
Aqui há uns anos, foi publicada a tradução de um livro, pela "Cotovia", que provocou algum ruído e discussão, por vezes, quase polémicos. Tinha por título "A Angústia da Influência - uma teoria da poesia" e o seu autor, Harold Bloom (1930). Li-o, não sem alguma irritação e, no final, pus a lápis, na 1ª folha branca, a indicação: «Irracional e provocatório!».
Por vezes, não estamos (ainda) prontos para lermos determinado autor ou obra. Aconteceu-me isso com Graham Greene, no início. Hoje, sou um incondicional. Em relação ao livro de Bloom decidi-me a reavaliá-lo. E recomecei a lê-lo. Sem ter ainda uma opinião reactualizada, deixo aqui o início do primeiro capítulo intitulado: "Clinemen ou Encobrimento Poético":
"Shelley especulou que os poetas de todas as épocas contribuiram para um Grande Poema em progresso perpétuo. Borges observa que os poetas criam os seus precursores. Se os poetas mortos, como Eliot insistiu, constituíram os avanços específicos do conhecimento dos seus sucessores, tal conhecimento é ainda uma criação dos seus sucessores, construído para as necessidades dos vivos. Mas os poetas, ou pelo menos os mais fortes entre eles, não lêem necessessariamente como até os mais fortes críticos lêem. Os poetas não são nem leitores ideais nem leitores correntes, nem arnoldianos nem johnsonianos. Ao ler, tendem a não pensar que «isto está morto e isto está vivo na poesia de X». Os poetas, na altura em que se tornaram fortes, não lêem a poesia de X, visto que os poetas realmente fortes só se podem ler a si próprios. Para eles, ser judicioso é ser fraco, e comparar, exacta e justamente, é não ser eleito. ..."
P.S.: para "c. a.", com simpatia, e por causa de T. S. Eliot.