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segunda-feira, 30 de abril de 2012

Notas de Leitura IV: Jacob Rodrigues Pereira




A estela e o medalhão existentes na Praça Jacob Rodrigues Pereira, em Peniche, pressupõem-no nascido nas Berlengas, mas o primeiro reeducador de crianças surdas e mudas em França, que sempre se afirmou português, nasceu de facto em Espanha, na aldeia de Berlanga, em 1715 e morreu em Paris em 1780, sem que conste ter estado alguma vez em Portugal.
Jacob Rodrigues Pereira – Homem de bem, judeu português do séc. XVIII, primeiro reeducador de crianças surdas e mudas em França, estudo biográfico de Emílio Eduardo Guerra Salgueiro, editado em 2010, pela Fundação Calouste Gulbenkian, proporciona ao leitor, através da profusa documentação que o integra, não apenas o conhecimento das várias facetas da vida e da actividade daquele judeu português, mas também uma visão aprofundada acerca da condição dos judeus em Portugal, e em Espanha, no século XVIII, sobre o “modus operandi” dos inquisidores e sobre o comportamento das vítimas: as suas fraquezas, os seus actos de delação, o sofrimento, a iniquidade das acusações, a perversidade das penas.
Para tal, a obra de Emílio Salgueiro remonta, de facto, a 13 de Abril de 1699, quando “um grupo de quarenta e oito portugueses, na maioria de Trás-os-Montes, embarca em Lisboa no barco genovês N. Srª de la Coronada (...) com destino ao porto de Livorno, em Itália”, naquilo a que poderíamos chamar uma fuga para a dignidade.


Conquanto o biografado, já nascido em Espanha, não tenha vivido o período mais negro da vida dos seus pais, e que se seguiu à prisão destes, pela Inquisição, em Cádis, as informações e os documentos, patentes nesta obra, e que nos dão conta quer das ‘memórias’ apresentadas à Academia Real das Ciências de Paris, quer dos registos notariais com que procurou comprovar e atestar o método de reeducação que desenvolveu, quer a forma como preparou a apresentação do seu aluno Azy d’Étavigny na corte de Luís XV, bem como os seus projectos de construção de uma máquina aritmética, de um engenho que suprisse a acção do vento nas grandes embarcações, em situações de calmaria, de um dicionário das 13 principais línguas da Europa e, também, da sua intensa actividade diplomática, na qualidade de “agente das nações portuguesas”, isto é , de representante das comunidades de judeus portugueses em França, e que culminou com a aquisição de um terreno destinado a cemitério dos judeus portugueses em Paris, traduzem, para além de óbvia tenacidade de Jacob Rodrigues Pereira, a sua condição de homem do Iluminismo: o seu pragmatismo, o seu racionalismo, a forma como construía as soluções a partir da análise objectiva e rigorosa dos problemas e como procurava, em todas as situações, controlar os factores de incerteza, prevenir a desconfiança e a herança do preconceito.
Assim, as linhas que vão emergindo da obra de Emílio Salgueiro correspondem, dir-se-ia, ao retrato comovido de um português em que se materializou o espírito das Luzes e a marca do bem comum, bem como uma ideia de biografia em que História e circunstância mutuamente se elucidam.
Nesta perspectiva, são particularmente significativas, para além das comunicações do próprio Jacob à Academia Real das Ciências, o relatório elaborado pela comissão de sábios encarregada pela Academia de examinar e de avaliar os resultados obtidos com o método que desenvolveu, os textos publicados, entre outros, no Mercure de France, no Journal de Savants e no Journal de Verdun, a carta enviada pelo irmão de Jacob, à mãe, então a residir em Bordéus, descrevendo, em pormenor, a audiência concedida por Luís XV e o sucesso de Jacob ao apresentar perante o rei de França e a corte os resultados do seu método, na pessoa do seu aluno Azy d’Étavigny, a referência de Buffon, na sua História Natural, ao método de ensino de surdos-mudos desenvolvido pelo português e o reconhecimento régio, consumado em 1750, com a atribuição de uma pensão de 800 libras.


A par de uma minuciosa investigação historiográfica e seguindo, entre outros, os trabalhos de E. Séguin e de E. La Rochelle, sobre a vida e a actividade de Jacob Rodrigues Pereira, a obra de Emílio Salgueiro dá-nos a ver, por entre rivalidades, controvérsia e contestação, apogeu e declínio, o retrato intelectual de alguém que se afirmou pelo mérito, de alguém para quem o conhecimento procede da razão, da observação e da experiência e está na raiz da autonomia do ser humano, de alguém que se pode filiar numa vertente de pensamento livre e de racionalismo, que a tradição judaica também comporta, e que terá em Espinosa, porventura, o seu mais relevante exemplo.
“Séguin afirma que o Jacob conseguia ensinar a falar aos surdos e mudos por ter descoberto a lei da identidade das percepções sensoriais, o que designaríamos hoje, talvez, como a descoberta das sinestesias na construção dos mapas tanto do mundo exterior, como do mundo interior. E prossegue Séguin, dizendo que Jacob não acreditava que a palavra estivesse inteiramente contida na articulação, procurando, por isso, cultivar nos seus alunos a voz humana e natural, ao ponto de lhes transmitir o seu próprio sotaque estrangeiro (...). Ensinava a articulação pela vista, pelo tacto, pela memória dos movimentos dactilológicos, a voz humana pela percepção táctil das vibrações sonoras, a entoação pelo gesto e o sotaque pela medida”.
Como se vê aquilo que Jacob Rodrigues Pereira pretendia era que os seus alunos descobrissem por si próprios, através da observação e pela experiência da interacção com os outros (pela expressão, pelo movimento dos lábios, pelo gesto) uma certa  inteligibilidade do mundo, um sentido das palavras que está para além do seu referente. E é, por assim dizer, essa dimensão ‘oculta’, inexplicável e, porventura, inata, da aptidão humana para a palavra, que o método de Jacob Rodrigues Pereira torna evidente e que o depoimento de Saboureux de Fontenay, aluno de Jacob, numa carta datada de 1764, sublinha: “Do mesmo modo como uma criança aprende o francês, M. Pereire dedicara-se em primeiro lugar a dar-me a inteligência das palavras de uso diário e as frases mais vulgares (...). Achando que eu já estava suficientemente a par dos diálogos de uso diário, evitou gesticular à minha frente, ao mesmo tempo que me falava pelos dedos com o alfabeto à espanhola, que tinha aumentado e aperfeiçoado: a finalidade era acostumar-me melhor à linguagem e fazer-me perder o hábito de falar através de sinais à minha maneira; exercitar-me melhor a perceber as frases familiares, aprontar-me a executar todo o tipo de coisas, de acordo com o sentido que tomasse no meu espírito a linguagem que tivessem usado para exprimir o que pretendiam de mim; responder sozinho às perguntas fáceis e às difíceis, pensar por mim próprio”.
Partindo de uma detalhada observação da realidade, que o leva a distinguir diferentes graus de surdez nos seus alunos, Jacob Rodrigues Pereira aperfeiçoa o seu método adaptando-o às características de cada aluno ou, melhor dizendo, às possibilidades de aprendizagem de cada um. E, nessa medida, poderemos, talvez, dizer que o sucesso do seu método depende mais da capacidade do mestre do que, porventura, das potencialidades do aluno, pois como sugerem as palavras de Emílio Salgueiro, referindo Renée Neher-Berheim, o ‘segredo’ do método de ensino de Jacob parece residir “(n)o modo e (n)a intensidade com que se ligava aos seus alunos a quem tratava como pessoas completas, a excelente relação afectiva que com eles conseguia criar, propiciadora de um aprendizado entusiasmado das técnicas de desmutização e de um crescimento moral e cívico”.
Consciente de que algo mais do que o meramente mecânico e o meramente instrumental intervêm no acesso à palavra, algo que só a convocação da inteligência, da memória e dos restantes sentidos seria capaz de completar, o método de Jacob Rodrigues Pereira procura, apoiando-se numa certa pragmática da comunicação, incitar os alunos a tirarem partido de todas as vertentes expressivas da natureza humana, de forma a suprirem a carência do ouvido; dir-se-ia querer estimular em cada aluno a capacidade de mobilizar, pela vontade, a plasticidade da própria inteligência e fazê-lo descobrir desse modo ignoradas capacidades, susceptíveis de o resgatar de uma suposta fatalidade divina.
Falamos de uma perspectiva de aperfeiçoamento humano à maneira do Iluminismo, de uma atitude que não pretendia salvar a alma dos surdos-mudos (até então, diga-se, escondidos como fruto de um pecado, como expiação de uma culpa sem motivo) mas tão só devolver-lhes, como nos casos de Aaron de Beaumarin, de Saboureux de Fontenay, de Azy d’ Étavigny e de Marie Maurois, um outro sentido da vida, para além dos sinais à maneira de cada um, permitir-lhes conquistar, pelo acesso à palavra falada, a autonomia, a dignidade social e uma outra inserção no mundo, que só pela fala e pelo entendimento da palavra própria e alheia, porventura, se alcança.


E talvez por tudo isto se explique a circunstância de Jacob Rodrigues Pereira se ter também empenhado, a par da sua acção como representante dos judeus portugueses em França e da actividade de reeducação de crianças surdas-mudas, no desenvolvimento de outros projectos científicos, pois essas actividades, por assim dizer, de contraponto, traduzem claramente, por um lado, o pendor científico da sua personalidade intelectual e, por outro, a ideia de pertença ao ambiente moral e intelectual de um tempo em que o saber deixa de ser apenas invocado, para passar a ser também escrutinado e demonstrado na sua dimensão de eficácia social: um contexto histórico em que os ideais de progresso e de liberdade humana começam a despertar e a fazer o seu caminho.
O facto de ter conseguido demonstrar que, apesar das limitações próprias e óbvias era possível transformar um surdo-mudo num surdo falante, e que é, por certo, a sua mais importante e fecunda herança, a vida e a acção de Jacob Rodrigues Pereira, revelam-se-nos, nesta obra de Emílio Salgueiro, através de um nítido paralelismo entre a condição dos judeus e a condição dos surdos-mudos na Europa na segunda metade do século XVIII, e o propósito de um homem de bem de os querer resgatar, a judeus e surdos-mudos, dos atavismos da injustiça, da tutela do preconceito, do sofrimento sem motivo e da tenaz da indignidade.

Post de H. N.
Nota: O ARPOSE agradece, cordialmente, a H. N. mais esta atenta leitura. 

sábado, 2 de abril de 2011

Notas de Leitura I: Camus - "O Primeiro Homem"

O silêncio sobre a guerra da Argélia atravessa o texto em surdina: um eco de explosões e de brutalidade corta o bafo do sol mediterrânico e o peso da noite africana fechando-se rápida; na escrita de O Primeiro Homem desenha-se uma linha de melancolia e de ressonâncias bíblicas de que só a verdade é capaz.

O retrato difuso de um pai desconhecido, reinventado na figura do professor primário, por um protagonista simultaneamente criança, adolescente e adulto; a mãe que a pretexto de não ouvir traduzia o amor num olhar de silêncio com cristais de alheamento; o tio, surdo, que transformava o afecto em gestos; a avó que fazia do instinto de sobrevivência uma forma de sabedoria: recordações quase secas de passado, tenacidade e pobreza.

Por isso, mais do que a imagem improvável de Henry Cormery, morto em 1914 na batalha do Marne, Jacques Cormery quis, afinal, construir a sua própria memória, expurgando-a dos confortos da ilusão.

Os fios da realidade, que o tecido frágil da ficção não oculta, revelam-nos também, por força da incompletude e da intrínseca imperfeição desta derradeira narrativa de Camus, não apenas a oficina do escritor, a simplicidade dos seus materiais, a sua recorrência, mas, sobretudo, o modo como o fluxo da escrita confere a esses materiais simples a profundidade e o excesso próprios da vida, que se abre e se desenrola entre a chaga flor.

Quase não há análise psicológica em O Primeiro Homem, apenas registos de comportamento, e a diferença de Camus, o seu desajustamento relativamente ao ar do tempo, a frescura desta narrativa - que, recorde-se, foi encontrada na sua pasta, aquando do acidente que o vitimou em 4 de Janeiro de 1960 - está, porventura, nesse silêncio e nessa reserva, no reconhecimento da impenetrável obscuridade da natureza humana, oscilando entre o afecto e a indiferença, entre a crueldade e a compaixão, entre a contenção e a revolta. E é exactamente no sublinhar dessa estranheza, dessa dimensão algo bipolar no homem e na natureza, dessa alternância de luz e de sombra, que se encontra o melhor deste texto de Camus: uma forma de religiosidade sem crença, de generosidade laica, de amor sem objecto, que nasce da ânsia de viver e se alarga a uma espécie de fraternidade cósmica.


A pobreza é a circunstância, a condição “que não se escolhe mas que pode guardar-se”. E é no modo de encarar a pobreza, enquanto “fábrica de heroísmos mudos para a história” e onde nasce “a vergonha de ter vergonha” que O Primeiro Homem nos dá a ver, mais em forma de discurso do que em forma de romance – pois de que serviria contar a história da pobreza que não se escolhe e não dizer, de viva voz, com a veemência das palavras, o modo como a pobreza se guarda - , a maneira como, apesar do filtro burguês da educação, o pudor da coragem e o orgulho de ser capaz bastam para que o homem regresse sempre, sem trair, aos fundamentos da sua circunstância e aí reencontre, entre o rigor e a poesia, como sístole e diástole, o pulsar certo do coração da vida.

Tudo como se a virtude da pobreza tocasse a raiz de uma outra forma de aristocracia e alcançasse o luxo do despojamento sem a ganância da posse, num estado de acomodação da revolta transformada em destreza física, inteligência e emoção. Eis o retrato de Jacques Cormery e, porque não, do próprio Albert Camus.

Pela forma como excede o tecido da ficção e testemunha uma visão do mundo, por vezes incómoda nos seus silêncios, mas que cinge a condição humana na sua realidade mais profunda, em que o escrever e o pensar se conjugam e se confundem no vigor de um mesmo acto e na intimidade de um mesmo gesto, O Primeiro Homem escapa, por assim dizer, às demasias do tempo. Dir-se-ia que uma certa nudez ilumina, sem a querer explicar, a obscuridade que nos torna íntimos de nós e confere a este texto de Camus o eco de um registo clássico, uma espécie de triunfo da imperfeição, ao surpreender, nas marcas da sua incompletude, o momento em que, como diria René Char, “a lucidez é a ferida mais próxima do sol”.
Post de H.N.

PS: um agradecimento efusivo, embora discreto, a H.N. pela sua colaboração privilegiada, no Arpose.