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terça-feira, 16 de abril de 2024

Bibliofilia 212

 

Estes Elementos da Poetica (1765), colhidos nos clássicos gregos e latinos por Pedro José da Fonseca (1737-1816), constituem a primeira edição desta obra pedagógica, que o professor régio de retórica fez imprimir na Oficina de Miguel Manescal da Costa, em Lisboa. Seguiram-se pelo menos mais duas edições Rolandianas, nos anos de 1781 e 1804. O seu magistério desdobra-se ainda pela publicação de um dicionário de língua portuguesa (1793), um tratado de versificação e por um Lexicon Latini que  contou sete edições.
Encadernada e em muito bom estado, a obra foi adquirida na Livraria Antiga do Carmo, ao alfarrabista José Ferreira, em 1988, por Esc. 1.500$00. Recentemente, a In-Libris tinha um exemplar à venda desta edição original pelo valor de 85 euros.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Horácio em Português


O afecto também pode ser só silêncio, cada um abandonado ao dever do que gosta. Mesmo que o cenário possa ser uma velha garagem, que ainda cheira a óleo. Mas a manhã vinha de fora, com todo seu perfume, ainda de Verão. Por isso, vinha uma aragem pela porta grande, que era também leveza, e podíamos assim dedicarmo-nos, ambos, àqueles livros tão nobres e antigos.
Eu agarrei numa tradução das Odes de Horácio e só a larguei no fim de a ler, completamente. A versão portuguesa é muito escorreita, e feliz, muito embora o tradutor, açoriano, José Augusto Cabral de Mello (1793-1871), nos diga que lhe demorou 18 anos a fazer. E no posfácio nos dê conta do cuidado (mandou vir, até, o papel da Inglaterra, para impressão...) e das vicissitudes por que passou, até conseguir imprimir a obra, em Angra do Heroísmo, em 1853, numa edição de apenas 622 exemplares. Tão rara, que nem Inocêncio a regista.
O livro, intitulado "Odes de Q. Horacio Flacco/ traduzidas/ Em verso na Língua Portuguesa/ por/ José Augusto..." é ameno de se ler. Por isso, aqui vai uma amostra divertida da versão da Ode VIII de Horácio, feita pelo poeta (que se carteou com Garrett) e advogado açoriano:

A uma Velha Amorosa

Perguntas-me, c'um século de edade
E assaz graveolenta,
Qual o motivo que me enerva tanto?
Os teus dentes são negros,
E teu rosto a velhice encheu de rugas.
.......
..............
Será tudo isto proprio
A inspirar-me no peito amor ardente?
Sê mui rica, e se vejam
Em teu enterro os triumphaes retractos
De teus avós illustres;
Não apareça dama alguma tanto
Como tu carregada
De finissimas pérolas formosas;
Ri-se amor disso tudo.
De que aproveitam os estoicos livros
Que tão vaidosa ostentas
Entre almofadas séricas mimosas?
Pode a sua sciencia
Fazer acaso me enrigeles menos
Do que as não-litteratas?

Menos frigido sou porque procuras
Em mim accender fogos
Com estranhos excessos amorosos
Que repulso soberbo?

segunda-feira, 12 de março de 2012

Áurea mediocridade e alegria


Ainda não foi hoje que vi a primeira andorinha imigrada. Mas as frésia, incontidas, continuam a florir numa alegria irreprimível. E, da esplanada ao sol, podiam ver-se violetas (?) bravas e couves verdes pujantes desafiando o Inverno. Por aqui, cotejando as informações que chegam de outras paragens, não devemos estar na clássica Europa que, ou tem frio ainda, ou lhe chove no corpo, desalmadamente.
Nem tudo são agruras, nem sempre Portugal é triste. E deve haver um deus menor e compassivo que destinou ao extremo Ocidente, esta física alegria de um sol aberto e benigno sobre a pele, este afago de ternura simples, este azul único, mesmo que seja sobre o cinzento saraivado de velhice. Para nos dar força e uma invencível vontade de primavera, contra todas as evidências pouco amenas do futuro. Viver este dia e lembrar Horácio. 

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Favoritos XLIV : Horácio


O poeta Quinto Horácio Flaco terá nascido a 8 de Dezembro do ano 65 a. c. e morreu, a poucos dias de completar 57 anos, em Novembro do ano 8 a. c. . Lembro Horácio, através duma das suas obras mais conhecidas ( Carpe Diem ), na versão traduzida por David Mourão-Ferreira.

Ode a Leucónoe

Não procures, Leucónoe - ímpio será sabê-lo -
que fim a nós os dois os deuses destinaram;
não consultes sequer os números babilónicos:
melhor é aceitar! E venha o que vier!
Quer Júpiter te dê inda muitos Invernos,
quer seja o derradeiro este que ora desfaz
nos rochedos hostis ondas do mar Tirreno,
vive com sensatez destilando o teu vinho
e, como a vida é breve, encurta a longa esp'rança.
De inveja o tempo voa enquanto nós falamos:
trata pois de colher o dia, o dia de hoje,
que nunca o de amanhã merece confiança.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Médico e Poeta



Não se sabe muito sobre Miguel do Couto Guerreiro (1723?-1793) para além de ter nascido em Grandola, ter vivido grande parte da sua vida em Setúbal e se ter licenciado em Medicina, pela Universidade de Coimbra, em 1751. Publicou, em vida, vários livros de poesia, entre eles uma tradução da "Arte Poética" de Horácio. Foi, portanto, poeta e médico. Façamos votos para que tenha sido melhor médico, do que foi poeta... Escreveu, no entanto, alguns epigramas com certa graça de que damos uma pequena amostra.

LXXVII

Eu ando na diligência
Seja, por que preço for,
De me fazer comprador
De calos para a paciência
E orelhas de mercador.

XCIV

Se alguma pessoa ignora,
Porque venho tão pasmado,
Ouvi dizer ainda agora
Uma sogra bem da nora
E de seu amo um criado.

CXXX

Eu não sei por que caminho
Sucedem tantas passagens:
Um, que ontem com murmurinho
Vendia panos de linho
Hoje já fala em linhagens.