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terça-feira, 3 de outubro de 2023

Desnorte



Creio que o Nobel atribuído às Ciências mantém, ainda hoje, a respeitabilidade e rigor em relação aos nomeados e premiados, pese embora o facto de que uma avaliação criteriosa do cidadão comum obrigasse a um conhecimento mínimo, mas também a alguma especialização da matéria em causa. A atribuição recente do Prémio Nobel de Medicina aos pioneiros (o norte-americano D. Weissman e a húngara K. Karikó) na descoberta de vacinas contra o covid-19, no entanto, parece-me séria e sensata. Merecida, também.
Quanto ao Nobel da Literatura, na minha perspectiva e de há uns tempos a esta parte, o desnorte e irracionalidade crítica têm sido quase sempre dominantes, quanto aos premiados. Neste ano de 2023, a "bolsa de valores" contém 5 escritores candidatos. Mas as notícias sensacionalistas encaram a hipótese de Joni Mitchell ou Patti Smith poderem vir a ser escolhidas. E porque não Elton John?, pergunto eu...
Agora, falando a sério, e se eu fosse do júri votaria, convictamente, em J. M. Coetzee (1940).

Nota pessoal, posterior: por lapso de memória, não me lembrei que Coetzee tinha sido nobelizado em 2003, conforme Maria, no blogue amigo Prosimetron, me recordou, e a quem agradeço.
Assim, este ano, não teria candidato. Abstinha-me.

sábado, 8 de outubro de 2022

Errâncias



Deu-me para associar naturalmente e sem motivo aparente os itinerários de 3 escritores que me são caros e, depois, tentar perceber a razão dos seus percursos de vida.
De J. M. Coetzee (1940), sul-africano, que foi para os Estados Unidos, regressou à Africa do Sul e finalmente se fixou na Austrália. Talvez em busca de sossego e paz. W. G. Sebald (1944-2001) oriundo da Baviera (Alemanha), que estudou na Suiça, vindo a falecer na Inglaterra onde vivia, provavelmente para esquecer o passado recente germânico. Finalmente, o último errante, de ascendência judaica, Alberto Manguel (1948), argentino, que andou pelo Canadá, residiu uns anos em França e radicou-se, há pouco, em Lisboa, com apoios camarários. Neste último caso, ouso arriscar dizer que as razões terão sido um pouco mais prosaicas...

quarta-feira, 9 de março de 2022

Divagações 178



A divulgação de inéditos póstumos de escritores falecidos, por parte de familiares, amigos ou admiradores, colhe normalmente alguma perplexidade e divide críticos e leitores. No entanto, a não acontecer, não teríamos tido acesso, por exemplo, às esplêndidas obras de Cesário Verde e à Clepsidra, de Camilo Pessanha, que, se não fossem os cuidados da família Castro Osório, teria ficado sepultada na acédia ou abulia do Poeta. É óbvio que a decisão de publicar inéditos implica conhecimentos literários e, antes de mais, sentido crítico e estético por parte do decisor.

No sentido favorável se pronuncia, de algum modo, J. M. Coetzee (1940), em Textos sobre Literatura (2006 -- 2017), assim: " Se Brod tivesse cumprido as determinações de Kafka, não teríamos nem O Processo nem O Castelo. Como consequência de sua deslealdade, o mundo não só ficou mais rico como se viu transfigurado, metamorfoseado. Assim o exemplo de Brod e Kafka não deveria bastar como prova de que os testamenteiros literários - e talvez os testamenteiros em geral - devem dispor da liberdade de reinterpretar as suas instruções à luz do bem de todos?" (pg. 278)

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

Divagações 175



Uma vez mais confirmei que o livro brasileiro está caro. Mas constatei também uma vez mais que o atendimento na Livraria da Travessa, à Escola Politécnica, de gestão e orientação brasileira, é dos mais competentes e profissionais de toda a Lisboa (qual Bertrand, qual FNAC!...).
Dois livros de J. M. Coetzee (1940) vieram comigo, depois de um breve diálogo interessante com a empregada brasileira, que também era fã do escritor sul-africano, Nobel de Literatura 2003. Os textos são, no mínimo, originais - as recensões são mais informativas do que críticas. Mas cumprem.
As resenhas reproduzem artigos da New York Review of Books ou prefácios para obras de escritores. A tradução de Sergio Flaksman pareceu-me boa. E estou satisfeito com a compra dos 2 volumes cartonados. Apesar do preço...


terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Cotações no mercado


Se há escritores que não perdem, após a morte, a sua popularidade e cujas obras se vão continuando a imprimir e vender, como os livros de Simenon, por exemplo, outros há em que a crítica começa logo a questionar a qualidade da sua ficção, a seguir ao falecimento do autor, como foi o caso de John Updike. Ou mesmo em vida, como parece estar a acontecer, agora, com a avaliação que se tem feito  das últimas obras de J. M. Coetzee.
Na Inglaterra, a perda de interesse pela obra de Françoise Sagan (1935-2004) tem sido progressiva (o TLS regista-a) e raros, dos seus livros, têm sido reeditados, encontrando-se esgotados na sua maioria, talvez porque esse clima fluído e leve da ficção da escritora francesa, que lembra a atmosfera cinematográfica de um Rohmer ou de um Truffaut dos anos 60/70 ( certeiro, oTLS dixit), se tenha perdido para sempre, nos dias de hoje.

domingo, 9 de dezembro de 2012

De J. M. Coetzee


Muitas vezes, a violência das palavras de J. M. Coetzee (1940), é difícil de suportar. Não será o caso deste pequeno capítulo, que passo a transcrever:
"84. Nesta terra deve haver filhos já adultos que esperam, pacientemente, que os pais afrouxem o controlo das chaves. No dia em que eu cruzar as mãos do meu pai sobre o seu peito e o tapar com um lençol, no dia em que eu tomar conta das chaves, hei-de abrir a fechadura da tampa da secretária e hei-de desvendar todos os segredos que aí guardou: os livros de contabilidade e os canhotos, os registos notariais e os testamentos, as fotografias da mulher morta com a inscrição «Com todo o meu amor», as cartas atadas com uma fita vermelha. E no canto mais escuro, nos fundos de um escaninho, hei-de descobrir os antigos êxtases do defunto, os versos dobrados três, quatro vezes e metidos num envelope amarelado, os sonetos à esperança e à alegria, as confissões de amor, as juras e dedicatórias apaixonadas, as rapsódias conjugais, as quadras «Ao meu filho» e depois mais nada. O silêncio. A veia tinha secado. Algures, entre a juventude e a idade adulta deste homem que foi marido, pai, patrão, o coração ter-se-á transformado em pedra. Terá sido com o nascimento desta filha enfezada? Terei sido eu quem matou a vitalidade dele, tal como ele está a matar a minha?"

J. M. Coetzee, in No Coração desta Terra (Dom Quixote, 2011), trad. de Maria João Delgado.