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sexta-feira, 13 de setembro de 2024

Da leitura 59

 

Sempre me senti pouco à vontade com a leitura de filosofia. Se exceptuar porém os nomes de George Berkeley, Arthur Schopenhauer, Soren Kierkegaard e Friedrich Nietzsche, autores que li com agrado e proveito.
Concluí entretanto que a marca de posse e data que, antigamente, eu inscrevia nos livros que ia comprando me permite, hoje, situar a leitura que deles fiz. Este Para além do bem e do mal, li-o aos 22 anos de idade.

sexta-feira, 1 de março de 2019

Memória 128


Creio que é hoje que faz anos Tânia Achot (1937?), discreta e notável pianista (ouvir poste seguinte...), especialista de Chopin, mas com amplo repertório que inclui Schumann e Liszt. Nascida na Rússia, de ascendência arménia, passou a sua juventude em Teerão (Pérsia).
Foi também esposa do pianista português Sequeira Costa.
Numa conversa, em vídeo registada, que lhe ouvi há dias, confessava-se um pouco saturada da leitura de ficção e prosa, inclinando-se, presentemente para a poesia e a filosofia, quanto a leituras preferidas. Nietzsche, sobretudo. Esse cansaço da prosa, que eu também sinto, levou-me a lembrá-la, hoje e aqui.
Merecidamente, aliás.

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Para ilustração da citação (abaixo) de F. Nietzsche...



...ora, experimentem ver o vídeo, sem música... Os executantes até parecem uns tolinhos.
E, já agora, desculpem a indigência sucinta da letra, se a ouvirem.

Nietzsche e a Dança


A Dança, por que Friedrich Nietzsche (1844-1900) se interessou, despertou-lhe várias reflexões curiosas. Talvez a mais dogmática tenha sido: que se deveria considerar um dia perdido qualquer dia em que se não dançasse ao menos uma vez.
Menos assertiva e propícia a fácil consenso foi a observação judiciosa e óbvia de que "aqueles que são vistos a dançar, poderão ser considerados loucos por aquele que não consiga ouvir a música."
Sendo que esta afirmação poderá ter um conceito mais alargado de metáfora...

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Desabafo (21)


De quando eu era pequenino, tenho na memória alguns episódios pitorescos e ingénuos, que me fazem considerar, agora, ter sido uma criança imbuída de princípios que se poderiam considerar típicos - quando hoje os penso - de um defensor estrénuo dos fracos e oprimidos. Com essa atitude épica, muito cristã, cheguei a correr alguns perigos físicos, menores. Mas quem sabe o que é a prudência e a complacência, burguesas, na infância?
É certo, e com atenuantes com que agora me defendo, que eu já tinha lido O Quixote, numa versão resumida, e me tinha emocionado com O Orlando, de Ariosto, lido em quadradinhos. Por outro lado, eram tempos de Guerra Fria e de coboiadas, em que o Bem havia sempre de triunfar do Mal, por invenção ou intervenção divinas, ou de algum realizador americano de cinema. E as almas núbeis ficavam, tranquilamente, na paz dos deuses, ainda existentes. Porque, depois, chegaram o Nietzsche e o Sade à minha vida. Para não falar do Tarantino ou do Buñuel.
Porque, hoje, tenho já muito pouca paciência para pactuar com a imprevidência estúpida, a carneirada mental e com a burrice arrogante. Até mesmo para com a beleza pura, sem miolos. De alguns adultos.
Hoje, que é o  Dia Mundial da Criança.

sexta-feira, 4 de março de 2016

Mote e glosa, ou pensar para lá das palavras


Há muitas perspectivas para abordar as últimas obras de Wittgenstein, mas, fundamentalmente, a concepção Romântica da filosofia no seu cerne - que é uma luta pessoal, em busca de uma terapia contra a perversão do intelecto pela linguagem...

Este pequeno excerto de Tim Crane (TLS, nº 5891), que acabo de traduzir, a propósito da obra de Ludwig Wittgenstein (1889-1951), foi-me uma espécie de iluminação.
Eu sempre me dei mal com a filosofia, tirando Berkeley, Kierkegaard, Schopenhaur, Nietzsche (sobretudo, na minha juventude), embora frequente, com agrado, os pro-filósofos Cioran e Steiner, mais recentemente. Desisti, pura e simplesmente, de Espinosa, Heidegger e Adorno. Mas perdi uma boa parte dos meus complexos, ao saber que as leituras filosóficas de Wittgenstein, considerado um dos grandes filósofos do século XX, eram muito reduzidas. Por exemplo, nunca teria lido nenhuma obra de Aristóteles... Esta ignorância do filósofo austríaco terá assim contribuído para a singularidade do seu pensamento e uma maior liberdade da sua teorização.
Resta o mecanismo de aprisionamento que a língua (ou linguagem), por sua vez, exerce sobre a forma de pensar. Porque pensamos, sobretudo, através das palavras, por caminhos de contiguidade e atracção entre elas, numa espécie de círculo fechado da memória e do inconsciente. É, por aí, que a liberdade de poder pensar se torna mais difícil. E só pela criação de uma nova linguagem, será possível contornar esse fatal constrangimento. Como também na poesia, aliás... 

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Variações tangenciais, em volta


Penso que não há sino que, ao ouvir-se, não nos convoque para sons semelhantes na memória de outros locais e idades. Quem traga consigo Pessoa ou Donne ("...que ele também dobra por ti."), estenderá, decerto, mais longe o seu alcance e a humana tentação de compreender. 
Entre a voz do muezin, do alto do seu minarete (tecnologicamente amplificada por microfones, ou não) e o som puro, metálico dos sinos, há a diferença de grau que vai da voz humana até à música, mesmo que em estado primitivo. Que se me perdoe pensar que, neste caso, existe uma evolução cultural. Não tanto, é certo, como entre a barbárie e o século das Luzes.
Não é preciso evocar Nietzsche (1844-1900) e o seu anúncio da morte de Deus. Ocidental, de facto.
Mas é útil, sempre, ter fé. Nem serão preciso velas ou flores, nem câmeras de televisão e palavras compungidas, normalmente primárias e redundantes, ordenadas em coro mediático estandardizado. Bastará uma fé discreta, íntima e silenciosa, moderada, talvez. Laica, de preferência.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Citações CXXI : Lou Andreas-Salomé


Diz-se frequentemente que a amizade permite conservar um sentido crítico enquanto que o amor está para lá de qualquer crítica. Também que a amizade quer estar consciente das suas próprias motivações mas que no amor ama-se incondicionalmente. Há quem exclua no entanto os vícios morais.

Lou Andreas-Salomé (1861-1937).

sábado, 28 de julho de 2012

Entre Cila e Caríbdes


Entre o dossiê bem interessante do "Obs." desta semana, sobre a felicidade, e uma das crónicas mais pessimistas, que li até hoje, de Pacheco Pereira, no jornal Público, de sábado, o meu pensar balança...
É evidente que há, nos dois temas, uma diferença de tomo: é de dois países diferentes que se fala e escreve - França e Portugal. Mas se virmos um terceiro, como a Inglaterra, com as manifestações pela abertura dos Olímpicos, poderemos observar aquela sociedade sempre em festa, com multímodas boas almas populares gritando descontroladamente e regurgitando de "felicidade"... E já vão três mundos!
Tudo será uma questão de perspectiva, de cultura, de capacidade racional, maior ou menor. Pacheco Pereira diz-nos, em resumo, que, depois da silly season, lá para Setembro/Outubro, acordaremos todos (nós, portugueses) encostados à parede, constatando que não há futuro. O "Obs.", por entre Epicuro, Séneca, Leibniz, Bataille...tenta encontrá-lo. E, com ele, a felicidade. Não é coisa pouca, e, muito menos, fácil.
Porque, aqui pela terrinha, a questão para muita gente, na maior parte dos casos, é: como sobreviver com alguma dignidade ainda? Ou à boleia de Nietzshe ("Obs." dixit): "Há uma grande insónia, de ruminação, de sentido histórico que alimenta o ser humano e acaba por o aniquilar."

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Da Filosofia, Bergson em particular



Creio ser consensual dizer que Portugal não é um país de filósofos. Só com manifesta generosidade e complacência conseguiremos alinhar alguns, poucos, nomes sob a chancela de uma dita Filosofia Portuguesa.
Eu próprio não me considero grande apreciador e leitor de Filosofia, em geral. Se excluir Berkeley, Kierkegaard, Schopenauer e Nietzsche, o que li, li-o mais por obrigação do que prazer. E foram, normalmente, leituras demoradas e penosas, na maior parte dos casos. Nem a "Ética" de Espinosa, judeu de origem portuguesa, consegui levar até ao fim, muito embora o tentasse por várias vezes.
Tenho, no entanto, um exemplo e caso de leitura agradabilíssima de uma obra filosófica - "Le Rire" de Henri Bergson (1859-1941). É um livro que recomendo a quem não gostar, particularmente, de Filosofia. E, por isso, aqui estou a lembrar Bergson, hoje, dia em que passa mais um aniversário da sua morte, ocorrida a 4 de Janeiro de 1941.

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Fulgurações


Acabei de ler recentemente "Rencontres avec René Char" (ed. José Corti, 1991) de Jean Pénard. Com imenso agrado. É um livro em que um amigo fala, também, sobre a velhice de outro amigo: as debilidades físicas, o sofrimento pela morte do gato Tigron (que morreu 3 anos antes de Char), o regresso memorial à infância, o amor (já) saudoso pela Natureza, algum desânimo...
Retive algumas ideias de Char (para lá da minha surpresa do Poeta não gostar nada de J. L. Borges), retransmitidas por Pénard. Aqui vai, partilhando, em tradução, um pensamento de René Char:
"Não há poetas sem delírios. Alimentámo-nos deles, dominando-os. O nó do problema é o de saber quem vai ganhar, o poeta ou o delírio. Se o delírio domina temos Hölderlin, Nietzsche, Artaud e tantos outros em pintura, em música, ainda com algumas fulgurações, mas fulgurações enlouquecidas."