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sábado, 15 de julho de 2023

Fernando Guimarães (Porto, 1928)



Tenho para mim - teoria subjectiva, claro - que a produção de qualidade dos poetas raramente atinge a sua velhice, ao contrário dos pintores e dos romancistas. Há excepções, porém, e Sá de Miranda é um bom exemplo.
Sobrevivente dos grandes poetas nascidos no século XX, portuense, Fernando Guimarães (1928), acaba (Fevereiro) de publicar mais um livro, aos 95 anos. De boa e inovadora qualidade, pelo que já li (pg. 26).

segunda-feira, 15 de junho de 2020

Osmose 115


São incertas, muitas vezes, as razões. Mesmo algumas daquelas que nos levam à acção ou tomadas de atitude, conscientemente. Fazendo-nos crer que há um super-dono invisível das nossas decisões.
Calhou a noite passada que eu tivesse sonhado com uns versos escritos de Sá de Miranda e, simultaneamente (?), com um dos Fernandos, meu amigo (que tive vários, com o nome, nesta vida).
Os sonhos, ainda.
E fico-me a pensar se foi Bergman, há dias, que me fez ir buscar Les Rêves, de Ernest Aeppli, à estante, para o reler, ou se foi a releitura do livro que me levou a bisar Os Morangos Silvestres, do realizador sueco, no Youtube.
As associações são terríveis e, ao mesmo tempo, discretas.
Até porque não consigo situar, em sequência, os meus actos com absoluto rigor temporal.
Que o inconsciente se rearrume, de novo e por si, à sua vontade! Na sua auto-gestão libérrima (?).


sábado, 31 de agosto de 2019

Divagações 152


O tema do renovo é recorrente, em poesia, desde a Antiguidade clássica, mas teve uma particular importância sobretudo no Renascimento (... e tudo o mais renova, isto é sem cura. Sá de Miranda). Hoje, o nosso tempo-consciência mantém algumas referências de luz e sombra, juventude e velhice que se pautam pelas estações, mas também por várias dicotomias, como por exemplo: férias e trabalho, prazer e obrigações.
Setembro marca, para muitos, o final do lazer (férias) e o recomeço da rotina laboral. E, se para mim,  em tempos de extrema juventude, era o mês do campo (Briteiros) que se seguia ao Agosto da praia ( Póvoa), a diminuição da luz, no dia, a transformação do verde no castanho ou dourado da natureza, anunciavam-me também o fim da aventura ou, pelo menos, a proximidade (Outubro = Outono) de um tempo de responsabilidade (Escola) inexorável.
Com os anos, porém, essas diocotomias simples foram adquirindo novos contornos e significado, talvez mais amplo:

Vai sendo tempo de largares o verão
soltá-lo no caminho mais estreito
à boca do outono ou numa praia
onde já não passe mais ninguém.

O real dos factos encarrega-se de fazer implodir a fantasia. A esperança tem de ir para outras coisas, como disse um poeta inglês, avisadamente. Mas é bom que vamos em boa companhia. Ao menos.



Para A. de A. M., amigo de muitos anos, e por variadíssimas razões, afectuosamente. 

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Bibliofilia 177


Nascido no Porto, a 4 de Agosto de 1872, Delfim Guimarães centrou a sua actividade multifacetada em Lisboa, vindo a falecer, a 6 de Julho de 1933, na Amadora. Em 1899, fundou a Guimarães Editores. Bibliófilo conceituado, estudioso e ensaísta, foi também poeta, mas está hoje esquecido.


Na sua editora publicou, de 1923 a 1928, 15 volumes do seu Arquivo Literário, repositório ainda hoje muito interessante, em que aborda vários temas de literatura portuguesa, com particular incidência nos nossos escritores quinhentistas, sobretudo Bernardim Ribeiro e Sá de Miranda. A propósito deste último, trava até uma educada polémica com Carolina Michaelis.
Comprei, em meados dos anos 80, 14 dos tomos por Esc. 3.200$00, que terão pertencido a Manuel Giraldes da Silva, anteriormente, conforme ex libris, em imagem abaixo.


Mais tarde, viria a adquirir o tomo XV, por Esc. 250$00, completando assim o conjunto.
Hoje, no seu leilão online, a Livraria Ecléctica tinha à venda o Arquivo Literário completo e encadernado. As licitações, na altura, tinham atingido os 65 euros, mas o leilão ainda não terminara.

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Recuperado de um moleskine (31)


Por aqui se começam a convocar D. João II e, sobretudo, D. Manuel I, se não quisermos ir mais longe. E para não falar do campo de teixos (o céltico ibhar ou o eburos, gaulês) que também lhe veio ao nome. Mas nós vamos em busca das sombras de Galharde, de Xavier de Matos, que se acolheu ao mecenato generoso de Cenáculo e lhe dedicou várias poesias laudatórias. E espero ter à mão, autógrafos ou não, versos manuscritos de Sá de Miranda. Que decerto lá chegaram a partir de algum dos filhos de D. João III, originalmente, e que foram passando, através dos séculos, de mão em mão, com veneração e respeito.
Como é que pelo Verão, os nossos reis a escolhiam como cidade da sua vilegiatura?, eis o que me pergunto. Sem resposta lógica e suficiente para a minha curiosidade. Mas a cidade acolhe bem, quem venha, e é sempre muito bonita...



Nota: em imagem, apontamentos parciais e pessoais que levei, numa das primeiras visitas que lá fiz.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Sobre o Livro e a Língua portuguesa


Data consagrada, por altas instâncias misteriosas, hoje, como Dia Mundial do Livro, aceito de bom grado a efeméride, com naturalidade e simpatia.
Se me fosse perguntado qual o livro que mais frequentei, ao longo da minha vida, não teria dificuldade em afirmar que terá sido o Dicionário português, de Francisco Torrinha, na sua edição de 1945, e que, por esse motivo de tanto manuseamento, se encontra em paupérrimas condições, como se poderá ver pela imagem acima. Se, de há uns tempos a esta parte, o considero bastante desactualizado, preferindo-lhe o Houaiss, ainda o consulto muitas vezes. Até por que evito, sempre que posso, utilizar estrangeirismos que são, para mim, a abominação do economês e de muita gente beata do léxico informático. E não só, que os diplomatas também fazem gala em entremear de expressões alheias as suas discursatas, para mostrar que têm mundo. Bem como os novos cozinheiros e uma pretensa elite cultural, para alardear o seu cosmopolitismo - o que não deixa de ser saloio e paroquial...
Sempre achei que não é necessário usar estrangeirismos para dar mais força às nossas convicções e pensamento. É preciso é saber usar bem, e com legitimidade, a nossa muito rica língua portuguesa.



Voltando aos livros. Se o dicionário foi o livro mais consultado por mim, há também livros que frequento com persistente  assiduidade, de que elejo, em poesia, As Obras de Sá de Miranda  e os Poemas, de Eugénio de Andrade. Por vozes originais ou porque escreveram, em português de lei, magnífica poesia. A que poderia acrescentar, por admiração e gosto, Camões, Nobre, Cesário, Pessoa e Pessanha. A pequena distância, poderia incluir também Sophia e Sena, sem dificuldade.



Quanto a prosa, seria mais restritivo, mas escolheria, como preferidos, um livro de contos de Jorge de Sena e Directa, de Nuno Bragança. Mas também volto, periodicamente, a A Casa Grande de Romarigães, de Aquilino, e a Os Maias, de Eça de Queiroz. Para falar apenas de autores nacionais.
E é tudo o que me apraz dizer, neste Dia Mundial do Livro.

domingo, 26 de novembro de 2017

Memórias da velha e pérfida Álbion


Em 1985, era Setembro, na modulação final da minha cristalização de gosto musical - reduto que, escassamente, foi perturbado depois -, em Queensway (Londres), havia ainda uma loja de discos, fulgurante. E eu já tinha ido para além de The Beatles, e procurava as últimas gravações de Tina Turner. O meu filho mais velho andava, então pelos Kraftwerk, muito naturalmente nessa décalage salutar de gerações. Quando lá entrámos, cada um se ocupou, na altura, das "bem querias" de que falava o bom velho Sá...
Acontece que, caída ou roubada, uma nota de 20 libras saíu, sem querer, de uma das nossas algibeiras diminuindo-nos o património familiar. Foi aí que, para restabelecer o equilíbrio das finanças, mais tarde em Greenwich, eu entrei numa agência bancária para trocar escudos portugueses por libras inglesas. Em abono da verdade, essa dependência bancária tinha ainda todo o ar pomposo e respeitável da época victoriana. Mas para ser justo, foram muito mais rápidos na operação de câmbios do que, em Portugal, para trocar as divisas, antes de eu iniciar a viagem para a Inglaterra.
Imagine-se o inimaginável:  uma atmosfera, qualquer coisa comparável por entre Charles Dickens e o Speedy Gonzalez...

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Os capatazes dos jornalecos


Um director barbado de gauche, dissimulador, dum dos jornais portugueses de referência, que já atribuiu a Lobo Antunes um verso que era de Sá de Miranda, tem, como se poderá imaginar, uma memória muito curta. E não guarda, ao que parece, muito respeito ao PR piador e penúltimo. Há dias, até lhe desfechou uma frechada, para disfarçar. Mas tenta fazer-se esquecer de assessor, que foi, venerador e obrigado de tal criatura - deus lhe pague!
Hoje, afirma no seu couto privado: O futebol entra a pés juntos sobre a democracia - em palavras atiladas de virgem ofendida. Como se fosse a primeira vez que isto acontece... Será que, com aquele sorriso de yuppy serôdio, ele não se atirou, também, de mergulho, da prancha carunchosa do cavaquismo, para a piscina voluptuosa e mirífica das grandes superfícies tablóides? Porque, valha a verdade, o Público já foi outra coisa, em tempos mais limpos e remotos...

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Sem título

Há dias que não têm remate nem ponto.
Irresolutos, ficam a pairar. Talvez venham, quando muito, a solucionar-se de forma aberrante nos sonhos, ou numa nova ruga que nasce inesperada, no rosto castigado dos anos.
De forma inteira, nem sempre conseguimos explicar-nos aos outros. Nem obter um consenso amigo.
É da natureza humana a diferença. Esse estrebuchar que pode ser amor à vida. Ou para lembrar Sá de Miranda, na sua infinita sageza, entoar, humildemente:

Comigo me desavim,
sou posto em todo o perigo;
não posso viver comigo
nem posso fugir de mim.
...

sábado, 8 de julho de 2017

O seu a seu dono


Eu bem sei que os actuais directores de jornais são muito diferentes dos antigos. Que tinham, normalmente, uma cultura sólida, escreviam bem e eram competentes. Hoje, estes sujeitos são muito mais ligeiros, muito voluntaristas e simpáticos, pouco lidos e, decerto, confiantes na estupidez e ignorância dos leitores. No Público, e depois de Vicente Jorge Silva, digno representante da classe de jornalistas, tem sido sempre a descer, impiedosamente...
Atribuir a Lobo Antunes, por título de crónica ou editorial (viva o luxo!), um verso de Sá de Miranda, é um dislate. Literário, mas dislate. Mesmo que seja para alardear cultura, alarvemente, e a propósito de incêndios. Até já Gastão Cruz  tinha epigrafado o verso, em itálico, num soneto, em livro de 1969 (As Aves), referindo o Autor. Porque o romance de A. Lobo Antunes, com esse título, plagiado, saíu apenas em 2001. Mas estes directores de jornais são uns neófitos ainda imberbes, quanto a literatura pátria. Lembram-se de ontem, mal e de outiva, unicamente. Resultado dos programas escolares dos últimos anos? Não sei.
Porque ainda há poucos dias, também, um provecto e reformado amador de letras pátrias proclamava, pomposamente, Adolescente (1942) como sendo o primeiro livro de Eugénio de Andrade. Não é, é Narciso (1940) que, tal como a sua terceira obra (Pureza, 1945), o Poeta viria a renegar, anos mais tarde. Por isso, quanto a jornalistas, sejam eles directores ou aposentados críticos literários, hoje, estamos conversados. E o problema é que estas asneiras deixam rasto e fazem carreira. E vão sendo repetidas pelos ignorantes e distraidos, numa ladainha servil e acarneirada. Deus nos valha!...

quarta-feira, 5 de abril de 2017

Da explicação em poesia


Não sei já quem disse que analisar e explicar um poema é a melhor maneira de o destruir. De alguma forma, o estudo escolar de "Os Lusíadas" fez abortar, pelo menos parcialmente, a possibilidade de fruição inteira do nosso poema maior. Por outro lado, neste nosso tempo, raríssimos serão aqueles que terão oportunidade, paciência e o prazer de virem a ler, com proveito e gosto, as estâncias camoneanas descrevendo, genialmente e por exemplo, o fogo de Santelmo, ou, com imenso humor, o episódio  (pícaro) de Veloso. Alguma coisa se vai perdendo para sempre, dos antigos cânones...
Quando releio As Aves (1969), de Gastão Cruz (1941), lembro-me sempre de Sá de Miranda e de Mafra. E dos 6 meses, que por lá passámos, com diferença de 3 meses, na recruta e especialidade. É uma realidade prosaica mas, na altura, com a guerra colonial, essa realidade era também dramática. Tudo isto pode ajudar na leitura deste pequeno (grande) livro de poemas. Sobretudo para quem viveu esses outros tempos e os sentiu na pele.


segunda-feira, 6 de março de 2017

Sinais aéreos


... As pombas andam em bandas,
voam grous postos em az;...

                                                                                            F. Sá de Miranda, in Écloga Basto 


Diz-nos a nossa amiga Ruth, ao enviar-nos a surpreendente fotografia, que a passagem dos grous nos altos, mas ainda frios, céus de Merkenich, anuncia garantidamente a próxima chegada da Primavera.
Eu contei 139 das aves pernilongas migradoras, mas posso ter-me enganado em 1 ou 2, a menos...

domingo, 29 de maio de 2016

As escolhas pessoais


Dizia Sá de Miranda, na sua écloga Basto: "...bebemos das bem-querias/ que cada um consigo tem..."
E daí, normalmente, não abdicámos. Frequentes são as escolhas de cada um, a nível literário, as tais 10 obras que se levariam para uma ilha deserta. No que à Música diz respeito, não é habitual perguntarem-se, no entanto, as escolhas pessoais. Eu não hesitaria, porém, em seleccionar 3 das obras que mais gosto de ouvir, e que são, por ordem cronológica:
- A Sarabanda, de Händel, que Kubrick usou na banda sonora de "Barry Lindon".
- O allegretto, da 7ª Sinfonia de Beethoven, interpretado por Alfred Brendel, e/ou dirigido por Karajan.
- De Schubert, a maravilhosa Lied "Auf dem Wasser zu singen", interpretada ao piano por Jorge Bolet.
Este último, grande pianista cubano, já falecido, elegia como sua escolha pessoal, um dos Scherzo de Chopin, tocado pelo seu antigo professor, Josef Hofmann (1876-1957). É o vídeo dessa interpretação que deixo a encimar o poste, neste Domingo que amanheceu soalheiro. Pelo menos, por enquanto...

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ritmos


Julgo que qualquer pessoa é capaz, ao vê-los evoluir, de distinguir a diferença entre um mau dançador e um bom bailarino. Leveza, elegância, entre outros aspectos, os separam. Mas também o ritmo.
Muitos de nós terão assistido a desgarradas. E admirado a capacidade e rapidez de resposta apropriada que os cantadores evidenciam, com maior ou menor imaginação. São os repentistas.
Na arte da poesia, também os há. O encadeamento dos versos e a justa medida saem-lhes naturalmente e com enorme facilidade. Estou-me a lembrar de António Botto ou de Pedro Homem de Melo. Os seus versos abrem-se escandidos e certos, na perfeição. Outro tanto não acontece, quase nunca, com os poemas de Jorge de Sena. Ou, se quisermos ir mais atrás, com a "frauta ruda" de Sá de Miranda. De forma não aprofundada, eu diria que há um ritmo natural e um ritmo trabalhado.
Como se, num caso, o bater do coração conduzisse à medida certa, e, na outra circunstância, houvesse uma original arritmia que só pela razão pudesse vir a ser corrigida, depois, nos versos.

segunda-feira, 21 de março de 2016

No Dia da Poesia, do bom e velho Sá


Ao Príncipe D. João, mandando-lhe mais obras


Tardei, e cuido que me julgam mal,
qu'emendo muito e, qu'emendando, dano.
Senhor, porqu'hei gram medo ao mau engano
deste amor que nos temos desigual;

Todos a tudo o seu logo acham sal;
eu risco e risco, vou-me d'ano em ano:
com um dos seus olhos só vai mais ufano
Filipo, assi Sertório, assi Aníbal.

Ando cos meus papéis em diferenças.
São preceitos de Horácio - me dirão;
em al não posso, sigo-o em aparenças.

Quem muito pelejou como irá são?
Quantos ledores, tantas as sentenças,
c'um vento velas vêm e velas vão.


Nota: em geminação com MR, no seu Prosimetron.

sábado, 30 de maio de 2015

Divagações 89


Um livro é, à partida, um objecto sério. O que lá está, por princípio, conta com a nossa credibilidade e confiança. A menos que contenha uma teoria filosófica ou literária, de que discordemos, a adesão é quase sempre perfeita e leal. Mesmo assim, atribuímos a essa exposição do autor uma sinceridade própria, um valor em si. Para um leitor, há nessa demonstração argumentativa uma solidez e uma verdade, mesmo que possa ser alheia à dele.
Porque o que não se escreve corre o risco de perder-se para sempre. O que Pina Martins não disse de Sá de Miranda, mas provavelmente sabia, talvez não seja nunca mais descoberto ou encontrado. As partituras, a escrever, de Schubert, interromperam-se para sempre, pela sua morte prematura. Os poemas maduros e livres que Herberto Helder poderia ter escrito, se tivesse tido mais dois ou três  anos de vida, deixaram de ser uma probabilidade humana.
Mesmo numa comunidade de tradição oral, há sempre muita da sabedoria conquistada que desaparece com o fim do sábio transmissor. Por isso me parece justa e sugestiva a referência que Erik Orsenna (1947) faz sobre um preceito africano que diz, mais ou menos, isto: Quando um velho morre, é uma biblioteca que arde.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014

Leilão de Outono


Sob a direcção de Pedro de Azevedo, inicia-se a nova temporada de leilões de livros. Como habitualmente, esta almoeda terá lugar no Amazónia Lisboa Hotel, no próximo dia 6 de Outubro de 2014, pelas 19h30.
A sua importância decorre de virem a ser leiloadas obras que pertenceram à biblioteca de Carolina Michaelis e seu marido, Joaquim de Vasconcelos. Do acervo, e pessoalmente, eu destacaria os seguintes lotes:
146 - Frei Luiz de Sousa, de Almeida Garrett, na sua edição primeira de 1844, com uma estimativa de venda de 200/ 300 euros.
217 - Poesias, de Sá de Miranda, edição de Halle, 1885. Exemplar de trabalho, com anotações manuscritas de Carolina Michaelis. Com preço previsto de venda entre 800,00 e 1.200,00 euros.
230 - Só, de António Nobre, na sua edição original de 1892, impressa em Paris. O livro tem dedicatória manuscrita do Poeta, para António Cândido. Tendo uma estimativa de venda de 1.200/ 1.800 euros.

quinta-feira, 22 de maio de 2014

De uma fala de Bieito da écloga Basto, de Sá de Miranda


Come de toda a vianda,
não andes nestes entejos;
não sejas tam vindo à banda,
tem-te às voltas co's desejos:
anda por onde o carro anda.
Vês como os mundos são feitos:
somos muitos, tu só és;
por isso, em todos seus geitos,
um esquerdo antre direitos
parece que anda ao revés.

Dia de maio choveu:
a quantos a água alcançou
o miolo revolveu;
houve um só que se salvou,
que ao coberto se acolheu.
Dera vista às semeadas,
as que tinha mais vezinhas;
viu armar as trovoadas,
acolhe-se às bem vedadas
das suas baixas casinhas.

Ao outro dia um lhe dava
paparotes no nariz,
vinha outro que o escornava;
aí também era o juiz,
que se de riso finava.
Bradava ele: - Homens, estai!
iam-lhe co dedo ao olho.
Disse então: - E assi che vai?
Não creo logo em meu pai,
se me desta água não molho.

Apaixonado qual vinha,
achou num charco que farte;
o conselho havido o tinha:
molhou-se de toda a parte,
tomou-a como mèzinha.
Quantos viram lá correram:
um que salta, outro que trota,
quantas graças i fizeram!
Logo todos se entenderam:
ei-los vão numa chacota.


Nota: o excerto segue a versão de Rodrigues Lapa (Sá da Costa, 1942).

segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Produtos nacionais 14


Mimem-se os produtos nacionais, quando são bons, em tempo de vendilhões do templo e de apátridas medíocres e mesquinhos ao leme da nação. (Cabia aqui citar o bom velho Sá, versejando sobre Roma e os saqueadores franceses e espanhóis. Hoje, só as nacionalidades mudaram, que os abutres, infelizmente, não estão em vias de extinção...)
Este queijo maneirinho em tamanho (cerca de 300 gramas), de que se mostra o rótulo, descobri-o por mero acaso, num mercado outrabandista, mas quase vale o seu peso em prata de lei. É queijo de ovelha, curado, de natural sabor e guloso. Onde o cardo se insinua, com o tempo, mais ou menos, mas de forma equilibrada.
Tem um rótulo, em imagem, povoado por alguma ingenuidade patriótica ("Portugal sou eu"), que se desculpa, porque é de grande qualidade na manufactura. Entre os 17 euros o quilo, ou os 6,50 ou 7,50 por unidade, é quanto se tem a pagar. Muito merecidamente.
Foi acompanhado por um Dão Terras Altas, tinto, de 2011, mas merece mais...
Tem origem, orgulhosamente portuguesa, em Vila Velha de Ródão.

terça-feira, 28 de maio de 2013

Leilões antigos / Velhos catálogos


Não é com absoluta indiferença que folheio velhos catálogos de leilões de livros, onde alguém, com mão emotiva e talvez nervosa, anotou a lápis, os preços finais de cada lote. Já me aconteceu, também, a mim...
Nos últimos dias, o meu Alfarrabista de referência, colocou à venda, sobre uma mesa comprida, largas dezenas (talvez uma centena) de catálogos de leilões de livros, com as capas amarelecidas ou acastanhadas pelo tempo. Uma boa parte tem os preços finais de cada lote. Os leilões das bibliotecas de Delfim Guimarães ou de Virgínia Rau, constam. Feitos por Arnaldo Henriques de Oliveira, que eu ainda conheci a leiloar, numa sala esconsa e inóspita da sede dos Amigos dos Hospitais, ao Principe Real.
Procurei, como é meu hábito, alguns autores do meu afecto. Consegui encontrar, num leilão dos anos finais da monarquia ( 1907 ou 1908), a venda da segunda edição (1614) das Obras de Sá de Miranda. O lote foi arrematado por 2.700 réis. Nesses catálogos, largamente manuseados, havia também Francisco Manuel de Melo, Camões, Garrett, Herculano... Um mundo, que passou de mãos, talvez com alegria, efémera.