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sexta-feira, 11 de julho de 2025

Fernando Guimarães (1928-2025)

 

Decano dos grandes poetas portugueses, ainda vivo, e portuense, calou-se ontem para sempre a sua voz singular. Ensaísta arguto e crítico também de poesia, além de tradutor de qualidade, com extensa obra.



Por outro lado, pertencia por direito próprio àquele grupo raro de poetas portugueses pensantes que engloba Sá de Miranda, F. Manuel de Melo e Jorge de Sena, entre os mais destacados.
Citémo-lo, a propósito:

A morte está cansada e assim encontra
no teu corpo a nudez, lugar de outro repouso.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2024

Bibliofilia 210


Creio que nunca comprei um livro com a intenção de que se viesse a valorizar, muito embora tivesse reservado, em livrarias de proximidade, antecipadamente, algumas das últimas obras de Herberto Helder, por causa da especulação que se fazia à volta dos seus títulos, sobretudo por parte de alguns livreiros e alfarrabistas mais oportunistas. 



O livro mais caro que paguei (em leilão) foi A Diana, de Jorge de Montemor (1520?-1561), impressa, em Lisboa, por Pedro Craesbeek, no ano de 1624. O exemplar foi adquirido numa almoeda de José Manuel Rodrigues, em Abril de 1998. 



Em valor, o meu segundo livro mais caro terá sido uma edição de 1614 de As Obras..., de Sá de Miranda, e que, provavelmente, teria pertencido ao bibliófilo e estudioso, professor universitário, J. V. Pina Martins. O livro foi-me atribuído, em leilão dos Silva's/ Pedro Azevedo, no ano de 1993.



Em terceira posição, quanto ao preço de compra, situa-se um exemplar da edição original, impressa em Roma no ano de 1664, das Cartas Familiares... , de D. Francisco Manuel de Melo, adquirido a 15/5/1997, por Esc. 53.616$oo, no leilão nº 49 de José Manuel Rodrigues. É edição muito rara, embora a centésima carta da quinta centúria tenha sido fotocopiada. Os exemplares íntegros são escassos por rasura, no tempo, da Inquisição que, também frequentemente, rasgava as 5 páginas do texto dessa carta.

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

Retro (109)



O Guia de Portugal-Lisboa Illustrada  (Typographia da Casa de Inglaterra, 1880) refere nos Arredores de Lisboa: ...verdadeiro sacrificio, pelos transtornos que a muitos occasiona, e pela privação que a todos vexa e afflige, embora seja limitada a um curto periodo, que a natural impaciencia, depois d'uma longa viagem, faz parecer sempre grande.
Tratava-se da quarentena para os que vinham de fora, em tempo de epidemia. E que eram acantonados no Lazareto, situado na Outra Banda.



Mais concretamente na Trafaria, na chamada Torre Velha, também conhecida por Torre de S. Sebastião de Caparica, e que servira de prisão, no século XVII, a D. Francisco Manuel de Melo (1608-1666). E onde dizem ter escrito a sua Carta de Guia de Casados (1651).
Com a irrupção da febre amarela, por volta de 1857, a torre veio a sofrer obras vultuosas e de adaptação, para ser usada como Lazareto de Lisboa.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

Apropriações indevidas ou cortes bilingues

A propósito do excerto antológico da Historia de los movimientos y separación de Cataluña... (1645), de Francisco Manuel de Melo (1611-1667), diz-nos o filólogo Ramón Menéndez Pidal (1869-1968), na sua Antología de Prosistas Españoles (1940), a propósito do poeta Melodino: Aunque Melo era natural de Lisboa, su linguage es castizo y elegante castellano, modelo en la expresión feliz y acertada. Multitud de portugueses de los siglos XV y XVI miraban como suya propria a nuestra lengua. (pg. 255)

A fazer fé em Pessoa (a minha pátria é a língua portuguesa) ficaríamos confusos, até porque os espanhóis são useiros e vezeiros em se apropriarem de escritores portugueses, chamando-os seus. Gil Vicente, por exemplo, com os seus autos em castelhano. Ou o mesmo acontece, embora mais raramente, com Sá de Miranda e Camões...  No entanto, eu atribuo as culpas a D. Manuel I (1469-1521) que casou nada menos que com 3 princesas castelhanas, tornando assim a corte portuguesa retintamente bilingue...

quarta-feira, 15 de julho de 2020

Catálogo de Livros Raros


Saíu esta semana o terceiro (?) Catálogo de Livros Raros, preparado e promovido pelo conceituado livreiro-alfarrabista Bernardo Trindade. Do acervo de 107 preciosos lotes, gostaria de destacar a colecção completa e encadernada dos 4 números da revista Graal (lote 51 - 100 euros); bem como a primeira edição (1940) de For Whom the Bell Tolls, de Ernest Hemingway (lote 53 - 1.900 euros). E ainda a edição original rara das Obras Métricas (1665), de Francisco Manuel de Melo, sob o lote nº 67, precificado a 2.500 euros.


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

De Francisco Manuel de Melo, estando no Brasil, degredado


Soneto LXXV (da Tuba de Calíope)


São dadas nove. A luz e o sofrimento
me deixam só nesta varanda muda,
quando a Domingos, que dormindo estuda,
por um nome que errou, lhe chamo eu cento.

Mortos da mesma morte o dia e o vento,
a noite estava para estar sesuda,
que desta negra gente, em festa ruda,
endoudece o lascivo movimento.

Mas eu que digo? Solto o tão sublime
discurso ao ar, e vou pegar da pena
para escrever tão simples catorzada?

Vêdes? Não faltará pois quem m'a estime,
que a palha para o asno ave é de pena,
falando com perdão da gente honrada.


Francisco Manuel de Melo (1608-1666), in As segundas três Musas.

terça-feira, 29 de janeiro de 2019

Piedosos votos, os meus


Submerso pela mediocridade do seu século XVII, do ponto de vista literário, Francisco Manuel de Melo (1608-1666) foi um dos portugueses da época que mais mundo teve, em posições altaneiras. Mas também conheceu baixas prisões (Torre Velha [Trafaria], Torre de Belém - má enxovia na altura -, o Castelo de S. Jorge) e degredo no Brasil, onde terá feito um filho e um belo soneto, pelo menos. O homem era de grande qualidade, que o próprio Quevedo reconheceu e o teve por amigo e correspondente. Para além disso, um grande escritor, com obra ampla, em português de lei.
Creio que Manuel de Melo foi arredado, ultimamente, dos programas escolares, talvez por uma simplificação provinciana e reaccionária em relação àquilo que temos de melhor. E para facilitar a vida aos meninos e meninas, a quem se quer dar sempre festa e pouco pensar. Que havemos de fazer?
Foi com alguma emoção pessoal que me dei conta que a Livraria Olisipo, no seu próximo leilão* de 6 e 7 de Fevereiro, vai leiloar (lote 540) duas cartas autógrafas do Poeta Melodino, com uma estimativa prevista de venda entre 800 e 1.600 euros. Únicas, é óbvio que as cartas serão raríssimas e poderão até ser inéditas: não as encontrei, orientando-me pela data (9 de Março de 1650 e 1 de Julho de 1651, cujo ano está errado no catálogo da Olisipo, que regista 1950 e 1951...), na edição primeira das Cartas Familiares (1664), por exemplar na minha posse, que consultei.
Em tempos infaustos, deixámos ir para Harvard (E.U.A.) a riquíssima biblioteca de Fernando Palha, com exemplares únicos e raríssimos que poderiam ter ficado em Portugal. Perdeu o património nacional.
Se eu fosse director da BNP ou da Torre do Tombo não estaria sossegado, mas nervoso. E faria tudo aquilo que me fosse possível para que essas 2 cartas autógrafas de Francisco Manuel de Melo viessem a ficar à guarda, integrando o acervo, de uma das duas instituições portuguesas. Para memória futura e consulta de quem as mereça estudar.


* ver poste, no Arpose, de 16/1/2019.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Leilão de livros e manuscritos


Na boa tradição a que nos tinha habituado José F. Vicente (Livraria Olisipo), os seus Sucessores levam a efeito mais um leilão de livros, manuscritos e gravuras, no Palácio da Independência (às Portas de Santo Antão, em Lisboa), nos próximos dias 5 e 6 de Fevereiro de 2019.
O importante acervo em almoeda inclui uma rara primeira edição de Virginia Woolf (lote 852, com uma estimativa de venda entre 250 e 500 euros) e duas raríssimas cartas autógrafas de D. Francisco Manuel de Melo, escritas na prisão da Torre Velha (lote 540, com previsão de venda entre 800 e 1.600 euros), para além de uma importante camiliana.
Por gosto pessoal, eu destacaria mais os seguintes lotes e suas respectivas previsões de venda:

296 - Costa, Agostinho R. da - Descripção... da Cidade do Porto, 1789....................... 800/1.600 euros
326 - Dario, Rubén - El Canto Errante, 1907.................................................................   70/ 140 euros
591 - Miranda, Francisco Sá de - Obras... Lisboa, 1677...................................................200/400 euros
645 - Palla e Costa Martins, Victor - Lisboa "Cidade Triste e Alegre", 1959....................300/600 euros
762 - Sena, Jorge de - Perseguição , Lisboa, 1942 ( 1ª edição)..........................................80/160 euros. 

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

Leilão de livros e manuscritos


A Livraria Olisipo leva a efeito, nos próximos dias 21 e 22 de Fevereiro, mais um leilão com um acervo importante de obras raras, bem como um conjunto de manuscritos, composto por correspondência endereçada ao crítico Álvaro Salema, por parte de vários escritores portugueses.
De destacar algumas edições primeiras de Francisco Manuel de Melo e de Almeida Garrett. O leilão terá lugar no Palácio da Independência, às Portas de Santo Antão (Lisboa).

terça-feira, 26 de setembro de 2017

De Francisco Manuel de Melo, sobre os catalães


Parcial, na altura, sem dúvida, Francisco Manuel de Melo (1608-1666) participou na contenção da insurreição da Catalunha, no lado da corte de Madrid. A opção de Filipe IV (III, de Portugal) foi pela Catalunha, em detrimento de combater a insubordinação, quase simultânea, em Portugal. O que, de algum modo, contribuíu para que a revolta em Lisboa, em Dezembro de 1640, tivesse sucesso.
Sobre os catalães, escreveu no seu Movimientos, Separacion y Guerra de Cataluña (1645), o poeta Melodino, as seguintes palavras:

...Son los catalanes por la mayor parte hombres de durísimo natural; sus palabras pocas, á que parece les inclina tambien su proprio lenguage, cuyas cláusulas y dicciones son brevísimas; en las injurias muestran gran sentimiento, y por eso son inclinados á venganza; estiman mucho su honor y su palabra; no menos su exencion, por lo que entre las mas naciones de España son amantes de su libertad. ...

sábado, 1 de julho de 2017

Bibliotecas


Se pensar em bibliotecas, para empréstimo ou leitura de livros, não me vêm à ideia, em primeiro lugar, a opulência e enormidade da Biblioteca Pública de Évora, nem a munificência rica da BNP, em Lisboa. Nem sequer a liberalidade solta de peias burocráticas da Biblioteca da Ajuda. Modestamente, retorno a Guimarães, à Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento onde, teria eu 16 anos juvenis, me puseram à disposição uma primeira edição de Francisco Manuel de Melo, seiscentista e rara, que eu folheei a medo e respeitosamente.
Para ser justo, irei ainda mais atrás, até a uma associação recreativa vimaranense que dava pelo nome de Os Vinte Arautos de D. Afonso Henriques, na rua Gravador Molarinho. Através de um amigo fiz-me sócio, teria pouco mais de 10 anos. Que, com uma magra mensalidade, me dava direito a um café por Esc. $70 e a partidas de matraquilhos a uma coroa. Também havia pingue-pongue, televisão grátis para todos os associados, e bilhar a 1$00. Num armário envidraçado, arrumavam-se quase duas centenas de livros, sobretudo de aventuras, que podíamos levar para casa.
Daí levei Os Três Mosqueteiros, Vinte Anos Depois e O Visconde de Bragelone, do mestiço e grande escritor Alexandre Dumas (pai), pouco a pouco, para, empolgadamente, os ler em casa. E que foram, com mais 4 ou 5 títulos, os livros que li, na adolescência. com maior prazer, seguramente.
A associação recreativa ainda lá está, na rua Gravador Molarinho. E recomenda-se. Noutras roupagens, é certo.


Porque hoje é o Dia Mundial das Bibliotecas...

terça-feira, 19 de julho de 2016

Da leitura (14)


Ao seu romance Grande Sertão: Veredas (1956) chamou João Guimarães Rosa (1908-1967) "autobiografia irracional". Mas ele não destoa, de um modo geral, do registo da sua restante obra. A toda ela preside um tratamento onírico (poético?) da linguagem, onde o léxico antigo se mescla no regional, estrangeirismos sabiamente aportuguesados, convocando reminiscências sensoriais, sabedoria popular, mas também científica, num discurso que muitas vezes se assemelha ao piloto automático do surrealismo.
Por alguns aspectos os seus livros lembram-me, também, dois antigos escritores portugueses: Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515?-1585) e, um pouco menos, Francisco Manuel de Melo (1608-1666). Nas Comédias do primeiro são frequentes os bordões de linguagem, normalmente, provérbios que o escritor utiliza num encadeamento vertiginoso em que é difícil distinguir o que são as palavras do autor e a sabedoria ancestral e popular. Idêntico processo se verifica em algumas obras do poeta seiscentista.
Voltando a Guimarães Rosa, de que releio Grande Sertão: Veredas. É manifesto o uso de adágios, existentes, ou criados para o efeito da função de máximas, que asseguram (numa espécie de suspension of disbelief) ou fortificam o decurso da narração que é um prolongado contar de história, quase monólogo, saborosíssimo, aliás. Por aqui deixo 4 pequenos exemplos das primeiras páginas:
- "...quem mói no asp'ro, não fantasêia. ..." (pg. 11)
- "Sua alta opinião compõe minha valia." (pg. 11)
- "...passarinho que se debruça - o voo já está pronto!" (pg. 13)
- "Sou só um sertanejo, nessas altas ideias navego mal!" (pg. 14).

segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

Uma louvável iniciativa (47)


Das terras e lendas de Amor e Segodim (6/20), em que entra D. Dinis, aos mouros de Abrantes (3/20), passando por Mumadona ou Dona Muma vimaranense, que teria vivido com seus filhos em Penafiel (4/20), tudo sai explicado, sucintamente, destes pacotinhos de açúcar. E deixei para o fim a lenda mais bonita, a de Machico (12/20), na Ilha da Madeira, com os seus dois apaixonados fugitivos, Ana d'Arfet e Robert Machim, ingleses. História que deu a Francisco Manuel de Melo (1608-1666) motivo para a sua terceira narrativa temática, ou Epanáfora Amorosa.
Um efusivo aplauso a estes pacotinhos de açúcar do Café Chave d'Ouro!

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Livros que levaram sumiço


Não terão sido mais de quatro, os livros que desapareceram misteriosamente (ou quase) da minha biblioteca, ao longo da vida. Mas tenho uma hipótese de explicação para cada um dos casos.
Dois deles, de Mário-Henrique Leiria (1923-1980), eram primeiras edições (Contos... e Novos Contos do Gin-Tonic), e creio tê-los deixado esquecidos, numa noite fria, num banco de uma paragem de autocarro outrabandista, ou no pequeno balcão de um quiosque. Distraidíssimo ou aéreo, que eu devia estar, mas já não voltei atrás, porque a noite ia alta. E já os tinha lido, com gosto.
Quanto às Cryptinas, de João de Deus (1830-1896), folheto finíssimo de 16 páginas, na sua impressão original (1881?), com poemas quase fesceninos do poeta português, depois de lido, iria jurar que o meti no grosso volume das Epanáforas, de Francisco Manuel de Melo (1608-1666). Mas deu-lhes o sumiço, às Cryptinas, porque, meses depois e folheadas uma a uma as páginas das Epanáforas, nunca mais encontrei o raro folheto.
Finalmente, o último e mais recente desaparecimento, deu-se nos primeiros meses de 1986. Eu tinha, autografado e com dedicatória, de Eugénio de Andrade (1923-2005), Os Afluentes do Silêncio (1968). Gostava tanto daquela linfa lírica de água clara que, a algumas visitas particulares que me iam a casa, eu costuma ler-lhes passagens escolhidas da obra. E, uma Senhora, de uma vez que me ausentei, deve ter-se tentado e levou-me o livro... Pagou-se assim do encontro e, como nos desencontrámos, pouco depois, nunca mais recuperei o exemplar autografado.
Comprei, anos passados, um outro exemplar, usado, esse já sem dedicatória de Eugénio de Andrade.

terça-feira, 26 de maio de 2015

Uma reflexão de Francisco Manuel de Melo


"Eis aí o engano dos mortais; porque a velhice é uma piedosa estalagem que Deus pôs entre a morte e a gentileza, brio, esforço e saúde. Se entre o inverno e verão não houvesse de uma banda o outono e da outra a primavera, quem pudera viver, passando desordenada e sùbitamente das calmas aos frios e dos frios às calmas? Se entre o dia e a noite não houvera um e outro crepúsculo, que vista se averiguara com as luzes ou com as sombras, passando intempestivamente da claridade às trévoas e das trévoas à claridade? Da mesma maneira, e ainda muito mais necessária, interpôs a Providência a velhice entre a vida e a morte para que ali se domasse a fúria dos afectos, se deminuisse a sobejidão do amor da vida, e o homem fosse perdendo o receo à morte, pela conversação dos achaques e companhia dos acidentes próprios da velhice. Senão, dizei-me: quem poderia apartar-se liberalmente das felicidades humanas em meio delas, se, ainda depois de gozadas e depois de perdidas, custa tanta dor seu apartamento? ..."

Francisco Manuel de Melo (1608-1666), in Relógios Falantes.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Adagiário CCXVIII


Um pouco na esteira de algumas obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos e Francisco Manuel de Melo , embora com menor intensidade, é um punhado de ditos ou provérbios, que aqui deixo, colhidos de Aquilino Ribeiro, no seu conto "O burro do senhor seu dono", incluido na obra "Quando ao gavião cai a pena". Como se seguem:
- Burra de vilão burra de Verão (pg. 205).
- Antes a lã se perca, que a ovelha (pg. 206).
- Mais por bife de burro do que por coixa de carneiro (pg. 206).
- Filho da fortuna, neto da extravagância (pg. 207).
- Deus te dê o que te falta, que é o fole mais a gaita (pg. 218).

terça-feira, 24 de março de 2015

Das minhas bibliotecas alheias


Alberto Manguel (1948), na sua Uma História da Leitura (Presença, 1998), a páginas tantas, fala de algumas bibliotecas que, particularmente, lhe agradaram (Huntington, British Library, BNF...), e que frequentou, em alguns períodos da sua existência.
Ora, por associação, fiz eu próprio o meu trabalho de casa: recordei as bibliotecas da minha vida. E, curiosamente, lembrei-me também daquilo que me ficou (autores) do que lá li, e que a essas bibliotecas me ficou gravado, na memória. Segue pois a lista, por ordem cronológica:
1. Biblioteca da Sociedade Martins Sarmento (Guimarães); onde li, principalmente, Francisco Manuel de Melo.
2. Biblioteca (nova) da Universidade de Coimbra, onde tomei contacto primeiro com os modernistas portugueses (Almada, Sá-Carneiro e Pessoa).
3. Biblioteca Municipal Palácio Galveias, ao Campo Pequeno (Lisboa), para ler Shakespeare.
4. Biblioteca Pública de Évora, onde, maravilhado, manuseei e li cartas manuscritas do poeta João Xavier de Matos, endereçadas a Fr. Manuel do Cenáculo.

sábado, 26 de julho de 2014

Citações CLXXXIX


As 3 citações, que vão seguir-se, foram retiradas da obra Elucidário de conhecimentos inúteis (Edições Salamandra, 1991?), de Roby Amorim, de que constituíam tripla epígrafe. Vêm em boa sequência do poste com o poema de Auden. E seguem:

"Na palavra verdadeiramente dita (...) existe a verdade primitiva, que é a origem de tal palavra, e logo, se desta Origem, é certo que, de idioma e de translacção em translacção, ou de participação em participação, iríamos dar na língua primitiva, da qual, diz a Eucarístia Santa, e infalível, «Omne enim, quod vocavit Adam animae viventis, ipsem est nomem e jus.»
Tratado da Ciência Cabala
D. Francisco Manuel

Perguntando a Lao Tseu o que pensava ser o mais urgente a construir, logo o sábio respondeu sem hesitar: «É encontrar o verdadeiro sentido das palavras».
Do Pensamento Chinês

«Saber é dizer o que é.»
Garcia de Orta.

sábado, 15 de março de 2014

Bibliofilia 100


É edição rara, esta primeira que, em Roma e no ano de 1664, foi impressa na Officina de Felipe Mancini, contendo as Cartas Familiares..., de Francisco Manuel de Melo (1608-1666), divididas em cinco centúrias, com cem cartas, em cada uma.
Mais rara, ainda, é a edição íntegra que inclua a centésima carta da quinta centúria (última, portanto), que a Inquisição, em Portugal, censurou (riscando a tinta) ou arrancou (rasgando) do livro. O meu exemplar tem a sua reprodução (pgs. 795/800) fotocopiada, em bom papel. O anterrosto do volume tem um pequeno restauro marginal, que não ofende o texto. A encadernação, meia inglesa, não contemporânea, encontra-se em razoável estado e o miolo do livro, em boa situação.
A obra, comprada em 15 de Maio de 1997, no leilão nº 49 de José Manuel Rodrigues, custou-me Esc. 53.616$00 (cerca de 268 euros), e lembro-me que foi muito disputada. Cerca de um ano depois (Abril de 1998), um exemplar semelhante, sem a carta ou reprodução referida, num leilão Silva's/Pedro Azevedo, foi arrematado por Esc. 65.000$00. Por curiosidade, passo a referir, ao longo do século XX, os preços anteriores, por que foram vendidos exemplares semelhantes:
- 1914 - Livraria Manuel dos Santos (com a carta 500)... Esc. 35$00.
- 1932 - Livraria Coelho, lote 191, com "a carta C suprimida pelo Santo Ofício"... 800$00.
- 1939 - Leilão da Biblioteca Avilla Perez (lote 4835), com a carta C zincogravada... 150$00.
- 1955 - Catálogo nº 3 do Mundo do Livro, incluindo a carta C original... Esc. 3.800$00.
- 1977 - Livraria Camões (lote 2723), exemplar também completo e íntegro... Esc. 12.000$00.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Confiança


É sabido que, para um investigador sério e escrupuloso, a observação do fac-símile ou da cópia digital de um livro antigo, de um incunábulo ou de um manuscrito, não dispensa a consulta presencial da obra original, em si. O tamanho dos tipos, as anotações manuscritas, as marcas de água do papel, são pormenores, entre muitos outros, imprescindíveis para um estudioso. Que, muitas vezes, as cópias não permitem detectar.
Em números recentes, o TLS abordou as imperfeições da cópia digital do famoso Codex Mendoza (cca. 1542), precioso manuscrito hispano-azteca que, depois de múltiplas vicissitudes, integra o rico acervo da Bodleian Library, em Oxford. A sua consulta directa é, praticamente, proibida, e os estudiosos reclamam, em vão. E, quando raramente, o manuscrito é facultado ao investigador credenciado, a operação é rodeada de altas medidas de segurança e de um aparato de normas draconianas que dificultam o seu estudo. 
O último TLS (nº 5754) traz uma carta ao director, em que um leitor (J. R. Maddicot), ironicamente, conta que nos anos 60 e para fazer um trabalho académico, pôde consultar directa e tranquilamente o Codex Mendoza, isolado, num pequeno gabinete e sem qualquer vigilante a observar os seus movimentos. E remata, dizendo: "How times have changed." Eu próprio, tenho uma experiência semelhante, quando adolescente. Pedi, numa instituição de provincia, detentora de uma rica biblioteca, poesias de Francisco Manuel de Melo. Cinco minutos, depois, estava tranquilamente sozinho numa sala, sentado à mesa, com um exemplar da primeira edição (1665) das "Obras Métricas" do poeta Melodino.
A confiança era outra, nesses recuados anos 60...