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segunda-feira, 26 de julho de 2021

Quase um soneto


 Memoriae


Na varanda de begónias e avencas
no leve mofo e solidão do estio
se desprende silêncio  Ao largo a fonte o
quebra  Quantos anos eu botei menino

Rodou a bola  Partira-se o pião
E assustado no casarão enorme
a ver fugir-me o jogo do botão
tear infinito me fazia homem

Secaram os goivos no jardim em frente
cresce ainda murta aqui além informe
Os velhos passam  A estrada negra parte
para onde?  E tão longe da memória
da varanda de avencas e begónias  


António de Almeida Mattos (1944-2020)


Nota Pessoal: este poema de A. de Almeida Mattos foi publicado, inicialmente, no suplemento Cultura e Arte do jornal O Comércio do Porto, vindo a integrar depois (1985) a antologia "Poetas de Fafe". Aqui o lembramos no dia em que o António, se fosse vivo, completaria 77 anos.


sábado, 10 de novembro de 2012

Regionalismos minhotos (25)


Vai a pouco mais de meio, a selecção, que tenho feito, de palavras começadas por P, e retiradas do II volume do livrinho "Vocabulário Minhoto", de M. Boaventura. Aí vão as seguintes:

1. Pequerricho - pequenino.
2. Perico - chapéu de palha cuja copa é um cone.
3. Perliteiro - piroliteiro, pereira que dá peras muito pequenas.
4. Perrechil - um tudo-nada; objecto pequeno.
5. Pescoceira - pequena ratoeira de arame, para caçar pássaros.
6. Petilhar - embirrar, desafiar, provocar.
7. Pezôrro - que tem os pés grandes; pesadão, vagaroso.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Retro (6) : Almanaque



Não sei se hoje ainda se publica o Almanaque Bertrand, anual, que se iniciou no ano de 1899. No Minho havia, pelo menos, 2 almanaques: o de Santo António, de Braga, cuja primeira publicação datava de 1898, e o de Fafe, que era mais antigo, suponho, e se vendia muito para o Brasil, onde havia uma grande colónia de emigrantes fafenses que assim não perdiam , de todo, o contacto com a sua terra natal.
Os almanaques eram publicações instrutivas e recreativas, principalmente. Tinham palavras cruzadas, charadas, anedotas, provérbios (podem ver-se dois no rodapé das páginas) transcrições de autores de nomeada (na imagem, um texto de Aquilino Ribeiro), poemas e informações culturais, agrícolas e úteis, de vária ordem. Um manancial de leitura diversa, e de entretenimento para as famílias.

domingo, 15 de maio de 2011

Mercearias Finas 31 : uma vitelinha, mansa, de Fafe


Na sua afectuosa monografia "Fafe e o seu Concelho", A. Lopes de Oliveira refere, a páginas tantas: "...Fafe, põe os seus trunfos na mesa: com pratos (assados, grelhados, ou na brasa) da célebre vitela, que corre o mundo e lhe deu fama (...) Quem não se recorda dos célebres lombinhos à D. Fafe, que são uma delícia! Mas não só a vitelinha fafense, a truta saborosa, pescada nos ribeiros..." Pois como era em meados de Abril, embora a temperatura fosse amena, não fomos na truta e preferimos, na "Adega Popular", optar pela "Vitelinha à Fafense" que, acompanhada por um rijo tinto duriense, nos consolou e preparou para um sarau cultural que nos esperava, depois do jantar. Deixou-nos saudades a refeição, e a companhia fraterna. Por isso, do Mercado de Guimarães, trouxemos, no dia seguinte, algumas boas peças ruminantes que, em casa, congelamos, para memória futura. Aquela carne clara, saborosa e tenra, se não era de Fafe, fizera-se, seguramente, das livres e verdejantes pastagens minhotas. E, hoje ao almoço, foi altura e dia de a trazer à mesa, em memória votiva e prazer antecipado, mas seguro.
A "Vitelinha à Fafense", no seu termo rigoroso e legítimo, pressupõe trabalho paciente, moroso e cuidado. A carne passa por três estádios sequentes: depois de temperada (sal, pimenta, alho e vinho), é primeiro frita, depois estufada e, finalmente, assada no forno com as inseparáveis batatinhas novas, em cama de bom azeite e cebola às rodelas grossas. Mas vale o trabalho pela obra final. Pode (e deve) acompanhar, também, com cenouras e um verde esparregado de nabiças frescas. Quanto ao vinho, foi feliz a escolha: um regional Tejo tinto "Guarda Rios" de 2008, de Vale d'Algares, engarrafado em Vila Chã de Ourique. Está para durar uns anitos este robusto, mas macio, tinto, de 14º, lotado com Merlot (que mal se nota), Syrah cuja púrpura coloriu a rolha, e pelo português e inconfundível sabor da Touriga Nacional, que lembra o aroma de violetas. E foi assim esta "Vitelinha à Fafense" que veio do Minho, mas acabou outrabandista. E bem!

para a Isabel e para o António, com saudades.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Antiqualhas minhotas


Houve um tempo em que a "indústria" do Linho e o seu cultivo, na zona de Guimarães, eram extensos e importantes. Havia 3 ou 4 lojas na cidade-berço, muito conhecidas, que vendiam roupa de linho. E vinham pessoas do Porto, Lisboa e até do Estrangeiro comprar enxovais de linho para as filhas casadoiras. E, em casa, faziam-se papas de linhaça (semente do linho) para pôr, aquecidas, sobre o peito congestionado dos familiares engripados e acamados.
Atrás e antes, havia campos e campos de linho floridos do azul das suas pequenas flores. E havia que fiar o linho e dobar as meadas para depois o vender. Era um trabalho moroso e lento que as mulheres faziam. Estas actividades eram, muitas vezes, acompanhadas por cantorias populares. Foi uma destas cantigas, de quadras, que encontrei no livro de Maria Palmira da Silva Pereira ( de que já falei aqui, no Arpose), sobre Várzea Cova, Fafe e arredores. A beleza muito simples das quadras populares leva-me a que as deixe transcritas, a seguir:

Doba, doba, dobadoira,
P'ra crescer o novelinho;
Eu queria urdir a teia,
ao cantar do passarinho.

Doba, doba, dobadoira,
Não te canses de dobar!
Aí vem o Março quente
P´ra minha teia curar.

Doba, doba, dobadoira,
Não te ponhas a chiar;
Eu queria urdir a teia
P´ra levar para o tear.

Doba, doba, dobadoira,
Não m' enguices a meada!
O novelo está pequeno
Minha mão já 'stá cansada.

O novelo era pequeno,
Não me cabia na mão;
Doba, doba, dobadoira,
Amor do meu coração!

para o António de A. M..

sexta-feira, 11 de março de 2011

Um Poeta do Norte, felizmente vivo


O lançamento do livro A Ilusão do Breve, de António de Almeida Mattos (1944), terá lugar no próximo dia 17 de Março, pelas 21,30hrs., na Biblioteca Municipal de Fafe. A obra será apresentada por Isabel Pires de Lima. O desenho da capa deste livro de poemas, e ilustrações interiores, é de Júlio Resende.

quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

Quadras populares de Várzea Cova (Fafe)


Do mesmo livro/tese referido em poste anterior, e da mesma autora (Maria Palmira da Silva Pereira), quadras soltas, populares, colhidas na região de Várzea Cova:

Passei pela tua porta,
Pedi-te água, bebi vinho.
Quando passares pela minha,
Fala que eu não adivinho.
...
Eu vesti-me e asseei-me,
Não sei se asseada venho,
Venho ver-me nos teus olhos,
Já que outro espelho não tenho.

Ó oliveira do adro,
Não assombres a igreja,
Que bem assombrado anda
Quem não logra o que deseja.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Regionalismos minhotos


Por razões que não vem ao caso, tenho andado a folhear uma tese impressa em 1952, de autoria de Maria Palmira da Silva Pereira, que aborda etnografia e linguagem minhotas e, mais particularmente, de Várzea Cova, pequena aldeia (na época) da região de Fafe. Achei curioso deixar aqui alguns regionalismos mais pitorescos e respectivo significado. Segue:
antebém - pequena refeição entre o jantar (que, no caso, corresponde ao actual almoço) e a merenda nos dias de muito trabalho;
arreguiça - frio, arrepio;
calcoré - codorniz;
engenheiro - proprietário do engenho e aquele que mói o linho;
esgana - tosse convulsa;
folheca - floco de neve;
missa de fazer - missa dos dias de semana (dias úteis);
perucho - pera pequena;
têmporas - processo popular de prever, pela direcção dos ventos, na noite de 13 para 14 de Dezembro, o tempo provável do ano seguinte.

P.S.: para o António.