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sábado, 28 de outubro de 2023

Uma omissão imperdoável

 

Era uma decepção que eu não esperava, a deste voluminho 4 da série Porto Literário, do jornal Público. Mas que se esquecessem de incluir Fernando Guimarães (1928), poeta veterano e sobrevivente da pléiade dos grandes poetas do século XX portuense, não lembraria ao diabo, sobretudo se levarmos em linha de conta que do livrinho constam destaques sobre poetas menores de terceira ordem e com obras bastante mais pequenas e algumas bem medíocres...



Mas não só. Também Fernando Echevarría (1929-2021)  foi omitido, até de uma simples referência textual, pelos organizadores do livro, numa ignorância grosseira em relação a uma obra poética de grande qualidade original, densa e de matriz pró-filosófica, com mais de 20 títulos publicados.



Estes lapsos são, no mínimo, indesculpáveis, e só atestam uma enorme ligeireza de quem os pratica.

domingo, 6 de novembro de 2022

Antologia 12

 


Romã

Há fruta cujo paladar desloca
a sede habitual de experiência.
A língua sabe. Mas analisa a ciência
num sal de exílio e de saliva. A boca

conserva só esse fulgor sombrio
de sílabas pensadas e que têm
a dor aguda dum rubi, refém
do pomo aonde se esmiúça o brilho.

Ou se trata do fruto em que a pupila
se apalata minúsculo. Rutila
em seu culto indiviso e mineral.

Ou agrupa a romã sua conquista
na glória funda de estar sendo vista
estilhaço de sapiência palatal.


Fernando Echevarría (1929-2021), in Poesia, 1980-1984 (pg. 453).

terça-feira, 27 de setembro de 2022

Antologia 11



A mesa do café move-se objecto
celeste cujo brilho
além da área augusta do silêncio,
leva essa mão sem sítio.
Mão de ninguém. Só membro
do sonolento ofício
de escrever arrabaldes ao silêncio
que a mesa leva para um futuro antigo.


Fernando Echevarría (1929-2021), in Poesia, 1980-1984 (pg. 316).

segunda-feira, 19 de setembro de 2022

Antologia 10



6ª lição

A nós nos lemos quando estamos lendo
na habitual penumbra desta sala.
(...)

Fernando Echevarría. in Poesia, 1980-1984.

terça-feira, 23 de agosto de 2022

Miscelânea (10)



Ousaria dizer que Anselmo Mendes, enólogo que produziu para a marca branca do P. D. um vinho Alvarinho, não terá sido criado e habituado a esta casta ibérica setentrional. O monocasta que fez para essa grande superfície só me lembra o dito pela indicação do rótulo. Mas a verdade, para além do sabor que não é o tradicional, pouco mais sei dizer para esclarecer esta minha atrevida afirmação.
Acontece que nem tudo, na nossa vida ou atitude, conseguimos explicar racionalmente.  

Ramos Rosa (1924-2013) e Fernando Echevarría (1929-2021), não há muito falecidos, foram dois dos mais prolíficos bons poetas portugueses. Mas se, do primeiro, a partir de O Livro da Ignorância (1988) comecei a ficar saturado do seu estilo de poesia, de Echevarría consigo e continuo ainda a lê-lo com algum entusiasmo e gosto natural.
Atente-se, por exemplo, neste pequeno poema:

Anoitecemos. Em nós o que se muda
é, não o que se perde
de claridade e nubla, 
mas o que, anoitecendo, se esclarece.
E esclarecer a noite em que nos suma
o sentimento agudo de perder-se,
amanhece na sombra, como se uma
vidraça abrisse ao mar sobre o que desse. *


* in Poesia, 1980-1984 (pg. 62).

terça-feira, 5 de outubro de 2021

Fernando Echevarría (1929-2021)



Vão-se os poetas, às vezes discretamente. Falecido ontem, só hoje soube da morte de Fernando Echevarría. Enquanto o meu amigo António foi vivo, eu ia sabendo notícias dele e recebendo os livros de poesia, autografados. O meu amigo ia, por vezes, fazer-lhe uma surpresa de manhã, ao café da Foz, aonde ele estava, invariavelmente, a escrever poemas, na mesa da janela, frente ao mar. E foi aí que o António lhe tirou a fotografia que encima este poste.



Em 1993, no jornal Letras & Letras, do Porto, publiquei um breve apontamento em que referia o seu livro Figuras (1987), que Echevarría agradeceu, no simpático postal reproduzido acima.

quarta-feira, 4 de setembro de 2019

(In)Tradução


Estaco, frustrado, perante um simples, mas grande poema composto por 5 versos, de René Char (1907-1988). Percebo-o, traduzo-o literalmente, mas o poema fica muito aquém do original na minha versão para português - é de expressão menor, e francamente abortado. Falta-lhe fogo e alma, palavras gémeas para atingir, ao menos, um paralelo fulgor aproximado, da criação do poeta francês.
Talvez mais tarde, ou noutro dia lhe consiga captar alguma da grandeza original. Entretanto, e como dizia Fernando Echevarría:
                                             A língua, sustenida, imóvel pensa.


segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Instantâneo


A meio da tarde, passa-me pelos olhos um poema antigo (2001) de Eugénio de Andrade, a mim que agora ando a ler, paulatinamente, Fernando Echevarría (Via Analítica).
A diferença de vozes é flagrante, mas ambos falam da água. Este último sobretudo do mar, Eugénio de uma bica, que vai perlando, como os seus últimos anos.
Em qualquer dos casos, é de grande poesia que se trata e que nos vai faltando, nos dias que correm, como da bica o fiozinho de água, que já só pinga escassamente. E de que Eugénio falava.

terça-feira, 28 de maio de 2019

Interlúdio 68


Um sol maior, cumulativo, em trânsito
para o fá sustenido de ternura
que não ama ninguém, senão o acto
de ir subindo, mental, pela fecunda
solidão do espírito, do vasto
horizonte espacial da escuta.
...
Leio estes versos, de um poema de Echevarría (Via Analítica, pg. 147), na varanda a leste, ao fim da tarde, enquanto o vento se levanta gradual e o giz de um jacto alto desenha um traço tremido e branco no azul imenso.
Silêncio logo após interrompido pelo ladrar desconforme dum cão vadio, reagindo a alguém que julga ter-lhe invadido o seu espaço térreo. Não sei se terá sido a criança estridente que, pouco depois, lança um grito desmesurado.
Salva-me o fim da tarde, em contraponto, o canto harmonioso do melro anónimo escondido na folhagem verde, lá ao fundo.
Há dias, porém, a que nos vamos afeiçoando devagar. Ou porque as horas da manhã correram bem, ou, talvez, porque encontrámos a leitura certa ao fim do dia.
Como um soneto que vai crescendo para o verso final, num desaguar que nos parece perfeito.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Pela manhã


Começo bem a manhã - três poemas se me impõem à leitura. Gosto muito de dois, o terceiro não me toca, nem ao de leve. Também neste último a ilustração não ajuda...
E se dois poetas são do norte, o terceiro é de outro continente. Minimalista, de nome. É tudo uma questão de voz, ou de tema que me permite separar as águas, aderir ou não.
A contenção é, muitas vezes, uma questão de sabedoria, a que não falte ritmo ou essa música discreta que as palavras trazem consigo. E que só alguns pressentem.
E o António, meu amigo, bem mo disse, ontem, que ele tem música e ritmo no sangue (eu não tenho), a propósito de Echevarría. Mas pelo Eugénio, respondo eu.

A norte, com Echevarría


O horizonte estuda o frio
invisível. Vem do norte
agudizar o perímetro
libertando-o do seu nome.
Tudo é limpamente liso,
desde o mar à vista doce
dos barcos, ainda antigos,
como os rudes pescadores.
Que felizes são os vidros
desta janela. O horizonte
também é feliz, sentindo
o tempo que espera a noite.


Fernando Echevarría (1929), in Via Analítica (2018).

domingo, 17 de fevereiro de 2019

Glosa (16)


Um nevoeiro branco, mas opaco, toma conta do rio na manhã dominical. O Sol é um halo pressentido que transfigura a paisagem como nalgumas telas de Sequeira. É aí que me vem à colação um poema de Fernando Echevarría (1929):

Inverno de nevoeiro.
O pulso nele faz frio
e purga-lhe o pensamento,
de repente tão antigo.
A espuma sobe por dentro
desse relógio marítimo
cuja cota conta o tempo
da língua a colher o ofício
e a música. O silêncio
sossega à beira do ritmo.
Irá nevar? Nos pinheiros
a densidão do moliço
pensa pássaros de inverno,
imóveis, pois luz e ninhos

apenumbram a penugem
da língua que toma conta
de se enrodilharem nuvens
no vulto denso da copa.

A poesia de Echevarría quase nos conta uma história. Se a quisermos ouvir (ler) com minuciosa atenção. Sinestesias discretas irradiam dos seus versos. Acompanham e mimetizam a paisagem. Pensam-na por dentro.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

P. S. final, com Fernando Echevarría (ao vivo)

Em anexo e geminação com a BNP...


São alguns dos primeiros livros de Fernando Echevarría, cronologicamente de 1958, 1963, 1974 e 1979. Se Tréguas para o Amor (Porto, 1958), obra que foi dedicada a Vitorino Nemésio e a Eugénio de Andrade, tem assinatura de posse manuscrita do poeta António Barahona da Fonseca (Maio 69), o livro Media Vita (Porto, 1979) ostenta dedicatória do Autor, para o autor destas linhas...



Finalmente, da prestigiada colecção Círculo de Poesia (Moraes Editores), imagem das capas de Sobre as Horas (1963) e A Base e o Timbre (1974).


Echevarría e Nemésio, na BNP


Para celebrar os 90 anos do nascimento de Fernando Echevarría (26/2/1929), a BNP tem uma pequena mostra da sua obra, patente ao público até 2 de Março de 2019. Sendo breve a exposição, sugere-se a visita às vitrines contíguas, na mesma sala, onde se expõem cartas, fotos de Vitorino Nemésio (1901-1978) e  de seus amores...

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Uma fotografia, de vez em quando... (118)


Aqui, o horizonte tomou a voz de poema.
É talvez a foto mais  recente de Fernando Echevarría (1929), captada pela sensibilidade amiga de António de Almeida Mattos (1944), algures nas imediações do Porto.
Da minha parte, apenas um exercício de admiração por dois Poetas.

sábado, 26 de janeiro de 2019

Mais um poema de Fernando Echevarría (1929)


Anoiteceu para dentro
do seu só anoitecer.
Fora disso, o pensamento
era apenas de ninguém.
Sem causa a causar efeito,
nem outra coisa qualquer.

Era noite a anoitecer-se
pela escura lucidez
do nome que se arrefece
só a si. Sem o saber.


Fernando Echevarría, in Via Analítica (pg. 508).

domingo, 20 de janeiro de 2019

Da vizinha mais próxima da filosofia


Se não nos dotaram, a nós portugueses, da capacidade inata de filosofar, deram-nos, em compensação, alguns bons poetas que sabem reflectir. E a Poesia é, algumas vezes, a parente mais próxima da Filosofia. Na sua forma essencial de interrogar a vida e o mundo.



Numa estreita linhagem que vem de Sá de Miranda, passa por Francisco Manuel de Melo, toca de raspão em Herculano e Quental, e desemboca na foz multímoda de Pessoa e algum Sena, a poesia de Fernando Echevarría (1929) não renega esse parentesco, que vem, dignamente, de longe.
Editado recentemente (Setembro de 2018), pela Afrontamento (Porto), Via Analítica, de Fernando Echevarria, vem pensar connosco.
Como neste poema sem título, na página 11, deste belo livro.

Pensar ajusta-se ao momento. Tenta,
sabendo que é preciso que o afecto
tome conta de toda a inteligência
para mobilizar o pensamento.
E a mobilização modula a empresa
conforme o ritmo se desprender, concreto,
do corpo maciço da matéria
para limpo o mover e transcendê-lo.
E, daí, alargar a transparência
a um mundo fecundando-se a si mesmo.
Feliz, por dar lugar a essa doença
que punge, e cresce por um azul sereno
de pautas perecíveis. Diligência
a expandir-se, cumprindo um universo
interior, a transferir a pena
da partitura para um fora aberto.

segunda-feira, 24 de julho de 2017

Em torno de uma fotografia


Por que se calam os poetas?
Eu diria que por várias razões, como dizia Camus, a propósito do suicídio, que ele apontava ter, normalmente, mais do que um motivo. Mas voltando à questão inicial, creio que os poetas emudecem por já ser ralo e intermitente o fiozinho de água que lhes resta (como disse, poeticamente, Vergílio Ferreira, por outras palavras), por amor ao silêncio (referido por Eugénio de Andrade, num arroubo confessional, em entrevista), mas por desencanto, também. E tão só pela simples desaparição física - método mais frequente e natural.
Pensei, hoje, em Antonio Gamoneda, em Echevarría, em Manoel de Barros, como poetas que me apetecia reler. Como poderia ter pensado em Sá de Miranda ou Ruy Belo. Porque me vão sempre dizendo coisas novas, apesar de os já ter lido muitas vezes. E também me lembrei de um Amigo.
A fotografia serviu apenas para fechar o círculo virtuoso.

para A. de A. M..

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Um poema de Fernando Echevarría (1929)


A inteligência é um espaço
que invisibiliza o tempo.
E acolhe, no entanto,
todo o visível concreto
para o devolver abstracto
do real. E mais objecto.
Porque, mundo enfim, e estado
de terra e conhecimento,
é anterior a o pensarmos
e só depois tema. Aberto
ao invisível trabalho
que se obstina. Toma alento
e vai subindo. Até o espaço
da inteligência e do tempo
se volverem num só alto
país de conhecimento.


Categorias e Outras Paisagens (2013).