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domingo, 28 de junho de 2015

O (des)prazer da leitura


É indiscutível que "A morte de Virgílio", de Herman Broch, é um livro de culto. Quero eu dizer com isto que as elites bem-pensantes o aconselham, como politicamente correcta e conveniente a sua leitura. Não desprezo estas indicações culturais, mas elas não me obrigam, religiosamente, nem as sigo cegamente. Tenho opinião própria, que prevalece, em matéria de leituras. Creio ser pouco influenciável neste aspecto e acho, também, que as listas de best-sellers são meros jogos viciados e comerciais, com valor semelhante às sondagens. Convém lembrar, por exemplo, que as montras das livrarias, hoje, são pagas pelas Editoras - é o outro lado. As duas faces da moeda: o populacho e o intelectualóide.
Depois da épica leitura de "Guerra e Paz", de Tolstoi, que encarei como desafio e compromisso, achei que estava em condições de arrostar com mais um dos esquecidos e abandonados volumes da minha biblioteca.
Calhou a vez a H. Broch. E lá reiniciei, cheio de boa vontade, a leitura de "A morte de Virgílio". A canícula dos últimos dias e um tédio, que me é próprio, ciclicamente, acompanharam as primeiras 128 páginas do livro, em que um onirismo barroco torrencial denuncia o cenário finissecular vienense que, artisticamente, tem em Klimt a expressão mais elegante e suportável. Se alguns excertos, nestas últimas horas de vida do Poeta romano, no exílio de Brindisi, são exemplares a configurar o processo da criação poética, pela pena de Broch, o circundante é excessivamente caótico, chegando mesmo a ser pernóstico pelo excesso. Lembrei-me de Pessoa (Ai que prazer/ Não cumprir um dever,/ Ter um livro para ler/ E não o fazer...) e abandonei, definitivamente, a leitura - chegava de penitência...
Bem mereço um Simenon, daqueles que guardo com avareza (para ler) e usura gulosa! Último dos Maigret que a Vampiro (nº 639), no seu antigo formato, traduziu e editou (Outubro de 2000), e que não li ainda. O título não é desconforme com o sentimento resultante das minhas leituras de Broch: A paciência de Maigret.

domingo, 13 de novembro de 2011

Proust e o prazer da leitura


Gostando eu muito de ler, houve por vezes, em mim, o sentimento de culpa por não ter conseguido acabar algumas obras que tinha, e tenho na minha biblioteca. Estão neste caso "A Guerra e Paz" de Tostoi, "A Morte de Vergílio" de Herman Broch, e "À la recherche du temps perdu" de Marcel Proust (1871-1922).
Repeguei, recentemente, num pequeno livro deste escritor francês, a que, em português, deram o título de "O Prazer da Leitura", muito embora, no original se intitule "Journées de Lecture", traduzido para a Teorema, por Magda Bigotte de Figueiredo.
Percebi então porque, de Proust e da sua obra-prima, só tinha sido capaz de ler "Du côté de chez Swann". As descrições são infinitas, barrocas, os detalhes milimétricos e, páginas e páginas decorrem, até que se encontre um momento de acção ou movimento vital. Em Proust quase parece que tudo está parado e imóvel para que o olhar analise cada objecto, cada móvel, cada interior e os descreva, parcimoniosamente, por palavras precisas. Através das sensações que vão despertando.
Mas este texto ("Journées de Lecture") merece ser lido ou, pelo menos, reter dele alguns excertos que nos dão uma exacta descrição pessoal do gosto pela leitura. Aqui vão:
"...E por vezes em casa, na minha cama, muito depois do jantar, as últimas horas do serão abrigavam também a minha leitura, mas isso, apenas nos dias em que tinha chegado aos últimos capítulos de um livro, em que não faltava muito para chegar ao fim. Nessas alturas, arriscando-me a ser castigado se fosse descoberto e à insónia que, terminado o livro, se iria talvez prolongar durante toda a noite, assim que meus pais se deitavam eu voltava a acender a minha vela; (...) Então, era isto? este livro, não passava disto? Aqueles seres a quem havíamos dedicado mais atenção e ternura do que às pessoas da vida, nem sempre ousando confessar a que ponto os amávamos, mesmo quando os nossos pais nos encontravam a ler e pareciam sorrir da nossa emoção, fechando o livro, com uma indiferença simulada ou um aborrecimento fingido; esses seres por quem havíamos tremido e soluçado, não voltaríamos a vê-los nunca mais, não viríamos a saber mais nada deles. ..."