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segunda-feira, 9 de dezembro de 2024

Antologia 22

 

Daquilo que conheço, creio que há dois poetas que se abalançaram a falar com propriedade original e sabedoria sobre a criação em poesia. T. S. Eliot (1888-1965), de que registei um pequeno fragmento de texto no Arpose (2/2/2010), e René Char que passo a citar:

"Heráclito põe o acento sobre a exaltante aliança dos contrários. Ele vê neles, em primeiro lugar, a condição perfeita e o motor indispensável para produzir harmonia. Em poesia acontece que, no momento da fusão destes contrários, surge um impacto sem origem definida, cuja acção dissolvente e solitária provoca o delizar dos abismos que trazem de forma tão antifísica o poema. Pertence ao poeta interromper cerce este perigo fazendo intervir, seja um elemento tradicional de razão já experimentada, seja o fogo de uma demiurgia tão milagrosa que anule o trajecto da causa para o efeito. O poeta pode então aperceber-se dos contrários - estes milagres pontuais e tumultuosos -, direccionar a sua linha imanente personificada, poesia e verdade, que, como sabemos, são sinónimos."

René Char (1907-1988), in Fureur et Mystère (pgs. 69/70).

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sobre a dificuldade em Poesia



A propósito da dificuldade em perceber, inteiramente, alguns poemas ou poetas, George Steiner (1929) diz numa entrevista: " Leio todos os dias Heráclito e certos poetas modernos como Paul Celan, e ainda quando talvez não compreenda bem os textos, aprendo-os de cor para que façam parte integrante do meu ser . A obra de súbito acolhe-me, sem se explicar e eu acedo finalmente ao poema. Nem por isso posso voltar para os meus seminários proclamando que enfim compreendi a obra, o que seria ao mesmo tempo arrogante e pretensioso. Todavia, é verdade que a incompreensão se transformou em amor, em fertilidade, em acto de confiança perante aquilo que me escapa."