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domingo, 25 de agosto de 2019

Voltando a Simenon


A fidelidade, no seu sentido mais lato, é também uma virtude da atenção que, por sua vez, é um dos suportes mais sensíveis da amizade. Pelo menos, para quem assim o entenda e pratique.
Vem isto a propósito de eu, ao folhear um livro de Georges Simenon (1913-1989), recentemente, ter pensado que o leio desde o princípio da adolescência e continuo fiel à ideia de o considerar um dos 3 grandes romancistas policiais. E não só.


Este Novembre (1969), considerado um dos seus roman dur, teve mais duas edições (1983 e 2011), pelo menos. O meu exemplar, em imagem, é da edição original da Presses de la Cité e encontra-se em muito boas condições, apesar de conservar a marca de posse manuscrita da anterior proprietária, que o terá comprado em Bruxelas, no mês de Setembro de 1978, muito provavelmente também já usado. Mas os donos estimaram bem o volume, que conserva ainda a sobrecapa em bom estado.


Diz-se que Simenon escrevia os seus Maigret em menos de uma semana e poucas emendas lhes fazia. Os roman durs eram porém um longo exercício, rodeado de alguns rituais austeros. Com algumas correcções no final. E um emagrecimento acentuado do seu peso normal, ao finalizar o livro.
Por curiosidade, reproduzo o verso das folhas de guarda final e da pasta posterior, que a edição original ostenta, notando-se 9 breves emendas manuscritas introduzidas, no texto escrito à máquina.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Divagações 106


A fidelidade, tão frágil em si, no seu aspecto mais amplo, descomprometido, desinteressado. No entanto, cimento de alicerce nas amizades - que tantas perdemos ao longo da vida! Umas por conforto, outras por simples contas de deve e haver, ainda outras por orgulho. Porque, às vezes, a fidelidade é um caminho de cabras: íngreme, estreita vereda sinuosa, agreste e incómoda. Dito de outro modo, Virginia Woolf referia: "Perdi amigos, alguns deles, por morte...outros por mesquinha inabilidade de atravessar a rua." (Arpose, em 5/8/2015)
As coisas passam de moda: esquecemo-nos, esquecemo-las, na poeira dos dias. Às vezes, tinham sido tão próximas, tão essenciais para nós, que jurámos por elas uma fidelidade eterna. A verdade é que os sentimentos também se esgotam.
O remorso, no entanto, surge inesperado, uma ou outra vez, bate forte, interrompe a cegueira, rasga violento o esquecimento dos dias. Deixa perguntas sem resposta suficiente, abre um clarão de luz aguda que parece atingir o coração. E não há remédio: já é tarde demais, no tempo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Em reparação, e louvor


A fidelidade não tem preço, ou aquilo por que a entendemos. Raríssima entre os seres humanos, encontra um terreno de eleição entre os bichos e o homem. Cães sobretudo, que os gatos são mais interesseiros, normalmente, e egoístas.
Em outro reino, não o animal, eu tenho uma relação singular com uma sardinheira (gerânio) de flores brancas, habitante de um velho vaso que, com o tempo e a água, se vai esfarelando por fora. A planta, na varanda a leste, acompanha-me, tutelar, há mais de 30 anos, e parece observar-me, ou proteger-me, lá do alto e do lado esquerdo, quando me sento para ler, escrever ou, simplesmente, estar.
São singelas as flores, na sua brancura sucessiva (a não ser quando começam a murchar acinzentando o seu tom, até cairem), mas ao longo deste tempo todo, de Inverno ou de Verão, não houve um dia, um único dia, em que não me banhassem com a sua alvura e presença, vindas dos seus ramos envelhecidos.
A isto chamaria eu, com propriedade, uma grata, imensa fidelidade. Em troca de algumas gotas de água que, sempre com estima, lhe vou dando, de vez em quando.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Significado amplo e significado restrito


A poesia tem destas coisas. E as palavras contribuem, na sua quase infinita elasticidade.
Em 1958, Jorge de Sena publicou, na Morais Editora, o seu quinto livro de poesia, intitulado "Fidelidade". Hoje, quando refiro fidelidade no sentido seniano, quero dizer que a aplico no sentido mais amplo.
Ao reverter a água de um copo, para a jarra ou garrafa que foi o seu depositário inicial, é preciso mão firme e ritmo constante, no movimento de retorno. Uma pequena hesitação ou uma ligeira mudança de ritmo, e ela entorna-se. Porque toda a acção, para ter sucesso, exige uma tensão constante e persistente. Uma fidelidade, em suma.