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sexta-feira, 29 de abril de 2022

Do que fui lendo por aí... 50



Se, como pessoa, não tenho muita empatia com J. Rentes de Carvalho (1930), a sua forma de escrita agrada-me e convence-me, quase sempre, e não desgosto de o ler. Aqui vai uma breve amostra deste pequeno livro (capa em imagem) de pouco mais de 70 páginas, para que se possa ter uma ideia. Segue:

"É desnecessário cantar loas à cozinha transmontana, basta dizer que na sua simplicidade, quase rudeza, ao mesmo tempo que tira a fome parece satisfazer também necessidades ancestrais, causando aquele benfazejo sentimento que não é apenas o da barriga cheia, mas o da misteriosa e animal satisfação de todos os sentidos.
Claro que isso só se alcança à custa de poderosos ingredientes, carnes bem criadas e bem talhadas, francas gorduras, vinhas-d'alhos de alquimia secular, mas também pela aplicação do bom senso e do desdém das patetices da modernidade.
Muitos anos atrás, jantando em Milão com um amigo que conhece tão bem Trás-os-Montes como a Calábria onde nasceu, e discutindo a «cassoeula» que tínhamos defronte e íamos comer, explicava ele, com humor, que a boa cozinha italiana - "Só ela conta" - tem de ter de tudo um pouco, mas esse pouco abundante.
E foi assim que, comparando uma coisa com a outra, chegámos à conclusão que havia bastante em comum entre a "cassoeula" da Lombardia e as "casulas com butelo" de Trás-os-Montes, ambas tendo sido comida de pobre num ainda não muito longínquo passado, e promovidas agora a iguaria."

(Trás-os-Montes, o Nordeste [2017] - pgs. 53/4)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

As tosas


A ípsilon do jornal Público de hoje manifesta-se, principalmente, por duas catilinárias demolidoras de António Guerreiro, que têm como objectivo dois autores da nossa praça: J. Rentes de Carvalho e Vasco Pulido Valente. O último por omissão e o primeiro, através duma recensão ao seu livro recente O Meças.
Não sei se a tosa aplicada a Rentes de Carvalho é merecida, porque não li o livro. Quanto a Pulido Valente, o argumentário de António Guerreiro é poderoso e convenceu-me.
Seja como for, aconselho os interessados a lerem a ípsilon, para tirarem as suas conclusões pessoais.

terça-feira, 5 de maio de 2015

Amor com amor se paga


Haverá, decerto e no mínimo, duas formas de ver o país que nos acolhe: ou apreciamos ou criticamos. A terceira via será sempre mais tímida e desinteressante - dar uma no cravo, outra na ferradura.
Ao que parece (não li o livro), João Magueijo (Évora, 1967), professor catedrático no Imperial College, que vive na Inglaterra há cerca de 20 anos, no seu livro Bifes mal passados (Gradiva, 2014), traça da Grã-Bretanha um retrato desfavorável, um pouco na senda de J. Rentes de Carvalho, com o seu Com os holandeses, em relação ao país das tulipas.
Há alguns pontos de contacto nestes dois livros, no que à crítica diz respeito: a rudeza dos habitantes, a péssima gastronomia, por exemplo. É possível, também, que neles exista excessiva acrimónia...
Seja como for, tanto bastou para que o TLS (nº 5847), excepcionalmente, trouxesse uma crítica a um livro em língua estrangeira, onde se faz a defesa da dama (Inglaterra). E, em desforço, apareçam, no texto da recensão de Jonathan Keates, umas ferroadas soezes a João Magueijo...

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Holanda : 3 perspectivas portuguesas


Da Holanda, para mim e a princípio, eram as tulipas e os moinhos; mais tarde, os selos, o queijo, os pôlderes e as cortinas interiores, das casas, sempre abertas. Depois, Ramalho, Nemésio e, mais recentemente, Rentes de Carvalho (1930). Deste gaiense, de ascendência transmontana, lá radicado há muitos anos, vou quase no final de "Com os Holandeses", que tenho vindo a ler, com agrado veloz, e se, até meio do livro, os holandeses não saem bem do retrato, quando ele começa a falar de Amesterdão, começa a declaração de amor. O pragmatismo, a bruteza, a fastidiosa gastronomia, a falta de humor (ou um humor demasiado próprio) - Rentes de Carvalho fala deles, abundantemente. Mas compensa depois, talvez arrependido, com alguma ternura embevecida.
Ramalho Ortigão é mais equilibrado, para o bem e para o mal, no seu "A Holanda", mas também menos intenso. Nemésio, mais efusivo e apaixonado, nos seus versos, talvez porque alguma holandesa lhe desalinhou os "jacintos", que ele julgava já murchos e secos ("...Já para alguns jacintos alinhados/ Na janela fechada do que fui."), no último quartel da sua vida (1963). Assim, entre "A Holanda" (1883) de Ramalho, a de Vitorino Nemésio (livro publicado em 1976) e a obra, mais recente (2009), de Rentes de Carvalho, se compõe o poliedro deste país conquistado ao mar que, eventualmente e com a subida dos oceanos, no futuro, poderá nele, de novo, submergir para sempre.