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sexta-feira, 11 de julho de 2025

Fernando Guimarães (1928-2025)

 

Decano dos grandes poetas portugueses, ainda vivo, e portuense, calou-se ontem para sempre a sua voz singular. Ensaísta arguto e crítico também de poesia, além de tradutor de qualidade, com extensa obra.



Por outro lado, pertencia por direito próprio àquele grupo raro de poetas portugueses pensantes que engloba Sá de Miranda, F. Manuel de Melo e Jorge de Sena, entre os mais destacados.
Citémo-lo, a propósito:

A morte está cansada e assim encontra
no teu corpo a nudez, lugar de outro repouso.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

Um dístico

 


As Estátuas

Apenas voltadas para o arco dos seus corpos
ignoram tudo e os olhos fecham-se, de pedra.


Fernando Guimarães (1928), in Três Poemas (1975).

sábado, 28 de outubro de 2023

Uma omissão imperdoável

 

Era uma decepção que eu não esperava, a deste voluminho 4 da série Porto Literário, do jornal Público. Mas que se esquecessem de incluir Fernando Guimarães (1928), poeta veterano e sobrevivente da pléiade dos grandes poetas do século XX portuense, não lembraria ao diabo, sobretudo se levarmos em linha de conta que do livrinho constam destaques sobre poetas menores de terceira ordem e com obras bastante mais pequenas e algumas bem medíocres...



Mas não só. Também Fernando Echevarría (1929-2021)  foi omitido, até de uma simples referência textual, pelos organizadores do livro, numa ignorância grosseira em relação a uma obra poética de grande qualidade original, densa e de matriz pró-filosófica, com mais de 20 títulos publicados.



Estes lapsos são, no mínimo, indesculpáveis, e só atestam uma enorme ligeireza de quem os pratica.

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Um poema de F. G.



Das Guerras - III

Falemos acerca das cerejeiras de Kudan, no Japão. 
É uma colina onde estão os corpos dos que morreram.
Nela há muito que crescem as cerejeiras. Todos os anos,
com a passagem das estações, vêmo-las em flor. Talvez
na sua seiva passe o espírito dos que apenas receberam
o silêncio que se segue aos combates. Eram soldados;
tinham por isso de matar. Obedeciam a ordens. A morte
era para eles uma cerimónia e se depois partiram
para Kudan é porque a vida já não lhes pertencia. Outrora
ao amadurecerem as cerejas, principiavam a colhê-las,
mas compreenderam que as iam depois perder. O tempo
passou por ali mais depressa. Agora que idade têm?


Fernando Guimarães (1928), in Das Mesmas Fontes (pg.24).

sábado, 15 de julho de 2023

Fernando Guimarães (Porto, 1928)



Tenho para mim - teoria subjectiva, claro - que a produção de qualidade dos poetas raramente atinge a sua velhice, ao contrário dos pintores e dos romancistas. Há excepções, porém, e Sá de Miranda é um bom exemplo.
Sobrevivente dos grandes poetas nascidos no século XX, portuense, Fernando Guimarães (1928), acaba (Fevereiro) de publicar mais um livro, aos 95 anos. De boa e inovadora qualidade, pelo que já li (pg. 26).

segunda-feira, 22 de maio de 2017

Arquivos, espólios, cartas, fotografias, recortes...


Nem sempre os espólios passam de ser vivo para ser vivo. Naturalmente, a trasladação passa de pessoas desaparecidas para sobreviventes ou herdeiros, ou, noutros casos, para instituições capazes de cuidar desses papéis, de forma técnica e apropriada. Essas heranças dão-se, muitas vezes, por razões de espaço a ganhar, em casas particulares sem grandes dimensões, nem capacidade de armazenamento físico. Noutras ocasiões, os donos desses espólios, por questões práticas, resolvem doar em vida ou vender, a instituições culturais ou regionais, o excedente supérfluo para poderem conservar o essencial, em sua casa.
Passei, recentemente, cerca de 4 dias a desbastar cerca de uma centena de envelopes, que me tinham sido confiados ad eternum, por um Amigo. E, isto, porque eu próprio também estava a necessitar de espaço em minha casa. Ordenado alfabeticamente, o espólio tinha servido de suporte a uma publicação cultural que, já há largos anos, tinha deixado de existir. Nos envelopes, havia de tudo: fotocópias, cartas, recortes de jornais, revistas, fotografias, cartões de visita, C. V., bibliografias... Uma grande parte documental perdera, entretanto e completamente, a actualidade e/ou interesse do que fora, em tempos (15/30 anos, atrás), acontecimento notabilíssimo. A lei do tempo que, como disse Yourcenar, é um grande escultor.
De tudo isso conservei apenas cerca de um quinto do acervo inicial.

para A. de A. M., afectuosamente.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Na passagem do aniversário de Fernando Guimarães (1928)


Acerca da Primavera de Botticelli

Fica no corpo uma curva mais larga
e os cabelos desenham os vestidos,
se chega, sobre as flores, o vento e afaga
as pregas entreabertas dos sentidos,
a clâmide, as nascentes desses braços
que nos trazem a água recolhida
na sombra de um sorriso, os lentos passos
de quem foge do tempo para a vida,

quando outra fonte oculta desprendia
o silêncio, este prado, o amor, o dia...


Fernando Guimarães, in As Mãos Inteiras.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Três Fernandos


Se por insistência mediática, e talvez por vontade alheia ao desígnio do Poeta, a obra de Herberto Helder é comprada e lida (?), poesia há que, sendo "difícil", julgo que terá restritos leitores. E mal se fala dela, também, por discretíssima. Estou a pensar na obra de Fernando Guimarães e na poesia de Fernando Echevarría, que, à falta de melhor definição, eu denominaria de intelectualizada. E que se materializam numa forma quase prosaica de abstracção pouco, ou nada, lírica.
Mas também me pergunto qual teria sido a recepção (autêntica) à obra de Fernando Pessoa, enquanto vivo. Entusiástica, não foi, com certeza.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Óscar Lopes, ainda


Desta fotografia, de 1994, que reúne alguns vultos maiores da cultura portuguesa, encontram-se apenas vivos Fernando Guimarães e Fernando Echevarría, este último, parcialmente tapado pela cabeça de Eugénio de Andrade. E é do poeta de "Ostinato Rigore" que quero lembrar algumas palavras que, em 1974, escreveu sobre Óscar Lopes:
"...Eu poderia testemunhar do escrúpulo deste homem, porque muita vez o vi pesar razões e razões antes de uma decisão, senhor de uma paciência (a que talvez seja mais exacto dar o nome de respeito pelo próximo) diante de montes de originais que, algumas vezes, ambos tivemos de ler e ponderar antes de premiar. A mim, com muito menos preocupações, muito menos trabalho, muito mais saúde que ele, tanto verso impacientava-me, crispava-me; porque a poesia, se não for o lugar onde o desejo ousa fitar a morte nos olhos, é a mais fútil das ocupações. De tal impaciência dava às vezes notícia em comentários à margem dos manuscritos, de que os autores, uma vez devolvidos os originais, não gostavam, protestando junto do Óscar, por julgarem que tal soltura de humores seria da sua lavra. Como ele é incapaz de um milímetro de deslealdade, nunca lhes respondeu que de tais desmandos só eu seria capaz. ..."

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Um poema de Fernando Guimarães (1928)


A água está imóvel. Sabemos que todos os dias espera
pela sede, mas aquela que nunca pertenceu
a nenhum de nós. A água ficou aí reflectida. Desce
pelo seu interior, procura devagar uma folha
que se tornou mais pesada. Um rumor atravessa-a
e nós escutamos como numa árvore se reunem as vozes
altas que procuram finalmente o que foi sentido
de um último desejo, quando a água em si mesma fica saciada.

Fernando Guimarães, in Lição de Trevas (2002).

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Fragmento de poema para o Dia Mundial do Livro


"Consideremos os codicilos, as letras que principiam a alongar-se como sombras, talvez
as sementes firmes; para além disto apenas gostaríamos de imaginar os que pelo uso
da escrita se inclinaram e aprendem assim a sua cegueira última, porque não são os autores
do que escreveram, mas os que se apresentam como intermediários, ao entregar
o leve vestígio do que foi concebido. Sabemos como procuraram
o especioso caminho que nos conduz ao que se torna no início
de uma voz, esse estremecimento que existe em qualquer fruto para que se desprenda
devagar, ao pressentirmos como se apoderaria dele um novo sentido; era
talvez a sua límpida submissão, o modo como oscilam estes caracteres, ..."

Fernando Guimarães (excerto do poema Codicilos).

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Fernando Guimarães


Ser contemporâneo do sol, da chuva ou do teu nome,
habitar esse último espaço... Conhecer o peso das aves
que percorrem a seiva, adivinhar o desejo fresco e imóvel das plantas,
o rumor do vento, o teu perfil desconhecido mas inscrito em lápides antigas,
enquanto os mortos atravessam silenciosamente a terra
como um arado, e os frutos descem na tua direcção
ao olharmos o mesmo sangue pesado que os filhos recebem do nosso corpo,
escutar o teu nome - nu, sem sílabas, visível...

in As palavras da tribo (1985)

Nota: Poeta que cultiva um estilo discreto, Fernando Guimarães nasceu a 3 de Fevereiro de 1928, no Porto. Ensaísta arguto, rigoroso tradutor (Byron, Keats, Dylon Thomas), a sua poesia, não sendo fácil, tem uma ampla respiração e uma profunda  consistência ontológica, muito singular. Pouco frequente na generalidade da poesia que se fez e faz, em Portugal.