Influenciada por relatos de viagens de amigos e a leitura do
Diário Irlandês de Heinrich Böll,
tentei obter licença e “subsídio” paterno para uma primeira viagem ao
estrangeiro, já que os países próximos – os então chamados BENELUX – não eram
considerados como tal, embora a barreira linguística fosse sempre factor de
estranheza.
Com efeito, uma viagem à Irlanda, sozinha e sem ter atingido
a maioridade dos 18 anos, não estava nos horizontes de liberdade dos meus pais.
Encontrou-se, então, uma solução viável, de segurança e orçamento, ou seja, um
circuito pelo Sul da Irlanda, organizado por uma associação de juventude, com o
propósito de promover um encontro de jovens franco-alemães.
Lá fui eu de barco até à Álbion, com uma breve passagem por
Londres, de que me lembro da “Trafalgar Square” e pouco mais, para além da
pouca simpatia dos Ingleses. Em Cardiff apanhámos outro barco para Cork. Numa
viagem nocturna, em que não aguentei o balanço deitada, convivi com os
primeiros Irlandeses e aprendi a beber chá, com leite. Depois de uma breve
passagem pela cidade de Cork, tomámos conta, quatro em cada caravana, das
rédeas do cavalo que nos ia conduzir pelo chamado “Ring of Kerry”.
Ainda hoje guardo memórias da paisagem, de chuviscos quase
diários e, sobretudo, da simpatia e nobre simplicidade dos Irlandeses. O lento
trote do cavalo dava para ver a paisagem, ler e conversar com o grupo restrito
de cada caravana e que, no trajecto anterior, se tinha formado naturalmente por
encontro de interesses e simpatia.
Resta acrescentar que, no ano seguinte, aceitei voltar à
Irlanda, trabalhando como “au pair” para umas criaturas destacadas da elite
económica de Colónia. Contudo, a segunda viagem não deu para conhecer melhor a
Irlanda, porque abandonei a tarefa passado poucos dias. A experiência falhada
permitiu, no entanto, tirar uma lição para o resto da vida. Aprendi que um
“berço de ouro” endinheirado não representa, de todo, uma “cuna” em que
floresça a educação, a cultura, a humanidade e, sobretudo, o respeito pelo
outro.
Fugi, rapidamente, desta “gentinha” que, pela língua, até me
devia ser mais próxima, se não pertencessem àquela claque de sobranceiros bacocos
que não suporto. Apenas reencontrei o meu universo, em Cork, convivendo com
Irlandeses antes da partida para o Continente e, guardo, até hoje, uma enorme
simpatia pela Hibérnia.
Post de HMJ