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domingo, 27 de janeiro de 2013

Pinacoteca Pessoal 44 : Nikias Skapinakis


Pintor discreto mas interveniente, Nikias Skapinakis (1931), português de ascendência grega, autodidacta, com curta frequência da Escola de Belas Artes, tem um lugar cativo e seguro na história de arte portuguesa do século XX.
Retratista notável, nas suas telas de cores alacres, há também lugar para um espaço de temperada melancolia. Mas dêmos-lhe a palavra:
"...Não se trata de um estudo de intenção sociológica mas de um discurso, utilizando a linguagem não discursiva da pintura, sobre alguns aspectos da sociedade portuguesa contemporânea e, mais ambiciosamente, sobre alguns aspectos da situação da mulher no mundo, num espaço e tempo cujas coordenadas reais não são só daqui.
E se um olhar irónico envolve esse tal discurso, convém não esquecer que ironia significa, na sua origem grega, interrogação. Se, todavia, a pintura resulta convincente e disponível para uma comunicação de acordo com a exigência de um público que, em toda a parte, tende a alargar-se, não cabe ao pintor afirmar. ..."

Nota: o quadro, em imagem, retrata as escritoras Natália Correia, Fernanda Botelho e a pianista Maria João Pires. Foi pintado em 1974.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Salão de Recusados XXVI : rigor e geometria


As Coordenadas Líricas

Desviou-se o paralelo um quase nada
e tudo escureceu:
era luz disfarçada em madrugada
a luz que me envolveu.

A geométrica forma dos meus passos
procura um mar redondo.
Levo comigo, dentro dos meus braços,
oculto, todo o mundo.

Sozinha já não vou. Apenas fujo
às negras emboscadas.
Em cada esfera desenho o meu refúgio
- as minhas coordenadas.

Fernanda Botelho (1926-2007)



A solidão é essa morte imensa
onde os mortos não cessam de viver.
E onde os vivos recolhem a tristeza
de irem morrendo sem saber a quê,
embora se perturbem. E apareça
o grande nascimento ao que já se é.

Fernando Echevarría (1929)


VI

Deixo este recado para Karl:
todo o rigor da ruptura
cria os possíveis da fala

mas por detrás das palavras
há uma prática
crepuscular

o modo de produção da noite
é literário

Vasco da Graça Moura (1942)