Tenho para mim, de forma empírica e nada científica, que a pintura abstracta começa a aparecer com o desenvolvimento da psicologia e a crescente importância da psicanálise. Até aí, a expressão figurativa permitia, seguramente, denunciar estados de espírito bem definidos. Mas que dizer de estados de alma indistintos, vagos, difíceis de se exprimirem? Porque, de algum modo, qualquer observador perante uma tela abstracta procura sinais, ainda que pouco concretos, que lhe permitam descriptar e interpretar o sentido do quadro.
Com frequência, o meu olhar se cruza, muitas vezes, com uma inapropriada caderneta de cromos, com mais de 60 anos, que amigas mais velhas me foram preenchendo com bonecos que vinham em pequenas tabletes de chocolate. Quando esse caderno de significados/caderneta estava completo as meninas Coelho (de seu apelido) ofereceram-mo, para meu gáudio e grande alegria infantil.
E, quando o meu olhar, agora, se fixa nessa antiquíssima e tosca caderneta, vem-me à memória, distintamente, a primitiva e original sensação de alegria. Que não saberei identificar melhor ou descrever em pormenor.
Tão vaga e pura como a que, às vezes, experimento perante uma pintura abstracta.
Porque as palavras também nem sempre conseguem circunscrever a alma, nem o tempo e a memória.