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domingo, 30 de junho de 2019

Letras, Coimbra juvenil


Os degraus estão lá, ainda. Mostrei-os a HJM. Onde, em 1962 (Maio?), se me deu o clique mental  político que acompanhou o som do puxar da culatra  da metralhadora de um polícia de choque que, integrado no pelotão repressivo, invadiu o campus universitário, pela primeira vez, em séculos. Até aí, eram os archeiros que cumpriam essa autoridade, a contento do poder e dos estudantes. Aberto o precedente, havia de repetir-se a intrusão policial, em 1969, com mais aparato e dureza.
Agora, os archeiros e os bedéis têm novas fardas e até tive dificuldade em identificá-los, mas os murais no interior de Letras são os mesmos, marcadamente figurativos como os soviéticos da mesma época. E o meu olhar fixou-se, como antigamente, no canto inferior direito e na imagem digna do cego Homero, que não envelhecera, na sua meia idade eterna de aedo e patrono das Humanidades conimbricenses. E, nessa recordação votiva, me veio à memória a amorável imagem de Maria Helena da Rocha Pereira (1925-2017), professora que me leccionou Cultura Clássica, há quase 60 anos...

domingo, 14 de outubro de 2012

Clássicos, qualidades e o homem comum



Diz-me quem conhece a língua, ou acordámos o facto entre nós, que o título da obra-prima do austríaco Robert Musil (1880-1942), em alemão "Der Man ohne Eigenschaften", terá sido mal traduzido para português, através de "O homem sem qualidades" (da Livros do Brasil, versão de Mário Braga). Seria mais correcto intitular-se O Homem banal, ou seja, aquele que não se distingue dos outros, que passa despercebido. Uma espécie de homem comum ou anti-herói que é, no fundo, o tema da obra de Musil.
Quanto aos heróis clássicos a questão é mais complexa. Creio, por exemplo, que toda a gente concordará no facto de Ulisses ("A Odisseia", de Homero) ser o mais popular dos heróis gregos clássicos. Ultrapassando em larga medida Ájax ou Aquiles que, apesar de tudo, têm um comportamento mais cavalheiresco. Talvez porque Ulisses fosse o homem dos mil artifícios, mais industrioso a resolver os problemas mais complicados (Polífemo, o canto das Sereias, Calipso, os pretendentes de Penélope...), através de soluções improvisadas, mas argutas. Muito de homem comum, em relação aos aristocráticos Ájax e Aquiles, que também tinham qualidades.

sábado, 8 de outubro de 2011

A prosaica manhã e suas cores


Depois do que parece ser o luto que a noite derrama, apesar da Lua Cheia adivinhada, sucedem os "dedos róseos da aurora", como Homero lhes chamava.
Mas este laranja, quase fogo, ao longe no céu e sobre o horizonte - será porventura do meu ligeiro daltonismo -, lembra-me, também, prosaicamente, o interior de uma torta de cenoura fatiada. Onde foram generosas as gemas de ovo e intensas as raspas de cenoura. Sem corantes, nem conservantes.
Só depois vem o azul anémico e pálido, que vai robustecendo com a força do Sol. 

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Bibliofilia 25 : Homero e António Maria do Couto



O pequeno poema herói-cómico "Batrachomyomachia...", atribuído a Homero, tem, em verso, esta única (creio) tradução feita por António Maria do Couto, professor de grego. O tradutor, nascido em Lisboa, provavelmente em 1778, veio a falecer em 1843. É autor de mais de 40 títulos, entre livros e opúsculos, e traduziu também a "Ilíada" (1811). O poemeto herói-cómico veio a ter, mais tarde (1947), uma versão portuguesa, em prosa, feita pelo Padre M. Alves Correia para a "Colecção Clássicos Sá da Costa".
O opúsculo em presença não é frequente e foi comprado, por mim, há muito pouco tempo, em Lisboa, por 12,00 euros. Tem 32 páginas impressas e uma cobertura cozida de folhas de papel azul cinzento, de protecção. Na capa de papel, de fraca qualidade, está manuscrita a tinta a seguinte indicação: "Para instrucção e recreio do Illmo. Sr. Jozé Pereira Menezes. 240 rs. Assinatura somente pelos Discípulos do Professor Couto".

sábado, 31 de julho de 2010

Quem quer viver para sempre?

Quem quererá viver para sempre? A sabedoria antiga, pelo testemunho de Homero, diz-nos que Ulisses declinou essa possibilidade, que lhe foi oferecida. Cuidados paliativos?, vida artificial?, se formos meros vegetais sem viço? - não, obrigado! Como dizia Pessoa, somos apenas "cadáveres adiados que procriam", é útil lembrá-lo. Não embarcar com os políticos que dizem que temos melhor qualidade de vida, por durarmos mais tempo. São falácias onde entram cadeiras de rodas e camas articuladas, onde um ser humano já só tem o silêncio por companhia. Há que viver o minuto seguinte e o dia de amanhã com toda a intensidade de que formos capazes. O resto é usura estúpida, poupança inútil, pensamento fraco. O resto, em resumo, é silêncio.