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segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Do que fui lendo por aí... 24


W. H. Auden observou uma vez que a recensão de livros maus faz mal ao carácter. Como todos os  moralistas dotados, Auden idealizou apesar dele próprio, e devia ter sobrevivido até estes nossos dias em que os novos comissários passam a vida a dizer-nos que a leitura de livros bons é mau para o carácter - o que se calhar até é verdade. Ler os melhores dos melhores autores - digamos Homero, Dante, Shakespeare, Tolstoi - não fará de nós melhores cidadãos. A arte é perfeitamente inútil, como disse o sublime Oscar Wilde que tinha razão em tudo. Wilde também nos disse que toda a má poesia é sincera. Se eu pudesse, mandava gravar estas palavras na porta principal de todas as universidades, de maneira a que cada estudante pudesse reflectir sobre o discernimento que elas contêm.

Harold Bloom (1930), in O Cânone Ocidental (pgs. 29/30).

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

Divagações 135


Com o tempo, qualquer moeda se deprecia para os nacionais que a usam. E, normalmente, um imóvel terá tendência para se valorizar, ao menos, consoante os índices de inflação. No presente, e em Portugal, as subidas de preço no imobiliário, especulativas de algum modo, só se explicam, não pelo valor real das casas, mas pela intensa procura personificada por estrangeiros e pelos artíficios criados pelos mercados que se dedicam à habitação.
Ando a ler, com atenção mas intermitantemente, Problemática da História Literária (Ática, 1961), de Jacinto do Prado Coelho (1920-1984). Foi com enorme surpresa que me deparei com o nome de Benedetto Croce, crítico e teorizador literário, que é muitas vezes citado. Na altura, era um ensaísta muito frequentado, tal como Harold Bloom, aqui há 20 ou 30 anos. Quem saberá hoje de, ou lerá, Croce, nesta fugacidade e efemeridade dos tempos?
Celebra-se hoje a implantação da República, com sentimentos amortecidos em relação à data, embora com o valor simbólico de um acontecimento patriótico que marcou a História de Portugal. Daqui a 108 anos, como se irá celebrar o 25 de Abril?
Porque uma coisa são as efemérides, e outra são as efemeridades...

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Divagações 127


Era Harold Bloom que falava da angústia da influência, querendo dizer que nenhum artista se pode libertar, inteiramente, da herança de outros, por muito original e inovador que seja. E a afirmação tanto poderá servir para escritores, poetas, como para escultores e pintores. Mesmo para outros artífices de profissão mais modesta.
O tema insólito e anódino de uma carcaça de animal abatido, para consumo, que, aparentemente, não apresenta nem desperta grandes sentimentos estéticos, foi usado por dois pintores, muito diferentes, com um intervalo de quase 300 anos. Rembrandt (1606-1666) pintou o quadro (carcaça de bovino) entre 1640 e 1645; a tela de Soutine (1893-1943) foi executada (neste caso, a carcaça de um cavalo) em 1925.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Eterno Poema



Aqui há uns anos, foi publicada a tradução de um livro, pela "Cotovia", que provocou algum ruído e discussão, por vezes, quase polémicos. Tinha por título "A Angústia da Influência - uma teoria da poesia" e o seu autor, Harold Bloom (1930). Li-o, não sem alguma irritação e, no final, pus a lápis, na 1ª folha branca, a indicação: «Irracional e provocatório!».

Por vezes, não estamos (ainda) prontos para lermos determinado autor ou obra. Aconteceu-me isso com Graham Greene, no início. Hoje, sou um incondicional. Em relação ao livro de Bloom decidi-me a reavaliá-lo. E recomecei a lê-lo. Sem ter ainda uma opinião reactualizada, deixo aqui o início do primeiro capítulo intitulado: "Clinemen ou Encobrimento Poético":

"Shelley especulou que os poetas de todas as épocas contribuiram para um Grande Poema em progresso perpétuo. Borges observa que os poetas criam os seus precursores. Se os poetas mortos, como Eliot insistiu, constituíram os avanços específicos do conhecimento dos seus sucessores, tal conhecimento é ainda uma criação dos seus sucessores, construído para as necessidades dos vivos. Mas os poetas, ou pelo menos os mais fortes entre eles, não lêem necessessariamente como até os mais fortes críticos lêem. Os poetas não são nem leitores ideais nem leitores correntes, nem arnoldianos nem johnsonianos. Ao ler, tendem a não pensar que «isto está morto e isto está vivo na poesia de X». Os poetas, na altura em que se tornaram fortes, não lêem a poesia de X, visto que os poetas realmente fortes só se podem ler a si próprios. Para eles, ser judicioso é ser fraco, e comparar, exacta e justamente, é não ser eleito. ..."


P.S.: para "c. a.", com simpatia, e por causa de T. S. Eliot.