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segunda-feira, 23 de setembro de 2019

Bibliofilia 140


Não sendo rara, esta edição de 1925 de Il Canzoniere, de Francesco Petrarca (1304-1374), impressa em Milão,  tem um aparato competente e muito completo de notas produzidas pelo filólogo e docente universitário Giuseppe Rigutini, que vieram a ser ampliadas por Michele Scherillo, também  ele especialista na matéria.


Comprado em meados dos anos 80, por valor que não anotei na altura, o livro fora bem estimado pelo anterior proprietário que o mandara encadernar dignamente a um artífice  de comprovados méritos - Frederico d'Almeida, que tinha casa aberta, em Lisboa, na rua António Mª. Cardoso, nº 31.
Ficou assim a obra bem protegida, para largos anos vindouros.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

O testamento de Petrarca


Entrados que estamos na pia semana da Páscoa, onde a paixão e morte de Cristo têm lugar, sucedeu que tive acesso ao texto que, exactamente, há 642 anos, no dia 4 de Abril de 1370, Francesco Petrarca (1304-1374)  fez, com as suas disposições testamentárias, perante testemunhas e na igreja principal de Pádua. Este testamento registado quatro anos antes da sua morte tem cláusulas curiosas e darei nota de algumas, em seguida.
Logo de início o grande Poeta italiano enumera, prolixa e minuciosamente, os locais onde quer ser sepultado: se falecer em Pádua, quer ficar na igreja onde fez o testamento, de preferência próximo do túmulo do senhor Carrare, que foi seu mecenas e amigo; se em Veneza estiver quando morrer, quer ser enterrado no convento de S. Francisco, mas se falecer em Milão, opta pela igreja de Santo Ambrósio. Ocorrendo a sua morte em Pavia, escolhe a igreja de Santo Agostinho, mas se for em Roma, dá duas alternativas: a igreja de Santa Maria Maior ou a igreja de S. Pedro. Finalmente, se falecer em Parma quer ser sepultado na Catedral. Uma nota de rodapé, no texto que li, explica a omissão de Florença como lugar de sepultura, porque Petrarca nunca perdoou à cidade a ordem de banimento da família.
É nomeado seu herdeiro universal Francesco de Brossano, seu genro, casado com a sua filha Francesca. Mas descrimina, também, vários legados pequenos a amigos e ao seu criado. Deixa o seu breviário ao Padre Giovanni de Bocheta. Curiosa é a disposição sobre o seu próprio cabelo. Diz Petrarca que, se ainda o tiver, por altura da morte, deverá ficar para Bonzanello de Vigoncia ou para Lombardo de Serico, que deverão tirar à sorte, quem fica com ele. Perdoa, ainda, uma dívida a Donato de Pratovechio, que foi seu antigo professor de Gramática. Lega a Francesco de Carrare um quadro de Giotto, que representa a Virgem Maria. E pede desculpa a Giovanni de Certaldo, dito Boccaccio, por "deixar tão pouco a um homem tão grande" - 50 florins de ouro de Florença. O seu alaúde ficará para mestre Bombasio, de Ferrara.
E termina o documento dizendo que "teria feito outro testamento, se fosse rico, como imagina o vulgo insensato".

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Francesco Petrarca (1304-1374) : à morte de Laura


No dia de aniversário do nascimento de Petrarca (20 de Julho), passo a transcrever o soneto "Amor, che meco al buon tempo stavi", em tradução portuguesa de Jorge de Sena.

Amor, comigo noutro tempo estavas
Entre estas margens do pensar amigas
E p'ra saldar nossas razões antigas
Comigo e o rio arrazoando andavas:

Flor's, frondes, sombras, ondas, antros, cavas,
Profundos vales, altos montes, sigas,
Que repouso me foram das fadigas
E hoje o não são de tantas mágoas bravas.

Ó vós que os ermos habitais do bosco,
Ó ninfas, e quem mais do fresco fundo
Do líquido cristal se alberga e pasce:

Tão claro foi meu dia, ora é tão fosco
Como a Morte que o faz. Assim no mundo
Ventura vem do dia em que se nasce.