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quarta-feira, 9 de março de 2022

Divagações 178



A divulgação de inéditos póstumos de escritores falecidos, por parte de familiares, amigos ou admiradores, colhe normalmente alguma perplexidade e divide críticos e leitores. No entanto, a não acontecer, não teríamos tido acesso, por exemplo, às esplêndidas obras de Cesário Verde e à Clepsidra, de Camilo Pessanha, que, se não fossem os cuidados da família Castro Osório, teria ficado sepultada na acédia ou abulia do Poeta. É óbvio que a decisão de publicar inéditos implica conhecimentos literários e, antes de mais, sentido crítico e estético por parte do decisor.

No sentido favorável se pronuncia, de algum modo, J. M. Coetzee (1940), em Textos sobre Literatura (2006 -- 2017), assim: " Se Brod tivesse cumprido as determinações de Kafka, não teríamos nem O Processo nem O Castelo. Como consequência de sua deslealdade, o mundo não só ficou mais rico como se viu transfigurado, metamorfoseado. Assim o exemplo de Brod e Kafka não deveria bastar como prova de que os testamenteiros literários - e talvez os testamenteiros em geral - devem dispor da liberdade de reinterpretar as suas instruções à luz do bem de todos?" (pg. 278)

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Pinacoteca Pessoal 159


O checo David Cerny (1967) já por aqui apareceu (1/9/2013), com uma sua escultura singular.
Este gigante sem pés (como lhe chamam, popularmente) personifica Franz Kafka (1883-1924) e foi executado, por Cerny, em 2014. A escultura ocupa uma zona frequentada pelo escritor de O Processo, que trabalhava, como advogado, numa companhia de seguros, nesta parte do centro histórico da cidade de Praga.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Do que fui lendo por aí... 30


Em 2018, Alberto Manguel (1948) foi agraciado com o Prémio Gutenberg. Recentemente saído, o Gutenberg-Jahrbuch de 2019 transcreve o discurso de aceitação do escritor argentino em que ele refere, naturalmente, Jorge Luis Borges, mas também Franz Kafka e a Bíblia. Despertaram-me a atenção algumas considerações que Manguel tece a propósito de leituras, de que vou transcrever um pequeno extracto que me pareceu curioso e mais significativo. Segue:

O ofício da leitura é misterioso. Ninguém sabe (certamente nem os próprios leitores) como é que as palavras da página, captadas pelo olhar, se transformam em experiência, reflexão, memória e, algumas vezes, até em novas criações. 

quinta-feira, 25 de outubro de 2018

A fortuna dos inéditos


A palavra inédito sempre teve um particular fascínio. Mas há quem abuse dela, ou deles (inéditos) se aproveite para tirar partido e dividendos, mesmo que à custa do abaixamento de qualidade da obra de um autor (escritor, músico, cineasta, pintor). Normalmente o criador deixa exarado que pretende que, o que sobrar, seja destruído: assim Cesário Verde, assim Kafka. Que, felizmente, nestes casos, não foram respeitados, porque o melhor estava para vir... Em relação a Pessoa e Sena, já não estou tão seguro, quanto ao que foi sendo publicado, como inéditos, depois da sua morte.
O jornal Le Monde, de 19/10/2018, anuncia a remontagem e próxima exibição do mítico The Other Side of the Wind, que Orson Welles (1915-1985) nunca chegou a completar, depois de deixar  o filme inacabado, em 1976.
Dando benefício da dúvida, há que esperar para ver.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Pinacoteca Pessoal 139


Nascido na Alemanha, mas a viver presentemente em França, o gráfico e pintor Jan Peter Tripp (1945) tem uma obra pouco conhecida, para lá das fronteiras destes dois países. Foi através do escritor W. G. Sebald (1944-2011), de quem foi colega na Escola Primária, que tomei conhecimento dele, através das páginas que aquele lhe dedica em Campo Santo.

As referências giram em torno de um retrato de Kafka, que Tripp projectou do escritor checo, em idade mais avançada, a que não chegou. Pertencendo à escola realista, a obra do pintor centra-se sobretudo em naturezas mortas e retratos muito bem executados. Que mereceriam uma maior divulgação e conhecimento, pela qualidade da sua arte. O segundo retrato é de Sebald a jogar bilhar.

Creio que não seria necessário dizer que a última imagem retrata Pablo Picasso. Que Tripp adornou com indumentária que o aproxima de Lutero... Porque o considerava o grande revolucionário, também, mas da pintura europeia do século XX.
Curiosidade, ou não, é interessante saber-se que ambos pertenciam ao signo astrológico do Escorpião.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Divagações 124


É Claudio Magris (1939) que, no seu Alfabetos, fala de Praga como uma "cidade literária", no seu conceito mais restrito. Mas, no sentido amplo, por ordem de importância, e sobretudo no século XX, a sagrada trilogia de Veneza, Trieste e Praga foi um must de distinção de alguns escritores e poetas que se prezavam de o ser. Este fascínio, porventura estranho, contagiou muitos leitores e viajantes. Actual e infelizmente, no entanto, Veneza está condenada, principalmente, ao turismo democrático e popularucho, tendo perdido grande parte da sua população residente.
Também para pintores e para os amadores de pintura, no século XX, foram lugares míticos: Florença, a Provença, Paris e, depois, sucessivamente, Londres, Berlim, S. Francisco...
A tudo isto - creio - anda também associado algum snobismo intelectualóide, simultaneamente parolo, de alguns que se julgam ungidos do favor, graça e pertença a uma casta de eleitos e que, com alguma frequência, citam ou referem essas "cidades literárias" ou artísticas, pour épater le bourgeois. Visconti, como realizador e com dois dos seus filmes ("Senso", de 1954, e "Morte em Veneza", de 1971), também ajudou imenso à criação desses mitos, no caso particular, sobre esta cidade italiana do Adriático.
Se Joyce está ligado a Trieste, o seu nome leva-me sempre a Dublin. A Praga, chamava Kafka a sua "Mãezinha". E até acredito que Thomas Mann e Eugénio de Andrade tivessem falado de Veneza sinceramente, com verdadeiro afecto e profunda impressão, mas duvido que esse facto actue, hoje, nos seus leitores como se de um deslumbramento maravilhoso se tratasse, desencadeando, neles, um transe de hipnótico encantamento e atracção.

sábado, 26 de março de 2016

Citações CCLXXXIII


Sem relações humanas, não haveria em mim mentiras visíveis. O círculo limitado é puro.

Franz Kafka (1883-1924), in Diário.

sábado, 27 de dezembro de 2014

O zelo : o excesso, a lei e a beatitude


Da burocracia, já quase todos nós lhe experimentámos as múltiplas metamorfoses e malefícios. Atrás de envidraçados e defensivos guichets, públicos ou privados, acobertam-se, muitas vezes, pequenos tiranetes de serviço que são, na sua maioria, serviçais e bajuladores da hierarquia imediatamente superior, mas tiram, do escrupuloso e literal cumprimento da lei, desforço da sua mediocridade rotineira, em relação àqueles que precisam do seu carimbo ou aprovação. Kafka definiu-lhes os tiques e o estilo.
O vídeo que, ora, se apresenta, será, porventura, excessivo e ligeiramente populista na forma, mas é também claramente exacto na sua denúncia e caricatura de um procedimento desumano e totalitário desses tais tiranetes de serviço que, tantas vezes, temos que suportar.



com agradecimentos cordiais e os melhores votos natalícios a AVP.

quarta-feira, 2 de outubro de 2013

Algumas pequenas curiosidades a propósito de Chagall


Dizem os estudiosos que, na obra de Marc Chagall (1887-1995), há pelo menos duas fases distintas: até à sua partida para Paris, em que predominam tons mais escuros e cores mais sombrias, e, depois, na Cidade da Luz, com o uso de cores mais vivas e claras, que ganham mais espaço nas suas telas.
Dele, dizia Picasso: "Não sei de onde ele tira aquelas imagens... Deve ter um anjo na cabeça." Descendente de uma família judaica, o lado visionário da pintura de Chagall parece originar-se numa natureza mística, explicação que, de algum modo, é corroborada pelo próprio Artista que referiu várias vezes ter visões, chegando a descrevê-las... Aliás, como Kafka, também ele judeu.
Em abono da curiosidade e da astrologia, registe-se que ambos (Kafka e Chagall) tinham outra coisa em comum: eram os dois do signo do Caranguejo (ou Cancer) e, até, do mesmo decanato. Kafka nasceu a 3 de Julho (1883) e Chagall a 7 de Julho (1887).

Nota: o primeiro quadro, em imagem, intitula-se "Anunciação" e o segundo: "Introdução ao Teatro Judaico". Foram ambos pintados, ainda, na Rússia e pertencem, assim, à dita primeira fase da obra de Marc Chagall.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Processo (2)


A frase de Rui Tavares, no jornal Público de hoje, resume, concretamente, a situação que todos conhecemos e vemos, com escândalo: "...o jogo está neste momento tão viciado que a justiça se tornou uma simples ferramenta de execução e reforço das desigualdades. ..." E, depois são citados 3 exemplos mais do que comprovativos da vergonha que é, hoje e de uma forma quase total, a Justiça, em Portugal. Seguem:
a) "O Tribunal da Relação de Lisboa condenou o advogado Ricardo Sá Fernandes por este ter gravado e denunciado uma tentativa de corrupção e de ter colaborado com as autoridades na investigação da mesma, dando assim mais protecção ao corruptor do que à descoberta da verdade."
b) "Um tribunal ordenou que o movimento Precários Inflexíveis apagasse, no seu blogue, comentários que denunciavam práticas ilegais de recrutamento e utilização de mão de obra porque a empresa em questão se sentiu «atingida na sua honra». O tribunal não quis averiguar se os factos relatados por pessoas que diziam ter sido vigarizadas por esta empresa eram reais ou não."
c) O terceiro exemplo prende-se com um ministro deste governo e as dúbias, promíscuas trocas de informação que terá havido com um ex-elemento das Secretas, que aí deteve o cargo de nº 2. Além de outras acções vergonhosas que lembram os processos pidescos de antigamente.

Obviamente, parece-me que chega.

Processo (1)


Se o infeliz utente não tiver, ou tiver perdido o seu Médico de Família, o procedimento a levar a cabo, é mais ou menos este:
a) Dirige-se ao Centro de Saúde, em que se integra, e faz uma inscrição; ser-lhe-á marcada a data de uma consulta para cerca de um mês e meio depois - dando-lhe um papelinho comprovativo. Informam-no, na altura, para que no dia aprazado chegue um pouco antes das 8h00 da manhã, para efectuar uma reinscrição.
b) No dia aprazado, o utente chega 15 minutos antes, mas já há cerca de 40 companheiros, aguardando, no vestíbulo de entrada e na rua, em fila desordenada. Metade terá mais de 60 anos, mas há apenas um banco de madeira com quatro, sentados. Dois ou três folheiam o jornal que compraram, alguns contemplam os azulejos do séc. XVIII, nas paredes, que representam movimentadas cenas de caça (veados, javalis, lobos...) da época. É preciso dizer que este Centro de Saúde está instalado num velho palácio lisboeta que já conheceu melhores dias...
c) Dois minutos antes das 8h00, um Segurança fardado desce as escadas, com um rolo numerado nas mãos. Outro Segurança acompanha-o, na rectaguarda - talvez seja guarda-costas... Os utentes aproximam-se, nervosamente, como pombas a quem vai ser dado milho ou migalhas de pão. Recebem, então, os papelinhos afortunados.
d) Na posse do precioso número, o utente sobe as escadas e dirige-se para a Secretaria a fim de efectuar a nova inscrição. Mas o computador não pega e o burocrata, atrás do balcão, começa a impacientar-se, enquanto o utente espera, calado e resignado. Finalmente, cerca de 5 minutos depois, o computador começa a trabalhar e a inscrição é feita. Mais um papelinho, pedem-lhe 5,00 euros e revelam ao paciente o misterioso nome do médico que o irá atender mas...só 5 horas, depois, ou seja, às 13h00. E dizem-lhe para chegar um bocadinho antes. Vamos a ver...como diz o cego.

domingo, 28 de março de 2010

Albert Camus a propósito de Franz Kafka





"...Chega um momento em que a criação não é tomada como tragédia: é levada, simplesmente, a sério. E, então, o homem preocupa-se com a esperança. Mas não é esta a sua vocação. O seu trabalho é desviar-se do subterfúgio. Ora, é isso que eu reencontro no final do veemente processo que Kafka lança a todo o universo. O seu incrível veredicto absolve, para terminar, este mundo feio e inquietante onde as toupeiras, as próprias toupeiras, estão na lista de espera."
Albert Camus, "L'espoir et l'absurde dans l'oeuvre de Franz Kafka"(tradução livre de APS).