"...cavalgam zebras,
voam duendes,
atiram pedras,
arrancam dentes..."
Quando ouvi, cantadas, estas palavras, na voz bem timbrada de José Afonso (1929-1987), da balada Senhor Poeta (1962), identifiquei-as de imediato como sendo de um dos primeiros livros de António Barahona da Fonseca (1939). Mas havia, ao longo desta balada coimbrã, outros versos que não consegui atribuir. Só anos mais tarde vim a saber que tinham vindo de outro poeta: Manuel Alegre (1936). A balada era, pois, uma miscelânea de dois poetas que, José Afonso tinha articulado, sabiamente, sobre diferentes poemas.
Ontem, à tarde, comprei usada uma antologia de poesia brasileira, publicada em 1951, seleccionada por Fernando Ferreira de Loanda (1924-2002), poeta nascido em Angola, mas naturalizado brasileiro. Ao folheá-la encontrei, na página 76, uma Canção Vai-e-Vem, do poeta do Rio Grande do Sul, Paulo Armando (1918). Assim:
Ora, eu já conhecia estes versos. Mas sempre pensei serem palavras rimadas que José Afonso compôs para uma sua balada. Afinal, eram de um obscuro (para mim) poeta brasileiro. E o título (Canção do Vai...e do Vem) fora, talvez um pouco à revelia, ligeiramente alterado pelo Cantor português, em 1963. Mais uma vez, também, José Afonso intercalou o poema original (e muito bonito), com versos de outro alguém, que eu não consegui identificar. E a balada resulta!
Tive de concluir que, quando são de qualidade, os cantores acabam por fazer suas as palavras dos outros, que são poetas, enriquecendo-as, algumas vezes, pelo poder misterioso e inefável que a música e a voz humana, na sua cambiante múltipla de sensações, lhes pode dar...
para MR, em inesperada geminação, de origem diversa.
Em rosa clara te vi,
Rosa morta te deixei.
Em rosa clara algum dia,
Te verei.
Na lua vinda te fiz,
Lua finda te entreguei.
Eras ela ou te seria,
Saberei.
Em noite larga te ardi,
Madrugada te apaguei.
No retorno que te viva,
Te amarei.
Ora, eu já conhecia estes versos. Mas sempre pensei serem palavras rimadas que José Afonso compôs para uma sua balada. Afinal, eram de um obscuro (para mim) poeta brasileiro. E o título (Canção do Vai...e do Vem) fora, talvez um pouco à revelia, ligeiramente alterado pelo Cantor português, em 1963. Mais uma vez, também, José Afonso intercalou o poema original (e muito bonito), com versos de outro alguém, que eu não consegui identificar. E a balada resulta!
Tive de concluir que, quando são de qualidade, os cantores acabam por fazer suas as palavras dos outros, que são poetas, enriquecendo-as, algumas vezes, pelo poder misterioso e inefável que a música e a voz humana, na sua cambiante múltipla de sensações, lhes pode dar...
para MR, em inesperada geminação, de origem diversa.