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sábado, 1 de junho de 2019

Osmose 106


Dizia, em 1959, com a crueza sincera juvenil do espírito - ele que já ia em avançada maturidade corporal - dizia (repito) Vinicius de Moraes (1913-1980), assim, em início de poema:

As muito feias que me perdoem 
Mas beleza é fundamental...

Não teria, decerto de todo, o poeta brasileiro, assimilado a lição pessoana, ou talvez dela discordasse, o que veio a contribuir para que ele fosse um grande poeta menor da língua portuguesa. E do amor.
Mas bem o compreendo eu que, sendo adolescente e desprovido de sentido crítico, achava os desempenhos cinematográficos de Virginia Mayo, Doris Day, Mylene Demongeot, uma maravilha...
Em contrapartida, era Simone Signoret que eu achava uma bruxa, em "As Feiticeiras de Salém" (The Crucible, 1957), e mal dava pela grande actriz que já era Katherine Hepburn.
Só com os anos, ou com a chegada da maturidade podemos compreender, inteiramente, que o feio também pode ser belo.
Assim Soutine, assim Bacon, por exemplo, em matéria de pintura.

sábado, 20 de janeiro de 2018

Citações CCCXXXIV


Há livros que existem para serem saboreados, outros para serem absorvidos, e alguns, poucos, para serem mastigados e digeridos.

Francis Bacon (1561-1626), in Of Studies.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Deambulações simplórias sobre o Figurativo e o Abstracto


Dizem que o olhar de um observador, perante uma página ou uma tela, desliza, natural e inconscientemente, para o lado direito do objecto em questão, em detrimento do lado esquerdo da folha ou do quadro.
Um mero amador de pintura, não muito habituado a frequentar museus ou exposições, creio eu que tenderá, em grande parte dos casos, a privilegiar obras figurativas, em prejuízo de pinturas abstractas. Talvez porque aquelas lhe dizem alguma coisa...
A pintura abstracta suscitará, porventura, interrogações a nível racional; a pintura figurativa actuará mais a nivel sensorial ou da emoção, sobretudo, nas grandes massas humanas, que a possam frequentar, ainda que episodicamente. As artes ao serviço dos regimes da U. R. S. S. ou da Revolução Chinesa tinham, na sua função figurativa, um propósito político objectivo. Como a censura nazi, sobre aquilo que denominaram arte degenerada, tinha um fim estratégico. A formatação das sociedades, que hoje tanto é desejada pelo Poder, e aplicada, faz-se, sobretudo, no sentido da criação de clones abúlicos e acríticos, para que deixem de pensar, e se transformem apenas em animais emocionais. O que vai de encontro àquela velha frase das criaturas sensíveis, tantas vezes ouvida: Nem quero pensar!...
Pelo meio destas divagações maniqueístas, há que afirmar que, mesmo nos pintores actuais e/ou mais recentes, a expressão artística nem sempre é totalmente definida. Muitas vezes, há uma hesitação profunda, quando não constante, entre o figurativo e o abstracto.


sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Citações CCCIV


A discrição no discurso é ainda mais importante do que a eloquência.

Francis Bacon (1561-1626).

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Citações CCLIV


Alguns livros são para serem saboreados, outros para serem devorados, outros ainda devem ser mastigados e digeridos.

Francis Bacon (1561-1626), in Of Studies.

sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Divagações 94


Li algures, há pouco tempo, que a verdadeira, a grande literatura, ou a arte maior, não nos deixa indiferentes, faz mal, como um caminho pedregoso que percorremos, descalços. Interroga-nos, agride-nos, deixa marca. Coetzee? Céline? Rimbaud? Herberto Helder? Talvez. Que o resto, é paisagem, papinha doce, água chilra ou benta, que nos santifica. E faz seguir, descansados...

domingo, 28 de setembro de 2014

Citações CXCVII


Todas as cores concordam no escuro.

Francis Bacon (1561-1626), in Of Unity of Religion.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Um soneto para a Páscoa de 2014


É um soneto áspero, rouco de palavras tensas e duras, este, de Jorge de Lima (1893-1953), poeta brasileiro irregular e excessivo, na qualidade desigual da sua obra. O poema, na altura inédito, foi publicado na revista Árvore (vol. II - primeiro fascículo). Se tivesse que lhe juntar uma imagem, optaria decerto pelos pés, quase animalescos, de Cristo, da Crucificação de Grünewald, ou por alguma das cruéis e agressivas telas de Francis Bacon.
São versos que retratam, de forma dramática, a ansiedade tensa da criação, num quase misticismo trágico de libertação humana, mesmo que imperfeita. O poema é, para mim, um dos grandes sonetos da língua portuguesa.

Divina Voz, divino Sopro santo,
respiro-me em teu Voo, veloz Amor.
E sinto-me pequeno de poesia.
Vezes uns uivos, longe de ser canto

vestem-me os pêlos como Manto novo,
cordas revoando. Louvo-te Senhor.
Tenho em roda ao pescoço uma coleira
de cão, de pobre cão entre o meu povo.

Nem sei dizer se esse mudado Verbo,
nem sei dizer se essa gaguêz furiosa,
essa rosa de vento que é meu berro

se tornou na asfixia de Teu perro
- canto com que cantar-te, canto-chão,
nessa Tua divina ventania.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Sonhos e pesadelos


Ora imagine-se que, por obra e graça, o Cussaruim, de Manuel Bandeira, passa, aqui do Blogue, no espaço virtual, para um Tapir do Mato Grosso (será que existem lá?), num sonho meu, real, que não chega a semi-pesadelo, porque era um bicho nutrido, mas simpático.
Proponha-se, como tema de conversa sugerida, e seguindo H. N. (com toda a minha complacência) que uma boa parte da arte actual é de pesadelo. Nem é preciso convocar a Joana, nem o Palácio da Ajuda, basta lembrar Francis Bacon. E que, no metropolitano, ao princípio da tarde, eu veja um rapaz (30 anos?), de pele mui branca, com um penteado "enlacado" com cerca de 30 centímetros de altura. Que até trazia guarda-sol, para que uma eventual chuvada lhe não viesse a estragar o toucado...
E, já em casa, em imagens televisivas publicitárias me apareçam meia dúzia de crianças ululantes, mais dois ou três adolescentes frenéticos, com ares um pouco choné, propagandeando sumos e refrigerantes calóricos, cheios de "castrol"...
De que mais ingredientes precisamos nós, para o começo de um extravagante pesadelo?
Podemos dispensar de vez os gaspares e os coelhos e embarcar, nesta viagem maravilhosa, com a Alice, para sempre.

sábado, 24 de março de 2012

À margem


Ficar de lado, estar ao lado, pôr-se de lado - não sei optar, preferencialmente, por uma delas, para classificar os que se colocam à margem, por desvio da norma.
Sejam eles, os sem-abrigo ou os serial-killers, seja em Braga, em Oslo ou em Toulouse. Para nossa tranquilidade, poderemos atribuir-lhes uma graduação de loucura. Mais leve ou mais pesada, consoante o isolamento social ou o hediondo dos seus actos. Mas será, com certeza, uma forma simplista de arrumar os factos ou esquecer as origens e razões.
Seja como for, é esta sociedade que os segrega. E o "sistema" que nos rege, que os provoca.

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Pinacoteca Pessoal 22 : Botero


Menos que uma opção incondicional pela obra - que me deixa normalmente dividido - de Fernando Botero (1932), nascido em Medellín, a escolha de hoje aplica-se, sobretudo, à época natalícia que atravessamos. A marca do pintor colombiano, quer na pintura, quer na escultura, é o excesso. Não o excesso na desconstrução como se observa em Francis Bacon ou, até, em José de Guimarães, mas uma reconstrução no abuso dos corpos e na sua exuberância carnal. O feio em Bacon é o horror, o feio de Botero é, habitualmente, obesidade, como se uma raíz cristã o impedisse de ir mais longe.
A obra "Nossa Senhora de Cajica", de 1972, pertence a uma colecção particular. Nada mais contrastante que a boçalidade facial e corporal da Madona, com o tratamento miniatural, fino, da hagiografia circundante na ramagem ou nas nuvens, e as pequenas frutas delicadas. Singular é, também, a longa e sinuosa serpente, parcialmente visível, aos pés da Virgem.

domingo, 25 de setembro de 2011

Comic Relief (34) : as "search words", para variar...


Aqui vão:
1. Não sei, francamente, se o actor Andy Garcia alguma vez representou o papel do pintor Amedeo Modigliani, mas houve um visitante que indicou, curioso, ao Google o seguinte: "ping pongue com Andy Garcia amadeo modigliani"; e o Google, pressuroso, levou-o até ao poste "Comic Relief (20) : o chiclete Ping-Pong" do Arpose, colocado em 23/12/2010.
2. Outra visita, decerto amante de genealogias, lançou para o motor de busca: "ana maria morais carlota joaquina artes plásticas" (era guloso, este investigador!); pois o Google, ardente difusor de cultura, deu-lhe a dica: "Pelos 76 anos de Eduardo Gajeiro", de 16/2/2011. Bom trabalho, ó Google!
3. Um pesquisador bilingue disse para o motor de busca: "Cavaleiro no animals meat"; e foi empurrado, culturalmente para uma tela de Francis Bacon, que ilustra o poste: "O ogre de Oslo e o silêncio dos inocentes", do Arpose.
4. Outro visitante, talvez disléxico ou trapalhão, escreveu as "search words": "o vinho de hebe poesia ilustrado" (admitamos, também, que este investigador gostasse de se meter nos copos...); contagiado, o Google deu-lhe a pista do poste "Poema longo, poema breve". Desta vez o Google, pelo menos, tresleu...


segunda-feira, 19 de setembro de 2011

O bonito, o belo e o feio


O bonito gera mais amplos consensos de agrado, em Arte, do que o feio, quando representado. Para, esteticamente, apreciarmos o "feio" é sempre necessário ultrapassarmos alguns obstáculos pessoais, sociais e até, por vezes, de cânone consagrado no Tempo. É muito mais fácil gostar ou aceitar a pintura dos pré-rafaelitas, do que admirar a obra de um Chaim Soutine ou de Francis Bacon. Pelo meio ficarão decerto Munch, Lucian Freud ou Paula Rego, e tantos outros pintores. Comecei pela Pintura, para chegar a outra arte. O poema (traduzido por João Barrento, para a Relógio d'Água) que vou transcrever, foi escrito por Gottfried Benn (1886-1956), escritor alemão que exerceu medicina, civilmente e no exército alemão. É, na minha opinião, um bom poema, embora possa não ser considerado "bonito". Intitula-se "Kleine Aster" (Pequena Sécia). Aqui fica:

Um carroceiro afogado foi içado para cima da mesa.
Alguém lhe tinha enfiado entre os dentes
Uma sécia, de um lilás claro-escuro.
Quando, a partir do peito,
por debaixo da pele,
lhe arranquei a língua e o palato
com uma grande faca,
devo ter-lhe tocado, porque ela escorregou
para o cérebro que estava ao lado.
Meti-lha na caixa torácica,
no meio das aparas de madeira,
quando o cosiam.
Bebe no teu vaso até à saciedade!
Descansa em paz
Pequena sécia!

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O ogre de Oslo e o silêncio dos inocentes


O comportamento humano, na sua expressão e manifestações, é infinito. E mesmo em seres humanos, aparentemente normais, equilibrados e previsíveis há, muitas vezes, desvios da norma, reacções e respostas de atitude que nos desarmam e nos deixam perplexos. Na memória de cada um haverá, também porventura, exemplos de comportamento desadequado, e inexplicáveis, pelo nosso critério e ética de estar no Mundo. Embora não nesta forma desmesurada de horror e apocalipse. Por outro lado não gosto, e evito pronunciar-me, aqui no Arpose sobretudo, a quente e de imediato, sobre casos complexos e que não se podem explicar pela Razão. Demorei a pronunciar-me sobre o caso DSK. Mas penso que devo dizer alguma coisa sobre o ogre de Oslo e o repúdio que sinto pelos seus actos assassinos.
Mitómano, exibicionista (basta ver os "uniformes" com que se autofotografou) dissimulado sob a capa de uma aparente discrição, frio até ao detalhe na execução do seu plano homicida, ideologicamente incoerente, carente de atenção e sedento de publicidade na forma como, por palavras, quase se auto-diviniza... Não creio, por isso, que falar muito do ogre seja a melhor forma de o esconjurar. E, não obstante, é o que os media estão a fazer, copiosamente, aliás. Há sempre espíritos débeis em que estes casos exercem algum fascínio e desejo de imitação.
Finalmente, gostaria de reter, transcrevendo, algumas declarações que me parecem ajustadas ao assunto. Do professor Marius Wülfsberg: "...um homem muito inteligente que enlouqueceu. (...) Não devemos permitir que uma pessoa tão bem informada esteja à nossa frente e faça propaganda..." E uma frase do Pai do ogre de Oslo, embaixador norueguês reformado, a viver no Sul de França: "...era melhor que ele se tivesse suicidado, antes de matar tantas pessoas...". Que o ogre não descanse em paz!

sábado, 2 de julho de 2011

Cabrita Reis, em entrevista


A meio caminho entre Orson Welles e Francis Bacon, e embora não sendo um artista muito lá de casa, Pedro Cabrita Reis (1956), em entrevista ao "Ípsilon/Público" de ontem, disse uma coisa curiosa:
"...Fiz muitas obras para as quais olhei e percebi que não acrescentavam nada de especial ao que tinha feito antes. Qualquer artista te dirá isto, se tiver coragem: no fundo, escapam ou aproveitam-se meia dúzia de coisas das centenas que foste fazendo. Isso assumo. ..."

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Estilo e Tempo em Arte, segundo Mário Dionísio



Pergunto-me, às vezes, porque é que uma obra de arte mantém a sua perenidade estética e fascínio, apesar da evolução dos estilos no Tempo, e de novas escolas que muitas vezes se vão contrariando, e até opondo, na forma e processos. É obvio que não tenho, para mim, uma resposta completamente satisfatória, apenas ensaio pequenas explicações parcelares para o facto. Por outras palavras, Mário Dionísio, em "Introdução à Pintura" (1963), põe a mesma questão em evidência. Passo a citá-lo: "...Cada estilo não é um progresso em relação ao estilo precedente. E, ainda dentro de cada estilo - eis o ponto importante -, uma obra mantém o seu valor estético total depois de aparecerem novas obras onde se foi mais longe na consecução de certos objectivos já presentes naquela. A beleza e o valor expressivo da Aparição de S. Francisco de Giotto mantêm-se inalteráveis depois de O Tributo de Masaccio, como a beleza e o valor expressivo de O Tributo depois da Ceia de Leonardo. Ninguém poderia provar que Rembrandt inutilizou Rafael ou que Delacroix tornou Watteau obsoleto. Que depois de Renoir, Courbet não conta. Nem sequer que uma cabeça grega ou um mosaico de Ravena são arcaísmos."

para H.N..

Nota: os quadros em presença, lado a lado, em imagem, são de Velásquez (Retrato do Papa Inocêncio X) e Francis Bacon, respectivamente, e distam entre si, cerca de 300 anos.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Divagações 3


Seja embora um pouco desconexo o fio da conversa, feito de nuvens, nomes e números, onde as memórias se atropelam, a caligrafia e a mão que a traça são firmes, e correm em simultâneo. Coisas ditas ou escritas que já não se usam, hoje em dia, mesmo que formalmente.
Na manhã rósea e luminosa os ruídos amortecidos confundem-se num caos harmonioso. O cantar do galo, os pavões das dinastias perdidas, os garnisés de crista meio-cegos e os patos deambulantes. Em fundo, o surdo trânsito omnipresente, logo após os buxos e muros que cercam a casa. Um melro, harmonioso no seu canto, sublinha tudo isto. Coroa de negro e laranja a luz da manhã de Março, onde as folhas tenras e verdes da Primavera vão rompendo.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Economia, política e hipocrisia


Por razões objectivas, os postes de ontem, no Arpose, tiveram um cariz político. Falei de intelectuais, interventivos ou não, dos parasitas sugadores das agências de rating, e de orgulho nacional. Mas se não falei de hipocrisia, pensei nela a propósito das tomadas de posição, agora, em relação ao Norte de África, por parte de alguns governos ocidentais. E, em relação à hipocrisia, há um poema de Sophia Andresen que talvez valha a pena lembrar. O seu título é:

As pessoas sensíveis

As pessoas sensíveis não são capazes
De matar galinhas
Porém são capazes
De comer galinhas.

O dinheiro cheira a pobre e cheira
À roupa do seu corpo
Àquela roupa
Que depois da chuva secou sobre o seu corpo
Porque não tinham outra.

"Ganharás o pão com o suor do teu rosto"
Assim nos foi imposto
E não:
"Com o suor dos outros ganharás o pão".

Ó vendilhões do templo
Ó construtores
Das grandes estátuas balofas e pesadas
Ó cheios de devoção e de proveito.
Perdoai-lhes, Senhor,
Porque eles sabem o que fazem.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Citações XXIX : Francis Bacon


Quando os anos se me fizeram sentir, procurei preparar-me. Sentia-me um sobrevivente: já tantos tinham desaparecido... e eu ainda por cá andava. Sabia, porque tinha lido e havia exemplos ao longo da minha vida, que a velhice pode tomar dois aspectos - a arrogância e a humildade. Tinha conhecido uma bonita velhice de alguém que, com humildade a vivera e chegara aos 81 anos. Mas também tinha constatado que velhice é, normalmente, arrogância.
Ao procurar preparar-me, fiz uma pequena lista de várias obras. H. N., amigavelmente, emprestou-me "De Senectute" ( em tradução francesa) de Marco Túlio Cícero que chegou aos 63 anos e que escreveu a obra dois anos antes de morrer. Comprei "La Veillesse" de Simone Beauvoir que começou a escrever o livro quando tinha cerca de 60 anos. E li outras obras, ainda. Foram uma total decepção. Nenhuma da obras ajudou ou esclareceu e, a maior parte dos textos, era mais um balanço de peripécias, ou uma estatística de casos.
Mas, hoje, ao folhear um livro de Francis Bacon (1561-1626) dei de caras com algumas palavras que, na sua simplicidade, me parecem muito realistas. Aqui vão traduzidas e transcritas:
"...Os homens de idade contrapõem demasiado, documentam-se demais, ousam pouco, arrependem-se muito depressa, muitas vezes levam para casa os seus negócios e preocupações, mas contentam-se, a eles próprios, com a mediocridade de um pequeno sucesso. ..."

sábado, 3 de abril de 2010

Contra a corrente : Papas e Papados



Sendo agnóstico, mas tendo sido católico praticante quase até ao fim da minha adolescência, o "meu" Papa de referência é João XXIII. E nasci ainda e durante o Papado de Pio XII. Sempre achei Paulo VI excessivamente "florentino" e diplomata, para o meu gosto. João Paulo I foi apenas a promessa de um sorriso, de tão breve. João Paulo II incomodou-me, sobretudo, pela exposição da sua agonia, em público, e o seu "ronco", quase final, pela Praça de S. Pedro, quando já não conseguia falar - e o quis fazer. Era preferível, sem dúvida e no meu entender, um apagamento discreto e gradual, humildemente cristão. Evitando aquela exposição que sempre me fez lembrar os pedintes, na rua, a mostrar as suas chagas. Havia algo de exibicionista, em tudo aquilo. E o "voyeurismo" da nossa sociedade do espectáculo é o que se sabe.

Ontem li, no "Público", um artigo de opinião do ex-director do jornal, José Manuel Fernandes, intitulado "É arriscado escrever sobre estas coisas. Não estão na moda", sobre o actual Papa. Tirando um ou outro pormenor, estou de acordo no essencial. Daí, sendo eu agnóstico, avaliar o ainda curto Papado de Bento XVI, de forma positiva. É um Papa do espírito, ao contrário de João Paulo II que foi um papa do corpo e da carne. E este período pascal é uma boa altura para que um Papa que pensa e pensa, muitas vezes, connosco, seja bem acolhido ou, pelo menos, escutado. Quanto ao resto já sabemos, a Igreja é sempre lenta e morosa quanto a mudanças. Há que ter paciência e caridade...