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quinta-feira, 3 de janeiro de 2019

O gosto e a idade


Já gostei muito de Lorca, numa idade em que seria natural tê-lo como referência, em poesia. Depois, o destino trágico e injusto iluminou a sua curta vida do tom próximo de epopeia que fascina a aventura sonhada dos dias da juventude de cada um. Se, e quando, esses sonhos existem.
Mas, lentamente, fui-me, com a idade, afastando dos seus versos. O lugar de eleição foi sendo ocupado primeiro por Jiménez, de quem o Eugénio me falou, e, depois, num outro registo, chegou-me Quevedo, na forma avassaladora do soneto Desde la Torre:

Retirado en la paz de estos desiertos,
con pocos pero doctos libros juntos,
vivo en conversación con los difuntos
y escucho con mis ojos a los muertos.
...

A minha idade madura ia procurando o realismo objectivo da vida, a exigência simples, o mínimo essencial que prescinde de mimos e fantasias do acessório, cultivando, no fundo, uma sobranceria irónica pela tona dos dias e pela ligeireza das ambições excessivas, que são sempre poluentes.
Eu acho que Paco Ibáñez percebeu isso, ao musicar (no vídeo do poste anterior), em tons muito diferentes, as palavras sensuais de Lorca e os versos terrestres de Quevedo. A secura essencial dos trinados aplicados a Quevedo contrasta com os requebros utilizados para os versos de Lorca.
Sabiamente.


segunda-feira, 10 de julho de 2017

Ressonâncias


A princípio foram os campos de Soria (Machado? Lorca? Jiménez?), pouco depois, o deste sabor de fruta inexistente, que se me perfilou, ostensivo, na corrente do pensamento.
Às vezes, subitamente, e sem que nada o pressentisse ou motivasse, somos suscitados por um verso, ou por uma cantilena. Melhor dizendo, convocados, porque é de voz que se trata.
Talvez por que a similitude do momento ou de uma situação se identifica com outra do passado. E o ritmo do coração é o mesmo, na sua batida sensível e humana.
Mas as palavras exactas muitas vezes se nos escapam e não ocorrem. Mesmo que tenham sido nossas. Temos, então, que ir à estante procurá-las. E recordar a sua perfeita exactidão original.

quarta-feira, 2 de março de 2016

Impromptu (24)


Num texto relativamente extenso, Federico García Lorca (1898-1936) fala de duende, tendo o cuidado de lhe cunhar a autoria: o artista andaluz Manuel Torres. A caracterização de tiene duende, no conceito lorquiano, aplicava-se, do ponto de vista da criação (literária), a um misto de inspiração, talento e objectivo literário, plenamente conseguido.
O poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), porém, abordando uma temática semelhante, é mais conciso nos pressupostos. Chama à sua musa inspiradora: the Fox. Descreveu, até, de um sonho que teve, essa entidade misteriosa, que aparecendo sob a forma de raposa, se foi transformando num ser humano de grandes dimensões a quem ele dava a mão.
No livro "The Hawk in the Rain" (1957), Hughes incluiu o poema "The Thought-Fox" que, declamado, aqui deixo em vídeo, a encimar o poste.
Quanto a mim, modestamente, se tivesse de escolher um bicho, para caracterizar essa entidade misteriosa, a que se dá o nome de inspiração, estro ou musa tutelar, optaria pelo canário. Porque é uma das aves de que gosto mais. E também canta, se for do género masculino...

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Impromptu (17)


Lorca gostava de Gongora, em prejuízo de Quevedo. Pensando bem, talvez se justifique esse afecto literário, porque o poeta Federico não deixa de ser um barroco cultista que escrevia curto, em resumo lírico - mas que, às vezes, chegava ao derrame...
Todas as memórias físicas ou mentais guardam, umas e outras, preciosos documentos, valiosos para os seus detentores e para outros alguns, por sua temática própria, e porque são antigos na idade. Valem o que valem, consoante quem os vê.
Assim, pode ser que uma velha padaria desactivada, próxima do Palácio de Queluz, conserve ainda, no lambril interior da loja, velhos, azuis e bonitos azulejos oitocentistas. Poucos saberão, no entanto, que o alvará original está em nome de um francês, que foi o seu primeiro proprietário e artífice.
Ou que uma antiga e modesta estalagem, na margem do Ave, que abre sazonalmente, ostente, com galhardia, na sala de jantar e como ex-libris da casa, uma antológica garrafeira pequena, mas notabilíssima.

terça-feira, 30 de abril de 2013

De Federico García Lorca


Caracola 

                    A Natalita Jiménez

Trouxeram-me um caracol.

Dentro dele canta
um mar de geografia.
O meu coração
enche-se de água,
com pequenos peixes
de sombra e  de prata.

Trouxeram-me um caracol.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Mais um poema de Lorca


É verdade

Ai que trabalho me dá
gostar de ti como eu gosto!

Por causa do teu amor me dói o ar,
o coração
e o guarda-sol.

Quem me compraria a mim
este novelo que tenho
e esta tristeza de fio
branco, para fazer lenços?

Ai que trabalho me dá
gostar de ti como eu gosto!

Federico García Lorca, in Andaluzas.

domingo, 17 de março de 2013

Versão de um poema de Lorca


Despedida

Se eu morrer,
deixai a varanda aberta.

Menino come laranjas
(É da varanda que o vejo.)

O ceifeiro sega o trigo
(É da varanda que o sinto.)

Se eu morrer,
deixai a varanda aberta!

F. García Lorca, in Canciones (1921-1924).

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Um pequeno poema de Lorca


Balança

A noite quieta sempre.
O dia vai e vem.

A noite morta e alta.
O dia é como asa.

A noite sobre espelhos
e o dia sob o vento.

Federico García Lorca, in Primeras Canciones (1922).

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Ódios de estimação literários


É curioso constatar que escritores, até reconhecidos pela sua generosidade natural, não deixam, contudo, de ter alguns ódios de estimação centrados em confrades da mesma arte. E que exorcisam esse sentimento, com alguma frequência, em conversas mais íntimas, ou mesmo em escritos. É nítida, por exemplo, a antipatia intelectual que George Steiner consagra a E. M. Cioran. Ou a que Cioran, por sua vez, dedicava a Albert Camus. É conhecida a pouca simpatia que Jorge de Sena tinha por Manuel Bernardes, e que considerava pouco inteligente; ou por António Ferreira, que achava um poeta menor - e, aqui, estou quase de acordo com Sena.
René Char (1907-1988), que dedicava uma enorme estima humana e literária a Albert Camus e Saint-John Perse, desprezava, intelectualmente, Valéry e não apreciava nada Aragon. Li, há pouco tempo, um pequeno episódio, narrado por Jean Pénard ("Rencontres avec René Char", 1971), que passo a citar: "...René Ménard n'a décidément pas de chance. Il compare Rafael Alberti à Federico García Lorca. Emportement imédiat de Char: «Comment pouvez-vous les mettre l'un prés de l'autre? García Lorca avait le chant. Alberti ne l'a jamais eu.» Il prononce ces mots avec violence et gravité. ..."

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Um livro comprado numa livraria de Montreal...


Leonard Cohen, antes de começar a cantar, explica que, um dia, entrou numa livraria de Montreal e deparou-se com um livro de Federico García Lorca (1898-1936), que veio a comprar. Foi assim que entrou nos cristais, jardins e arcadas do universo lírico do poeta andaluz, e que esta valsa é uma homenagem a Lorca. Faz, hoje, 74 anos que Federico foi assassinado pela Guardia Civil, logo no início da Guerra de Espanha.