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sexta-feira, 8 de maio de 2026

Da leitura 65

 


GEMIDO XXXIV

Meteram-se em uma barca os Discípulos com o Senhor, resolvendo-se a não deixá-lo nas tribulações do mar, assim como o tinham seguido nas prosperidades da terra: mas em se fiando das ondas, começou com cerração escura a cair o Céu em nuvens, o ar em chuva, o fogo em raios, os horizontes em ventos, & todo o mundo em confusão, pois o mar se erguia em montanhas, o vento se precipitava em serras, o dia se desfigurava em sombras, o Sol se descorava em trevas; em cuja turvação medonha, cheio tudo de horror, & assombro vagava a mísera barquinha padecendo, quase sorvida da voracidade das ondas, em cada momento um risco, em cada vaivem um naufrágio: viram-se a risco de perder-se os mesmos escolhidos de Deus; desconfiaram de remédios por todas as vias humanas, & recorreram ao Senhor, que dormia, parecendo que no descuido se esquecia dos seus mimosos, & do governo das criaturas. (pg. 134) 
 (Procedeu-se a uma actualização ortográfica do texto original.)

Fr. António das Chagas (1631-1682), in Obras Espirituais.

Nota pessoal: se privilegio o estilo clássico de escrita, nem sempre o barroco me deixa indiferente. A obra de Fr. António da Chagas, pelo seu artifício industrioso, exerce, por vezes, algum fascínio sobre mim.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Uma louvável iniciativa (46)


Ainda não é desta que fico a saber a origem de Sobradelo da Goma (freguesia da Póvoa de Lanhoso) que, pelo nome bizarro, eu costumo usar, metaforicamente, para denominar terra de fim do mundo... Mas, com mais estes dois pacotinhos de açúcar do Café Chave d'Ouro, fiquei elucidado no que diz respeito ao nome de Varatojo (17/20) e Bobadela (9/20). E me lembrei, com encanto, desse aventureiro e bravo António da Fonseca Soares (1631-1682), também apelidado Capitão Bonina ( ou, das Boninas), nas guerras da Restauração, que se homiziou nos Brazis, para não ser preso. E, regressado a Portugal, já perdoado, acabou por morrer, como Frei António das Chagas, em cheiro de santidade, no convento de Varatojo (Torres Vedras). Pelo meio, escreveu imensos poemas, os primeiros, quase libertinos, os últimos, quase sagrados.
E que não se diga que um pacotinho de açúcar não serve para nada...


quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O hábito faz o monge


Os campos iluminados de verde natural davam lugar, de vez em quando, a tufos extensos de azedas amarelas e outros, bem mais pequenos, com manchas de flores brancas e simples, anónimas de que nem sei o nome. Ao sol, parecia Maio ou Junho, pela quentura amena, mas os charcos não deixavam enganar, que ainda estávamos em Janeiro. Pareciam pequenos lagos sucessivos, onde pequenos pássaros vinham beber, talvez uma ou outra avoceta (pareceu-me) e, mais raramente, uma gaivota, que viera de mais longe.
Os nomes estranhos sucediam-se: Pedrulhos, Matos Velhos; até havia uma Gibraltar, pequena aldeia que nem sequer ficava à beira-mar. Uma placa indicava, ao longe, Varatojo, onde António da Fonseca Soares (1631-1682), depois de muita aventura e licenciosidade, se veio acoitar e transformar em Fr. António das Chagas, barroco, a sermonar, e poetando, nas horas que os ofícios divinos lhe deixavam livres. Depois, A-dos-Cunhados onde eu bivaquei a céu aberto, em 1968, vindo de Mafra, na semana de campo da recruta.
Mas entre a Praia Formosa e Caixeiros, numa pequena localidade de que esqueci o nome, 2 clones, que pareciam gémeos, iguaizinhos aos que vejo no Chiado ou no Rossio, atravessaram-se-nos à frente, pela passadeira de peões da estrada. Com o seu corte de cabelo bem alinhado, o cinzentismo dos seus fatos, as suas sempre estandardizadas gravatas. São tão inconfundíveis como as testemunhas de Jeová, embora estes apologéticos vistam muito mais modestamente. Os clones vinham do BPI, porque uma colega lhes disse qualquer coisa, gritada, da porta da dependência bancária, do lado esquerdo da rua. Bancários, gestores, CEO's vestem, quase sempre da mesma maneira, sem grande imaginação, usam corte de cabelo igual (devem ir ao mesmo barbeiro), usam calçado, sempre, do mesmo formato - as "fardas" são iguais, no serviço: "o hábito faz o monge". É facil conhecê-los à légua.
O mar estava bravo na Praia Formosa, mas não em marés vivas. E as falésias cor de cobre - douradas que pareciam pelo sol - belas, altas, majestosamente assimétricas: nenhuma igual à outra. Apetecia ficar por ali, com o sol a aquecer-nos as costas, só a olhar o mar nas suas ondas cíclicas de espuma branca, quebrando na praia deserta.