Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Viegas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Francisco Viegas. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 2 de outubro de 2012

À guisa de explicação ( e justificação )

Correm, nos mentideros portugueses, histórias piedosas sobre o ex-homemdourado Sachs e sobre o agente Viegas da cultura. A primeira, de foro oncológico, o que justificaria o súbito emagrecimento da criatura; a segunda história, de foro fiscal, que explicaria a aceitação (pressionada de cima), para o cargo, do conhecido entertainer luso. No cepticismo temperado que me caracteriza, não acredito nos enredos. Penso que são meras manobras de contra-informação difundidas, expressamente, para que olhemos as duas criaturas com caridade, benevolência cristã, e atenuantes, em relação ao exercício político destas arrogantes e detestáveis criaturas. Ou seja, uma espécie de telenovela da coxinha infeliz ou folhetim do pobre ceguinho, postos a circular para que nos amerciemos deles e desculpemos as suas malfeitorias e oportunismos. Volto a dizer: não acredito.
E, mesmo que fosse verdade, não atenuariam, um milímetro que fosse, a sua responsabilidade cívica, ética e política, nem do ex-homemdourado Sachs, nem do agente Viegas.
Não é por ter sido corcunda e ter um braço inerte (segundo Shakespeare), que Ricardo III, com as suas atrocidades, teve absolvição. Nem Franco, já em agonia, terá merecido o reino dos céus, ao abandonar à morte, 2 etarras, sem lhes comutar a pena para prisão perpétua. O caudilho moribundo quis companhia, na morte...
Uma figura sinistra é, sempre, uma figura sinistra. Portadora, até ao fim, de uma responsabilidade moral, mesmo que tenha um cancro, em situação terminal. Ou que não tenha dinheiro para pagar ao Estado, o que deve, e seja encostado à parede. Há os ratos e há os homens. Lá por estar aleijadinho, o sr Schäuble, não tem direito a atenuantes humanas ou políticas, nem à nossa caridade cristã, pela sua intransigência anti-europeia.

domingo, 8 de janeiro de 2012

Ruth Rendell



Nunca gostei dos policiais escritos pelo agora agente da cultura F. J. Viegas. Dou de barato que sou um ortodoxo em relação a romances policiais, mas ninguém poderá dizer que sou insensível a uma prosa enxuta e objectiva, seja ela da melhor tradição inglesa, ou numa tradução, limpa, portuguesa que, afora as gralhas ( as editoras, agora, poupam sempre na revisão), faça sentido e onde se note a qualidade original e a marca de um bom escritor.
Neste início de ano, ando ainda às voltas com a literatura dita policial: na berlinda, o nº 483 ("A sleeping life") da Colecção Vampiro, Enigma na Escuridão, de Ruth Rendell (1930), considerada uma das melhores escritoras de policiais, da sua geração. Até estou de acordo quanto à qualidade da sua escrita. Ora atente-se neste bem interessante bom naco de prosa (em tradução de Raul Sousa Machado):
"...A idosa senhora estava rodeada de preparativos para o almoço da família. No chão, a um lado da poltrona, estava uma panela cheia de batatas mergulhadas em água, e as cascas, também imersas, jaziam noutra panela próxima. Quatro maçãs próprias para assar esperavam os seus cuidados. Numa travessa estava uma boa dose de massa para bolos, já misturada e batida. Aparentemente, era deste modo que a mulher, apesar da sua idade vetusta, contribuía para as lides caseiras. Wexford lembrou-se de Parker ter dito que a avó era um espanto, e agora começava a compreender porquê.
Durante uns momentos ela não lhe deu atenção, servindo-se porventura dos privilégios do seu estatuto matriarcal. Stella Parker deixou-os a sós e fechou a porta. A velha senhora abriu ao meio a última das vagens, um exemplar enorme, e disse-lhe, como se fossem velhos conhecidos:
- Quando eu era rapariga, costumava dizer-se que se se encontrarem nove ervilhas numa vagem e as pusermos sobre a porta de entrada, o primeiro homem a passar será o nosso único e verdadeiro amor.
Dito isto, atirou com as nove ervilhas para dentro da malga e limpou os dedos esverdeados ao avental. ..."