
Uma das áreas de bibliofilia mais procuradas e disputadas, em leilões de livros, são os relatos de estrangeiros sobre Portugal e os portugueses. Há muitos coleccionadores, muita procura e, nem sempre, muita oferta. Um dos primeiros relatos conhecidos, sobre Portugal, é o do cruzado Osberno (ou Osb.) que participou na conquista de Lisboa, em 1147. Até Agustina veio a aproveitar o caso para um dos seus livros. No séc. XV, o mais importante texto é de Wolkenstein, tirolês, que até foi recebido na corte de D. João II. A partir do séc. XVIII alarga-se a oferta, com autores tão diversos como William Beckford, Byron, J. C. Murphy, Carrère, Charles F. Dumoriez, Giuseppe Gorany e tantos outros. O livro "Campaigns of the British Army..." (Londres, 1812) é um dos mais procurados e caros, até pelas gravuras de Henri L'Évêque (1769-1832), aguarelista e gravador suiço, que enriquecem o volume.
Também o conhecido escritor dinamarquês Hans Christian Andersen (1805-1875) visitou Portugal, no Verão de 1866, e para lá da canícula que o irritou, deixou impressões simpáticas sobre a serra da Arrábida, a beleza das mulheres de Aveiro, sobre Coimbra, Sintra, Setúbal e Lisboa. Visitou Castilho, na sua casa, e vieram a trocar correspondência, depois. Grande parte das suas deambulações fê-las na companhia dos irmãos O'Neill (José e Jorge). Vamos, então transcrever um pequeno excerto de "Uma visita em Portugal em 1866" (Lisboa, 1971) de H. C. Andersen, em tradução de Silva Duarte. Segue o início do capítulo III.
"Por todas as descrições de Lisboa com que deparei, formara para mim próprio uma imagem desta cidade mas a realidade foi bem outra, mais luminosa e bela. Fui obrigado a exclamar: - Onde estão as ruas sujas, as carcaças abandonadas, os cães ferozes e as figuras de miseráveis das possessões africanas que, de barbas brancas e pele tisnada, com nauseantes doenças, por aqui se deviam arrastar? Nada disso vi e quando dessas coisas falei, responderam-me que correspondiam a uma época de há uns trinta anos, de que muitas pessoas se lembravam ainda perfeitamente. As ruas são agora largas e limpas; as casas confortáveis com as paredes cobertas por azulejos brilhantes de desenhos azuis sobre branco; as portas e janelas são pintadas a verde ou a vermelho, duas cores que se vêem por toda a parte, mesmo nos barris dos aguadeiros. O passeio público, um jardim longo e estreito no meio da cidade, é à noite iluminado a gás e aí se ouvem concertos. As árvores em flor desprendem um perfume bastante forte; é como se estivéssemos numa loja de especiarias ou numa confeitaria que preparasse e servisse gelados de baunilha.
Nas ruas principais há vida e movimento. Passam ligeiros os cabriolés e arrastam-se pesados os carros de bois dos camponeses de aspecto antediluviano. Pode-se ver um leiteiro com duas ou três vacas que ordenha na rua, seguido muitas vezes dum grande vitelo com açamo de coiro, a custo extraindo a sua ração fixada de leite. As esquinas das ruas são matizadas com grandes cartazes de teatro. A Ópera esteve fechada enquanto permaneci em Lisboa. O Circo «Price» onde se apresentavam pequenas óperas e operetas, bem como o teatro D. Maria II eram os mais frequentados. Este último não é muito grande mas é um belo edifício ornado de pilares e estátuas, voltado para uma praça arborizada com um pavimento em mosaico e muito elegante. Pouco mais adiante estende-se a larga Rua do Ouro. ..."
P.S.: Em tempo, e com agradecimentos a JAD, se rectifica que Osberno não foi emissor, mas receptor da carta de relato da tomada de Lisboa, que terá sido enviada por um Cruzado de nome desconhecido.