em português, para partilha com quem possa estar interessado:
"...Tolkien era um homem complexo - um académico mais do que um simples escritor, um sobrevivente de guerra no que ela tem de pior, um católico devoto, mas inteligente quanto à sua fé, um escritor cumprido de um tipo de versos ligeiros, que deve ser celebrado pela sua finesse em detrimento da frivolidade, um teorizador literário com alguma coterie que o aproxima de outros pensadores influentes. ..."
Como classificação, não me parece nada mal. Não sei é se corresponde ao perfil exacto de Tolkien...

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Pinacoteca Pessoal 69


Ainda parente de Júlio Verne, o que talvez revele uma imaginação de base genética, Pierre Roy (1880-1950), nascido em Nantes, não é, seguramente, um dos surrealistas mais conhecidos do grande público, apesar da grande liberdade das suas composições. Ilustrador inspirado de livros, designer antes do tempo, colaborou também em alguns dos cenários para o Ballet sueco de Rolf de Maré.
A minúcia na execução das suas obras, um surrealismo que não desdenha o trompe-l'oeil dos antigos Mestres, e, sobretudo, a associação de elementos e objectos heteróclitos nas suas pinturas, numa onírica muito livre que parece sugerir sonhos infantis, ganham nos seus trabalhos uma estranha poesia inesperada.
Reproduzem-se duas obras de Pierre Roy: "O Verão de Saint-Michel" (1932) e "Perigo nas Escadas".

sábado, 31 de dezembro de 2011

Mercearias Finas 46 : almoço de fim de ano


O meu amigo H. N., quando vem, deixa sempre largos vestígios da sua enorme generosidade aquariana. Por isso, eu tinha quase a certeza que ainda havia, nas gavetas por baixo dos Cd's, alguma caixa de elegantes e esguias cigarrilhas Cohiba. Havia: com 3 exemplares sobrantes; e ficaram 2.
Porque depois de um polvo guisado "à açoreana" que se desfazia como pudim flan, e um nobre Encruzado da Quinta de Cabriz, branco na sua singeleza aristocrática, só o tabaco ilhéu de Cuba, estaria à altura deste último almoço de 2011. Pelo meio, a memória convocou o capitão Nemo, de Júlio Verne, e os Beatles...
Aéreas mercadorias espirituais cruzadas com o aroma e fumo da Cohiba, pelo ar.
Pouco antes, os mexidos à Minhota, enriquecidos de bom mel, pinhão, passas e 4 ou 5 gotas de Madeira, celestiais no seu todo, convidaram, depois do café (60% robusta/ 40% arábica) a uma Aguardente velha S. João, Reserva, nos seus 40º macios e apaziguadores.
Por isso, a cigarrilha Cohiba era apenas o elo que faltava, o remate, a chave de ouro. Obrigado, H. N., e um bom ano de 2012! 

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Verde azul


Na terceira linha do horizonte, depois do rio e da mancha alta e cinzenta da Arrábida, as nuvens assumem um espantoso verde azul, improduzível, que, creio, nem Turner descobriu - decerto. Também o vejo pela primeira vez, que me lembre. Entre o fundo da terra e, mais alta, a cor banal do céu, com os habituais branco, azul e esparsos fiapos de nuvens róseas, este raro verde azul, ao fim da tarde. Será o raio verde de que fala Júlio Verne, mas numa exposição alongada e demorada?
Quanto aos estorninhos já sei que, o mais tardar, às 17,30, desaparecem do horizonte e deixo de os ver. Mas não sei para onde vão.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Leituras Antigas XXIII : Júlio Verne


Contam-se pelos dedos duma mão os livros de Júlio Verne que li, e ainda possuo. O primeiro deles, "O Raio Verde", pertencia à sucinta biblioteca de meu Pai. Dois outros, "A Aldeia Aérea" e "O Farol do Cabo do Mundo", não sei como me vieram ter à mão, bem como o terceiro , "Aventuras do Capitão Hatteras", que até está incompleto (falta o primeiro volume). Mas li, também, em BD, "Miguel Strogoff", que me empolgou, e vi o filme, com Curd Jürgens, de que gostei muito.
Os livros, que tenho, são todos edição da Livraria Bertrand que, quase sempre e por mau costume inexplicável, não indica o ano da impressão. Creio, no entanto, que "O Raio Verde" será dos anos 30. "A Aldeia Aérea" e "O Farol do Cabo do Mundo" (nº 80 e 79, respectivamente) são de 1958 e pertencem a uma tiragem de 10.000 exemplares. O mais recente, "Aventuras do Capitão Hatteras", tem capa de José Cândido e deve ter sido impresso já nos anos 70 do século passado. As versões, em português, são de tradutores muito diversos.