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segunda-feira, 9 de setembro de 2019

Tu cá, tu lá


Confesso a minha fraqueza olfactiva, sobretudo em ocasiões especiais, por usar Monsieur Carven, o Givenchy Gentleman ou o Allure, da Chanel, que são, para mim e dos que conheço, dos melhores After-shave, na vertente de frescura acitrinada e suave. 
Mas não sou esquisito. No dia a dia, uso marcas banais e populares, desde que o aroma me agrade. E ainda me lembro que, em Mafra (1968), usava o bruto Pitralon - que sempre me cheirou a petróleo - talvez para acompanhar o odor bélico e entranhado das casernas...
Até compreendo que, em rótulos e contra-rótulos de sumos industriais e super-açucarados, dirigidos a jovens e obesas criaturas, as empresas usem de sem-cerimónia e tratem por tu os potenciais consumidores infanto-adolescentes sequiosos.
Há dias vi, numa grande superfície, embalagens do antigo Nívea Men, que eu já não usava há muitos anos. Cheirei e não me desagradou.  Desagradou-me e muito, depois em casa, no contra-rótulo, tratarem-me familiarmente por tu. Será que a hanseática Beiersdorf, de Hamburgo, já desaprendeu a boa educação das regras de tratamento, em relação a senhores maduros e de barba rija?
Assim vai o mundo...

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Apontamento 84: Quando o insólito acontece ...



Por feitio e, também, convicção profunda, sempre advoguei, enquanto prestadora de serviço público de educação, que a discrição e boa educação evitam muitos problemas desnecessários com os nossos concidadãos.

Assim, recordo-me bem da canseira diária de batalhar nas formas de tratamento em Português, combatendo a tendência nefasta de chamar “Você” a pessoas que não conhecemos de lado nenhum, e sublinhando a obrigação do cumprimento desta regra básica para qualquer serviço público.

Ora, já posta em sossego, fui objecto de uma tratamento indevido, por parte de uma criatura de uma instituição bancária que, embora abrindo a conversa, “puxando” para o título académico do cliente, resolveu infringir, de seguida, a norma superior de tratamento em Português, num discurso pobre em que tentava explicar a “Você” o que se resumia numa mais que evidente falha do respectivo Banco.

E como não há dias sem assunto, nomeadamente numa cidade como Lisboa que, pelo espaço reduzido já se encontra “exausto” de tanto forasteiro, meterem-me em mais um episódio insólito sem pedirem o meu consentimento.

Num espaço anódino de “Let’s copy”, para os lados das Amoreiras, estava à espera de vez e  a assistir, na televisão, ao infortúnio das reportagens, sem fim, dos incêndios. Dirigiu-se uma senhora, sem eu ter feito nada para que ele entrasse no meu espaço de sossego e discrição, estrangeira pelo sotaque – porventura francesa – a berrar contra os incendiários, e também os terroristas – muçulmanos em França – afirmando que não se podia ser simpática com semelhante gente, a saber, incendiários de motivações diferentes. Disto passou a invocar que o país – certamente este donde estava a falar – não aguentava esta gente, porque tinha pedido muito dinheiro emprestado à Europa e que não estava em condições de pagar.

Quando, sobre a parte final, tentei dar a minha opinião de que a “narrativa” da dívida portuguesa estava a ser mal contada, tanto aos nacionais como aos estrangeiros por certas forças internas e externas, a senhora surpreendeu-me com uma pergunta que nem os meus mais próximos algumas vezes me colocaram. “A Senhora votou nas últimas eleições ?”.

Ora, antes que saísse da minha discrição, por ora paciente, para esclarecer devidamente o assunto, dirigi-me ao balcão ao lado, porque chegara a vez do meu atendimento.

Com mais este episódio, confesso que já me cansa tanto forasteiro balofo, incivilizado e convencido que, ao fim do dia, só encontrei, nesta zona de invasão abusiva de turistas, um espaço de sossego. Descobri o largo da igreja das Chagas, na imagem acima, por enquanto fora dos "carreiros" dos enxames turísticos.

 Post de HMJ

segunda-feira, 11 de julho de 2016

Tratamentos


Tenho verificado, ao longo da minha vida, que, numa relação de serviço sem conhecimento prévio dos intervenientes, o prestador do serviço me trata quase sempre pelo nome e não pelo apelido. Eu tento sempre fazer o inverso, a menos que não conheça o nome de família do indivíduo.
Mais raramente, o meu interlocutor acrescenta o meu nome ao apelido, na conversa. São escassas porém as vezes em que sou tratado apenas pelo(s) apelido(s). E creio que esta impropriedade é genuinamente portuguesa. Porque, lá fora, isso só excepcionalmente acontece, e só depois de alguma intimidade de convivência, seja de serviço ou social.
Sou levado a crer que o facto é resultado de sermos um país pequeno em que tudo parece contíguo. Mas posso estar enganado...

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Civilidade (25)


Este livro de Beatriz Nazareth, editado em 1898, de que já fiz algumas transcrições nesta mesma rubrica, está um pouco desconjuntado, mas é uma fonte inesgotável de informações sobre etiqueta, cortesia e regras de comportamento em sociedade, no séc. XIX. E, em muitos casos, pelo desajuste dos tempos, a sua leitura faz, pelo menos sorrir, ao constatarmos como as coisas se modificaram. Outras, mantiveram o básico das normas, com pequenas alterações. Hoje, vou transcrever o tratamento prescrito para contactar ou se dirigir às pessoas ou autoridades. Assim:
- O Papa deveria ser tratado por Santíssimo Padre ou Vossa Santidade.
- Ao Rei e Rainha, repectivamente, por Senhor e Senhora ou, em carta, por Vossa Magestade.
- Serenissimo Senhor ou Senhora devia ser usado para com os Príncipes, Princesas ou Infantes.
- O Cardeal Patriarca teria direito a Eminentíssimo e Reverendíssimo Senhor.
-Os barões, viscondes, duques e marqueses: Ilmo. Excelentíssimo Senhor.
-Aos Clérigos, por Vossa Reverência.
E Beatriz Nazareth acrescenta: "...Ás senhoras competem os respectivos tratamentos de seus paes, maridos, etc. e sempre Dom: no emtanto é moda dar-se Excellencia a todas, muito particularmente nos bailes e soirées. Aquelle, que infringisse hoje este requintado preceito de urbanidade, passaria por grosseiro e descortez. ..."
Estamos, apesar destas regras, muito longe da sofisticação e rigor do séc XVIII (ou para trás), em que trocar, por exemplo, o tratamento de Vossa Mercê por Vossa Senhoria, era justificação suficiente para um duelo...

sábado, 18 de setembro de 2010

Quando a ignorância se torna atrevida ...

Sem pretender divagar sobre a evolução normal da língua que, frequentemente, é confundida com a ausência e/ou a falta de domínio de regras básicas, não resistimos e queremos denunciar o atrevimento implícito no folheto acima reproduzido.
Com efeito, o INE e a DGEG, como outras tantas entidades públicas com responsabilidades na defesa da língua, ignoram, certamente, as formas de tratamento em Português. Por isso, aconselha-se a consulta de um conhecido livrinho de Luís Lindley Cintra, Sobre "Formas de Tratamento" na Língua Portuguesa ou simplesmente a sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, elaborado em colaboração com Celso Cunha.
Ao cidadão, ainda ciente das formas de tratamento em Português que respeitam a sua idade e condição social e que não aceita ser reduzido, impunemente, a essa categoria amorfa de "Você", assiste o "direito à indignação". Ao atrevimento da ordem implícita de "ponha/tenha" poderá sempre defender-se e não abrir a porta, evitando, assim, que semelhante "gente" lhe estraga a paz dos dias dentro das suas quatro paredes.
Post de HMJ