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domingo, 26 de maio de 2024

Citações CDLXXXV


 
Um escritor é essencialmente um homem que não se resigna à solidão. Cada um de nós é um deserto.

François de Mauriac (1885-1970), in Dieu et Mammon (1929).

terça-feira, 27 de fevereiro de 2024

Citações CDLXXXIV

 

Que Deus prefira os imbecis, é um boato posto a correr há mais de dezanove séculos, por eles mesmos.

François Mauriac (1885-1970), in Bloc-Notes.

quarta-feira, 14 de dezembro de 2022

Citações CDXLIX



Uma certa qualidade de gentileza é sempre um sinal de traição.

François Mauriac (1885-1970), in Le Noed de vipères

terça-feira, 4 de outubro de 2022

Citações CDXLII



Para muitas mulheres, o caminho mais curto para a pefeição é a ternura.

François Mauriac (1885-1970), in Asmodée (1937). 

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Adenda

 

A leitura prolongada, no tempo, dos Bloc-notes de François Mauriac (1885-1970) fez-me reunir os livros do romancista francês, a ver os que me faltariam. De parte, ficaram os 5 pequenos volumes da colecção Miniatura, que tenho completa e em estante própria. São os números 50, 61, 81, 95 e 109.



Todos eles com lindas capas executadas por Bernardo Marques para esta série da editora Livros do Brasil. A estética apurada do seu traço motivou-me para lembrar, por imagem, como eram cuidadas muitas das capas de antigamente. E o apurado sentido estético de alguns gráficos portugueses.




terça-feira, 14 de setembro de 2021

Divagações 173



Mais de duas mil e seiscentas páginas de leitura, e o convívio renovado com as palavras escritas de François Mauriac (1885-1970), que foi um dos meus prosadores preferidos nos anos 60 do século passado, permitiram-me restaurar a empatia humana e confirmar a qualidade das suas reflexões. Os 5 Bloc-notes que andei a ler nestes últimos seis meses, e que acabei anteontem, clarificaram, à saciedade, a perseverença de duas enormes fidelidades do romancista francês: ao catolicismo e ao exercício político de Charles de Gaulle (1890-1970), cuja acção quase sempre apoiou.
Deste V e último tomo, destaquei alguns excertos, de que vou transcrever, traduzindo, apenas dois. Assim:

"Os mortos que não esquecemos e de quem celebramos os aniversários deveriam recordar-nos aqueles que nós esquecemos. Regozijo-me que, cinquenta anos após a sua morte, Guillaume Appolinaire se mantenha tão vivo na memória, mas aflige-me que, hoje, trigésimo aniversário da morte de Francis Jammes, nenhuma voz o tenha lembrado e que a sombra se adense sobre uma obra, mais que revolucionária talvez para os poetas da minha geração, mas não para os mais jovens como a de Apollinaire." (pg. 135/6)

"Nada me pode dar maior prazer do que o anúncio de um novo volume do Bloc-notes preparado pelo meu editor. Será o quarto se não me engano. De uma forma ou de outra, eu conto com este testemunho que deixarei. Não sei o que acontecerá ao Noeud de Vipères, a Thérèse Desqueyroux ou a Un Adolescent d'autrefois. Pelo contrário, conto com esta obra, que não é somente a história vista através de um temperamento, mas que se confunde com a minha vida mais pessoal. Isto constitui uma experiência singular que eu creio ter sido o único a ter tentado." (pg. 347)

(Não estou muito seguro de que François Mauriac tenha acertado nesta sua última previsão...)

segunda-feira, 23 de agosto de 2021

Circunstâncias

 

Do Bloc-Notes V (pg. 147), traduzindo, reproduzo um pequeno excerto de François Mauriac:

"«Senhor Marechal, não se é mais feliz, na nossa idade.» Foi esta a única objecção do idoso Luís XIV ao velho marechal de Villeroy que acabava de ser vencido e perder tudo em Ramillies."

sexta-feira, 6 de agosto de 2021

Antologia 3



Numa das últimas páginas (560) do volume IV do Bloc-notes, cuja leitura terminei ontem, François Mauriac (1885-1970) refere que: La veillesse est le contraire du dessèchement, c'est le désespoir dominé et vaincu mais qui renâit d'un seul coup, d'une phrase comme celle-là que... Com o avançar dos anos a obra vai ganhando um tom mais pessimista e amargo que acompanha os últimos tempos do escritor francês. Provavelmente, o último livro (V) da obra acentuará esta desesperança humana. A ler vamos...
Mas não queria de deixar aqui registados, para eventualmente os relembrar, dois excertos significativos, que traduzi, do livro acabado de ler ontem:

"Na verdade, eu não me fico apenas por aí: as recordações na idade avançada são como formigas cujo formigueiro foi destruído: o olhar não pode seguir nenhum bem durante muito tempo. O que subsistia deste pequeno mundo destruído, eram os meus devaneios. Tudo vai assim desaparecer comigo: até estes criados com sorrisos dóceis que me tomavam nos seus joelhos, e eu volto a dizer os seus nomes numa espécie de litania que me vai embalando como..." (pg. 495)

"É importante para Sartre não ter smoking. André Maurois, bem como Paul Valéry não foram dominados por este esnobismo ao inverso. Ambos amaram o mundo, mas por razões diferentes. Valéry falava com deleite num ambiente de luxo, diante de senhoras em êxtase de que ele nem sequer esperava que fossem capazes de lhe devolver a bola. Maurois, esse, depois de um dia de trabalho que, para qualquer um, teria sido muito pesado, relaxava-se ao fim do dia sentado a uma mesa de amigos." (pg. 520)

segunda-feira, 2 de agosto de 2021

Divagações 172




Possivelmente, terá sido a leitura continuada dos Bloc-notes, de François Mauriac (1885-1970) - considerado, como se sabe, um escritor católico - que me fez pensar que a fé talvez seja uma forma não material da vontade humana.

sexta-feira, 16 de julho de 2021

Mais 3 fragmentos (traduzidos) do "Bloc-notes IV" de F. Mauriac (1885-1970)

 


Samedi 17 juillet 1965
(...)
«Grandeza de alma humana", escreve Pascal no seu Memorial. Valéry prolonga até ao infinito esta grandeza.
No entanto este pensamento pesa-me: «Aquilo que vos traz arrependimento nunca existiu...» Creio que não se pode dizer nada mais triste a um sobrevivente. Não é verdade senão em relação ao amor dos corpos. Mas, enfim, será que alguma vez amamos um ser humano pela sua alma? Podemos negá-lo, é certo: concedo ao amor, o que interessa ao coração carnal, e não diz respeito às relações de espírito a espírito. (pgs. 111/2)

Samedi 21 août 1965

Um jovem confrade, vindo para me entrevistar, pergunta-me se sou feliz ao pensar que os jovens ainda me lêem e gostam de mim. Respondo-lhe que a televisão, ao menos, serve para isso, para me dar a sensação da minha própria heterogeneidade. Não é somente a avançada idade que me isola desta geração, mas a minha própria natureza. Eu não estava menos só aos vinte anos, é verdade - só que alguns amavam-me e eu amava-os: a amizade era o único terreno possível... Mas a velhice apanhou o peixe longe desta água doce. Ele nada, mas mais fundo agora, a uma profundidade onde já não há mais ninguém. (pg. 121)

Jeudi 26 août 1965

Ontem, ouvi um disco de Clara Haskil. No outro dia era Roger Vailland que ocupava o espaço do pequeno ecrã. Os mortos não estão menos mortos do que outrora: fazem de conta de estarem lá. É a imagem de um instante, é a duração que se transforma em nada. Não sei o que ressentem aqueles e aquelas que amaram com verdadeiro amor estes regressados da televisão e estes intérpretes que o disco permite escutar, enquanto que eles se transformaram nessa coisa que já não tem nome em nenhuma língua. (pg. 125)

quarta-feira, 7 de julho de 2021

Lembrete 83

 

Admito que seja porque tenho vindo a ler, de há uns meses a esta parte, os volumes de Bloc-notes de François Mauriac (1885-1970), em que o escritor francês vai fazendo a apologia de Charles de Gaulle (1890-1970) renovando os seus votos de fidelidade política à figura do grande gaulês, mas creio que irei acompanhar, a partir de hoje, na RTP2 (22h01), os 6 episódios previstos e intitulados De Gaulle - Prestígio e Intimidade.
De facto, a partir dele e da sua qualidade política, o abaixamento da prestação de serviço na presidência francesa é notório, sobretudo a partir dos três últimos medíocres mandatos (Sarkozy, Hollande, Macron...).
Aqui, por isso, dou notícia desta série, a quem me queira acompanhar.



domingo, 20 de junho de 2021

3 fragmentos (traduzidos) do "Bloc-notes III" de François Mauriac (1885-1970)



Vendredi 13 septembre 1963

Este bem-estar totalmente físico, depois de uma noite em que até pouco dormi, e que eu sinto esta manhã olhando as colina em que o tempo se vai fazendo bom, faz-me admirar que me tenha sido concedido já nestes confins da vida. O nosso corpo surpreende-nos e nós debruçamo-nos atentos sobre ele, à escuta deste batimento infatigável que não pára nunca (e todavia ele cessará um dia próximo). (pg. 396)

Mercredi 18 septembre 1963

Nunca a natureza foi mais hostil ao homem, mais deliberadamente hostil do que no nosso Sudoeste, neste outono de 1963. Tenho sido muito desiludido nas minhas primaveras e outonos. As bem-amadas estações não são belas senão através dos nevoeiros da memória, confundidas com a nossa infância, com os primeiros amores - como se os desaparecidos tivessem transferido para essas estações a luz do seu olhar, o seu calor e essa ternura que nós procuramos junto dos vivos. (pg. 398)

Vendredi 4 octobre 1963

Nada se perde para sempre. As vindimas atrasadas começaram enfim sob um céu triste. O dilúvio parece ter-se interrompido. A casa assemelha-se à arca, a minha colina a Ararat e, como o velho Noé, eu abro a janela e projecto em pensamento uma pomba em liberdade por sobre o campo encharcado de chuva.
O vinho será fraco de graduação. Não importa : a colheita pode ser salva. (pg. 404)

sexta-feira, 11 de junho de 2021

Antologia (prosa) 2

 


Dimanche 13 janvier 1963

Toda a poesia é intraduzível. Se a edição bilingue dos poemas de Emily Brontë foge à regra, o mérito pertence, à partida, ao tradutor Pierre Leyris. Mas principalmente uma presença se nos impõe, uma dor, uma solidão cujo grito passa através das palavras estrangeiras e faz esquecer a música destruida: no texto francês um coração continua a bater, e eu escuto essa pulsação que se silenciou na poesia francesa de hoje, depois que Rimbaud escolheu calar-se.
A recusa em deixar o sombrio paraíso da sua infância impede Emily de respirar fora do seu presbitério natal. Haworth e da sua charneca ligados a este destino único que lhe guardam o segredo. Porque há um segredo, aqui como em toda e qualquer vida, como em toda a grande poesia, naquele tempo em que os poetas acreditavam na sua alma. O que eles chamavam poesia, era a expressão desse segredo de que eles não revelavam o nome. E talvez nem eles próprios o conhecessem. Os Brontë em Haworth, os Guérin em Cayla: destes dois «altos lugares» se eleva para mim (que teria tido um destino tão diferente desses destinos) uma lamentação, que é minha absolutamente.


François Mauriac (1885-1970), in Bloc-notes, tome III (pg. 291).

sexta-feira, 7 de maio de 2021

Da leitura 43

 


De há uns tempos a esta parte, em relação a leituras de livros policiais, como tenho muitos e para não me perder, no final de os ler, na primeira página em branco escrevo, a lápis, a data em que terminei a sua leitura. Acabei hoje, entretanto, o II tomo de Bloc-notes (dos 5 que adquiri, em boa hora, através da Livraria Lumière, do Porto), de François Mauriac (1885-1970), volume que tinha principiado a ler a 19/3/21, conforme apontamento. Foram 49 dias (fiz também pequenas leituras paralelas) para 546 páginas (índice onomástico incluído), o que me pareceu um bom ritmo. E que se deve também à qualidade da escrita do romancista francês, que aborda sobretudo assuntos políticos (De Gaulle e a guerra da Argélia, principalmente), literários, pessoais e culturais. Irei iniciar, em breve, o tomo III (imagem de capa, acima). Antes de o fazer, vou transcrever uma passagem, muito singular (e desta vez vai no original...), da página 463, em que Mauriac divaga sobre a idade. Assim:

"La vieillesse? La cinquantaine, que vous avez atteinte, marque le moment où on l'aborde, il est vrai, et où peut-être on en souffre le plus. Voici le temps de ne plus être aimé et d'aimer encore. A partir de là, il faudra beaucoup marcher avant de pénétrer dans la région glacée où il n'y a plus rien à attendre de personne, plus rien même à donner. Quel désert! Oui, un désert, si pressé que nous soyons d'amis et de parents. Qui est aimé à cette age, ce qui s'appelle aimé? Et pourtant ce qui ne meurt pas, quand on en a été possedé au sortir de l'enfance, c'est précisément ce qui embrase cette admirable préface de Sartre: une tendresse avide, une tendresse irritée mais toujours jeune et vivante, et qui a échappé au temps, et qui (je le crois de tout mon esprit et de tout mon coeur) lui survivra."

segunda-feira, 3 de maio de 2021

Humor Negro 16

François Miterrand (1916-1996) era um grande apreciador de pequenas histórias (para além da História), de ironias subtis, de casos insólitos, que se divertia a contar aos amigos e próximos. É dele, contado a Franz-Olivier  Giesbert (Le Vieil Homme et la Mort,* Gallimard, 1996, pg. 128), o seguinte episódio relacionando o romancista católico François Mauriac com o recém-falecido, também escritor, André Gide.



Ora, segundo Miterrand, logo após a morte de Gide, Mauriac teria recebido um telegrama com os seguintes dizeres, que passo a traduzir: "Não há inferno. Podes estar descansado. Avisa o Claudel. (Assinado: André Gide.)"

* obrigado, H. N.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Figurativo ou abstracto

Retratos de personalidades institucionais implicam sempre alguma contenção, mas denunciam também a vontade avançada ou retrógrada de quem os encomendou ou realizou. Se, na galeria presidencial de Belém, os Columbanos assinalam um presença coeva de qualidade e se o retrato de Mário Soares, pintado por Júlio Pomar, inaugura uma modernidade alacre, os quadros que se seguiram, de presidentes posteriores, sublinham algum retrocesso estético ou menor ousadia criativa, na minha opinião.



Em 1958, François Mauriac, então com 72 anos, posou para o pintor Édouard Mac'Avoy (1905-1991), conceituado retratista francês. No seu Bloc-notes II, Mauriac, a propósito, tece (pg. 129) algumas considerações interessantes sobre arte figurativa e arte abstracta, que passo a traduzir: Por estes dias, sessões de pose. Mac'Avoy faz o meu retrato. Este pintor tão atento às mãos do seu modelo e a este rosto, por que, acabada a juventude, nós somos responsáveis e que conta toda uma vida - este pintor retoma uma viva tradição. Ele escapa ao nada em que os «não figurativos», um após o outro, se absorvem. Será bom para a pintura, bem como para o romance, retomar o fio à meada, na altura em que ele se rompeu...

domingo, 14 de março de 2021

Do que fui lendo por aí... 42

 


Do lido, registe-se, depois de traduzido:

... Vejo claramente a razão desta duplicidade: um político de direita e um político de esquerda, se são desprovidos da qualidade essencial de um homem de Estado: a imaginação criadora, são levados a praticar o mesmo tipo de política, porque eles são um e outro a marioneta do acontecimento que eles não dominam e os domina. (pg. 369)

... Esta geração mascarada de óculos escuros não suporta a luz. Ela mergulha directamente nas trevas. Apenas algumas velhas águias ousam olhar ainda o sol de frente. (pg. 377)

... Em relação a um ponto, os Franceses mudaram: já não se consideram o umbigo do planeta, o que os torna ainda mais obstinados a agarrarem-se ao seu interesse imediato e a procurarem a sua vantagem mais positiva. (pg. 381)

François Mauriac (1885-1970) in Bloc-notes I, 1952-1957.

quarta-feira, 10 de março de 2021

Mauriac sobre De Gaulle

 


8 de abril de 1954

Conferência de De Gaulle. E há quantos anos eu deixara de ver o homem. Mas nem por isso ele envelhecera. Basta ele abrir a boca e é o mesmo tom soberano de sempre. Os insucessos não lhe dizem respeito. O seu olhar sobre a França e sobre a Europa é simplificador, mas nunca simplista.

François Mauriac (1885-1970), in Bloc-notes I (pg. 139).

segunda-feira, 8 de março de 2021

Mimetismos...

 


Por muito diferentes que tenham sido os escritores duma mesma geração, eles terão admirado quase sempre os mesmos livros quando tiveram vinte anos.

François Mauriac (1885-1970), in Bloc-notes I (pg. 228).

Nota pessoal: o mesmo se poderia dizer dos leitores comuns. Ou das músicas cristalizadas e favoritas, à roda dos 20 anos, pelos melómenos de uma mesma geração.

terça-feira, 2 de março de 2021

Da leitura 41

Escritor assumidamente católico, François Mauriac (1885-1970) recebeu o prémio Nobel da Literatura em 1952. De um dos seus discursos de Estocolmo, em 10/12/1952, respiguei e traduzi este pequeno excerto, com o seu quê de bom humor: 



"... A minha cor é o preto e julgam-me a partir deste negro, e não sobre a luz que o penetra e o queima de forma surda. De cada vez que em França uma mulher tenta envenenar o seu marido ou estrangular o seu amante, dizem: «Aqui está um tema para si...» Eu passo por ter uma espécie de museu de horrores. Sou especialista neste tipo de monstros. ..."