Editado pela Afrontamento (Porto), em Março de 2018, sob coordenação e prefácio de Karina Marques, o volume Ilse Losa : estreitando os laços é uma bela homenagem à escritora de origem alemã, que veio enriquecer as letras portuguesas. Não só pelo cuidado estético posto na edição, mas também pelo rico e extenso conteúdo. Apenas um senão: muitas das referências em língua alemã estão gralhadas. Uma revisão mais minuciosa e competente tê-las-ia evitado...
Mais do que as cartas e postais de Ilse Losa, são as inúmeras missivas dos seus confrades que abundam no livro. De Almeida Faria a Eugénio de Andrade, de Jorge de Sena a Óscar Lopes, passando por Irene Lisboa, Matilde Rosa Araújo e Maria Lamas. Destacaria sobretudo uma carta de Eugénio de Andrade (pgs. 76 a 81) em que este se defende, justificadamente irado, da imaginação delirante de Cesariny, que o acusou de lhe plagiar alguns versos.
E também duas cartas trocadas (pgs. 254 a 266) entre Mário Dionísio e Ilse Losa, donde ressaltam a sinceridade crítica do metodólogo e a humildade límpida, mas argumentativa, da Escritora.
Deste livro ressumam, aqui e ali, queixas sobre os editores, principalmente, nos parcos e sempre atrasados pagamentos aos autores, nos problemas causados pela Censura, as pequenas tricas do meio literário pequeno e português. E, quem diria, a gula de alguns escritores em serem traduzidos e publicados no estrangeiro, sobretudo na Alemanha, em que Ilse Losa funcionava como importante veículo intermediário.
Não quero deixar de referir que a capa da obra ostenta o conhecido desenho-retrato, que dela fez Júlio Pomar.
Para quem quiser ter uma ideia documentada da segunda metade do século XX português e do seu meio literário, este livro é uma referência importante e imprescindível. Por isso, o recomendo.