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quinta-feira, 11 de dezembro de 2025

Citações DXXIV

 

Por vezes, quando envelhecemos, a nossa infância é o único momento que pensamos ver com nitidez.

John le Carré (1931-2020), em carta para o irmão Tony.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Ideias fixas 51


Estas imagens, que me saltaram à vista, numa publicação periódica, deixaram-me positivamente indiferente, mas admito que possa haver quem se entusiasme com elas. Creio que há uma altura para tudo, até há um tempo para crescer de forma arrumada, na minha perspectiva. Em anos tenros, empanturrei-me de BD e Super-heróis, quero eu dizer: tive uma infância feliz...
Mais tarde, por dever e com humildade, reciclei-me acompanhando o amadurecer dos meus filhos, nestas leituras juvenis e filmes, até eles ganharem, com a idade, interesses outros mais maduros, como a mim já me tinha acontecido. Fiz essa camaradagem, com o sentido de missão humana e sem grande sacrifício pessoal. Mas, a partir daí, o copo transbordou, para sempre...
Já tenho a minha conta.

terça-feira, 26 de setembro de 2017

Infância


Para o bem e para o mal, a infância é um território contido. A que emprestamos, quase sempre, no presente, uma idealização passada de liberdade feliz. Esquecemos os interditos, as limitações impostas de cima (adultos), os afagos incómodos suportados com desagrado esquivo, os desejos insatisfeitos, os horários bem marcados do sono e do comer, dos trabalhos de casa e do brincar, e um tédio fininho, sem esse nome definido ainda...
Pelos meus anos mais tenros há, desde sempre, um oásis de histórias que, primeiro me leram, e depois eu li. Um soldadinho de chumbo, uma princesa de sapatos de ferro que não podia deixar de dançar até cair exausta, as aflições de um par de crianças perdidas na floresta. Nem sempre as histórias eram edificantes ou felizes, mas exercitavam a imaginação no sentido da superação das adversidades e na esperança de que tudo se viesse a resolver a bem.
Não sei por quanto tempo a literatura infantil continuará a ser para as editoras uma actividade temática rentável, ou a leitura um aspecto importante de formação humana. Talvez outras formas vão ocupando o espaço que os livros ocuparam, com outro movimento, outra acção, menos tédio trabalhoso, junto das crianças.
Uma amiga, que tinha ido com os netos ao Oceanário, em Lisboa, contou-nos que viu um jovenzinho, de 4 a 5 anos, especado junto do vidro dum dos grandes aquários, passar o dedo, como se fosse sobre um tablet, sobre a montra-visor, para que o peixe, na sua frente, passasse e outros viessem animar o ambiente...

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Osmose 87


Quando venho para aqui e vejo o rio, inexplicavelmente, as suas águas doces, quase sempre tranquilas (ao longe), fazem-me lembrar águas salgadas antigas, agitadas e irrecuperáveis. De Agosto dos meus anos mais jovens. E as férias eternas, ou simplesmente grandes, como são as de infância, na sua liberdade sem sentido, em que tudo parecia acomodar-se. Ou que se foi arrumando, a bem, na memória. E tudo parecer estar certo, de equilíbrio e felicidade - seja lá o que isso for...

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

Osmose 85


O Outono tem destas fraquezas, mescladas de melancolia amarelecida a tender para o silêncio...
A infância é muitas vezes um universo reconstruído, em que parte das personagens se vão afeiçoando à nossa imaginação posterior. Há, por isso, se querermos ser sinceros ou exactos, de usar de algum pudor. Podemos, embora, ter gasto ternura e afecto, com razão bastante, justificadamente, por figuras que se nos colaram à memória; mas são muito raros os vilões que ainda aparecem na fotografia, e surgem apenas para dar credibilidade ou constituir o necessário contraditório da veracidade das histórias que vamos recontando a nós mesmos, no íntimo aposento da melancolia outonal.

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Usos, abusos e desusos


Dia Internacional da Criança? Pois seja...
Quando eu era infante, aqui há muitos e muitos anos atrás, uma das coisas que eu mais gostava era de ir, com a Maria, à Praça, logo pela manhã. E, no Mercado, onde eu mais gostava de entrar era no talho do Zé Bento, marchante corpulento, de bigode saraivado, mas que tinha, além dum vozeirão, um sorriso menino acolhedor. Parecia-me entrar numa segunda casa... E talvez seja por isso que eu gosto, ainda hoje, das pinturas de Soutine. Além disso, era rara a vez em que eu não encontrava, lá dentro, alguma coisa preciosa, no chão. De uma vez, foi uma moeda de 2$50, uma fortuna para a época e para a minha altura, que tinha 1$00 de semanada; noutra ocasião, foi uma medalhinha de S. António, em ouro, que ainda conservo.
Ora hoje, Dia Internacional da Criança, ao folhear a revista da minha Freguesia,  nas páginas dedicadas às Marchas Populares de Lisboa, dou de caras com o senhor "Vítor Silva (, que) foi marchante durante 20" (anos). Claro que me lembrei logo do Zé Bento, marchante vimaranense. De boa memória, na minha infância. Mas depressa se desfez o encanto e houve um curto-circuito de memória. Porque este Vítor Silva nunca foi cortador, como se chama em Lisboa aos marchantes. Usa, impropriamente, um atributo nobre minhoto. Este alfacinha é apenas um vulgar acompanhante das Marchas Populares lisboetas... Não é um Zé Bento, notável artífice na arte da desmancha ou desossa de carnes.
E assim se desfez mais um sonho vocabular de infância, na criança que eu, outrora, fui.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Divagações 99


 Em louvor de uma infância

Hoje, tudo tem embalagens evasivas: em blister, tetrapack e quejandos. Aformoseadas até ao limite do disfarce ou dissimulação, onde os produtos jazem muito pouco substantivos, menos ainda se lhes descobre a filiação ou origem que permita às novas gerações conhecer-lhes a história em toda a sua simplicidade.
Quando criança, eu estava muito pouco acostumado à técnica, mas sabia, por exemplo, o que era um contador de água. E o seu verdete, quando já envelhecido. Desde cedo, sabia mudar fusíveis, ensinado que fora pela minha Mãe. Conhecia a cor do chumbo e do mercúrio. E os dejectos das cabras vicinais, como também os figos equestres que, por vezes, sinalizavam os animais de passagem pelos caminhos de terra batida, poeirentos. Sabia de como os ninhos eram feitos e conseguia facilmente distinguir um ovo de pata de outro, de galinha. Pasmava da galinha choca - ainda não havia os aviários -, na obscuridade da loja, sobre o enorme cesto vindimeiro, protegendo os pintaínhos recém-nascidos. Surpreendia-me com a agilidade das sardaniscas, fugindo por entre as pedras, nas manhãs de Sol. Tudo isto, apesar de viver numa cidade, embora de província, onde ainda não havia embalagens.

sábado, 22 de novembro de 2014

A infância é um território inocente e verdadeiro


Perante as notícias que, hoje, fazem a primeira página dos jornais portugueses, qualquer poste é uma minudência inútil, o avo que, nas palavras cruzadas, ocupa o espaço de três casas.
Um artigo, que li no TLS, sobre as casas pré-históricas da Inglaterra garantia que, ao contrário das europeias do Continente, elas eram circulares, na sua forma; bem como afirmava que as portas de todas elas estavam viradas a sudeste, por causa do Sol e do acordar dos seus habitantes. Se, sobre esta última afirmação, eu nada tenho a contradizer, já sobre a circularidade única das pré-históricas palhotas britânicas, posso contraditar que, também na antiga Lusitânia, a forma dos casebres era circular. Até porque as visitava, na Citânia de Briteiros, nos setembros da minha infância, em piqueniques familiares tradicionais que se faziam, na proximidade do parque arqueológico. E lembro-me bem delas...
Para quem as não conheça, aqui vão na imagem que antecede este poste.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Lazer


Posso dizer, felizmente, que, na minha infância e adolescência, houve espaço para o lazer. O que, na verdade, significava também liberdade. E autonomia e responsabilidade para o uso desse ócio. De perder tempo, mas também de imaginar e pensar, de preencher a meu modo os espaços (aparentemente) vazios. De brincar, de acertar contas e inventariar acções, sem grandes nem rigorosos pragmatismos.
Creio que, a partir dos anos 80 do século passado, começámos a assistir à ocupação total dos tempos livres e dos espaços, com os pais, frenéticos, a inscrever, sistematicamente, os filhos em aulas de judo, de línguas, de natação, de música ou ballet... No tempo sobrante, as criancinhas derramavam-se num sofá, estafadas e quietas, frente ao televisor. E, julgo, que começaram a crescer e amadurecer muito mais devagar.
Suspeito, embora possa estar a ser injusto, que alguns pais procuravam que os filhos os não incomodassem demasiado. Mas, mesmo que de boa-fé, perdeu-se muito desse diálogo intergeracional que contribuía, mesmo que não fosse seguido, de imediato, pelos mais novos, perdeu-se - repito - essa transmissão de experiência, fundamental para o amadurecimento e compreensão da vida.
Pode haver hoje, realmente, mais competência tecnológica e mais destreza física nos infantes. Mas a alforria chega mais tarde e a infantilização - parece-me - vai mais longe.

domingo, 9 de junho de 2013

Miscelânea de um domingo sombrio


Os tempos cinzentos, na sua acepção mais integral, têm aguçado o engenho e humor dos portugueses, nestes últimos dois anos de desgoverno e empobrecimento. Valha-nos, ao menos, isso! A não ser assim, era só choro e ranger de dentes. Ainda hoje vi, no placard de entrada do meu prédio, um daqueles formatados, reconhecíveis e sugestivamente ameaçadores envelopes das Finanças, para ser devolvido, a quem alguém acrescentou, a caneta de feltro azul, a seguinte indicação manuscrita, para o carteiro: "Já não mora aqui! Está em Cabo Verde - vive em paz!..."
Quando vejo alguma coisa desproporcionada para a idade de quem a pratica, costumo pensar ou, até, dizer: "- Eu tive uma infância feliz!" Querendo com isso significar que brinquei com os brinquedos próprios, na idade certa (ou, pelo menos, tive essa sorte). Mas também li os livros infantis, na infância, e vi os filmes de Disney, quando era criança. Hoje, não tenho pachorra para os voltar a ver. Mas admito e compreendo que ainda haja adultos que delirem com BD, ou gostem de ver, pela enésima vez, o "Música no Coração" ou "A Gata Borralheira".
Eu próprio não estarei isento de tentações. E entusiasmei-me recentemente por um Pedómetro, oferecido por um bom Amigo, no meu aniversário. Colocado à cintura, o aparelhómetro, depois de regulado, permite-me saber, com precisão, ao fim do dia, as calorias que gastei, os quilómetros que percorri a pé, e os passos que dei. É um brinquedo fabuloso! Mesmo agora, às 9h58, constato, surpreendido como uma criança maravilhada, que já dei 1.179 passos. É obra!...

segunda-feira, 19 de março de 2012

Aurora


Havíamos de cobrir essa música, como se fosse nossa. Dar-lhe um rosto inesquecido, da memória. E celebrar, mesmo que fosse em elegia pobre e simples, esse tempo fresco e jovem, e a brancura da manhã na geada inesperada sobre os pequenos charcos do quintal - quebrá-los, como se estalassem os espelhos. Sobre a relva húmida, deitados, veríamos levantar e pousar pequenos pássaros coloridos - e faríamos nosso esse aeródromo minimal e verde. Olhando, depois, por entre a túrgida floração do limoeiro e as folhas ainda tenras, os pequenos azúis, no alto, também seriam nossos. Quase poderíamos ouvir, por entre a turbação caótica, a música de esferas de anjos inexistentes. Mas possíveis.
Saíamos para a vida e para a rua, vencedores, na ignorância do futuro, confiantes e inexpugnáveis, seguros da força dos sentimentos mais obscuros e na certeza quase adolescente. O desejo era, nessa altura, um mundo desconhecido, inofensivo na pele da ternura. E não deixaríamos sequer que uma palavra ou um milímetro pudesse perturbar a divina proporção das coisas. Apesar do excesso que trazíamos connosco.

Nota: o desenho, que encima este poste, é de Manuel Ribeiro de Pavia, nascido a 19 de Março de 1910.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A infância, e as abóboras

Ao que parece, as sementes das cucurbitácias, se o tempo ajudar, são pródigas e reproduzem em abundância. Acontece que, por amável oferta, nos entraram em casa, recentemente, 4 abóboras lindas e perfeitas. Duas são abóboras manteiga donde se fazem os saborosos bolinhos de jerimu; outra delas, a maior, já tem destino: sopa e uma curiosa receita que dá pelo nome de Coelho na Abóbora. Finalmente, a quarta é uma abóbora gila (ou Chila) que se destina a compota: e se pode comer simples ou usar em doçaria conventual, mais sofisticada.
Simultaneamente, aconteceu que comprei e estou a ler "Infância" (talvez disso fale, em detalhe, oportunamente) de Graciliano Ramos, onde ele relembra as suas recordações matriciais das cucurbitácias. Não resisto a partilhar, com os meus amigos, um pequeno excerto, que segue:
"...A vazante das abóboras, por exemplo, ficava longe. Sòzinho, não me seria possível atingí-la. Dez ou vinte aboboreiras na terra de aluvião. Amaro havia dito que uma bastava. Se o inverno viesse, aquêle despotismo seria estrago; chegando a sêca, não se colheria um fruto, ainda que enterrassem na lama tôdas as sementes. Meu pai desprezou o conselho do caboclo - e o resultado foi uma praga de abóboras. A princípio uns cordõezinhos se torceram na vasa, enfeitaram-se de botões amarelos, de pequenas cabaças.  (...) E as abóboras cresceram, tantas que a gente andava na roça pisando em cima delas. Juntavam-se, enganchavam-se duas, três, num bloco, figuravam bela calçada movediça. ..."