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sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

A constatação do desajuste


Quando um ex-banqueiro português, aposentado, por sinal muito católico, recebe de reforma cerca de 165.000 euros, mensalmente, e cerca de 12.000 crianças portuguesas, em idade escolar, passam fome, podemos concluir que alguma coisa apodreceu, em definitivo, na sociedade portuguesa.
Mas não sejamos ingénuos, estas realidades, se desinquietam a alma, raramente incomodam os corpos da maioria. Ou perturbam os álvaros, os gaspares e os coelhos, que por ai vão pastando, tranquilamente, sem o menor problema de consciência. Para eles, já começou o reino dos céus.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Pelo Dia Mundial da Alimentação


É sabido, de quem se interessa por temas de qualidade alimentar que, por exemplo, nos iogurtes a data de validade é, de um modo geral, meramente indicativa e não científica. E, por isso, o produto tem, normalmente, mais uma semana de vida, podendo ser consumido, nesse período posterior, sem qualquer perigo para a saúde. Sabemos também que muitos frutos são rejeitados pelo não cumprimento do calibre (ou tamanho), graças a uma directiva burocrática, obnóxia e aristocrática da UE, idealizada na assepcia dos gabinetes refrigerados de Bruxelas, por rapazes que, na infância, nunca colheram fruta verde das árvores, para trincar. São os príncipes da irrealidade...
Sabemos também que, hoje em dia, muitos legumes, nas grandes superfícies, vão à noite para o lixo, por não apresentarem aquele aspecto de frescura que o cliente, habitualmente, procura. Mas estão bons e não fazem nenhum mal à saúde. Simplesmente, não preenchem os requisitos visuais de fotogenia gustativa. Por isso, os dados apontam e dizem que os povos do Ocidente e primeiro mundo têm à sua disposição cerca de 1,5 a 2 vezes mais alimentos do que seria necessário. Daí, num mundo onde há Fome, ser este desperdício, burocrático e aristocrático, simplesmente imoral e criminoso.
Tristram Stuart (1977), inglês, sendo sensível a este facto, e contando com alguns apoios, inicialmente particulares, resolveu agir. Em 2009, anunciou e organizou para a Trafalgar Square, uma gigantesca refeição frugal e grátis, para 5.000 pessoas carenciadas. Chamou-lhe "Feeding 5.000". No dia aprazado, chovia bastante, em Londres, mas os necessitados ocorreram e a comida simples (arroz de caril e legumes variados) esgotou completamente. Em 2011 repetiu esta acção, com o mesmo resultado. A 13 de Outubro, passado, terá repetido, em Paris, o "Feeding 5.000", já com o apoio de várias empresas que cederam as viandas, já quase no limite do seu prazo de validade.
O jovem Tristram Stuart não pretende substituir-se aos Governos, nem às Ong's, nem às instituições de assistência social. O seu objectivo é chamar a atenção para o desperdício que o Primeiro Mundo pratica, com leviandade, de forma imoral e criminosa. Não é pouco, convenhamos.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Homo homini lupus (Homem lobo do homem)


Cruzam-se notícias. Entre o "injusto, indecente, desproporcionado (modelo económico)..." referido pelo prateado e fleumático bispo Carlos Azevedo, pressionado pela quase rotura financeira de delegações de apoio social, orientadas pela Igreja; e entre os "925 milhões de famintos no mundo", número divulgado pela FAO; mas ainda, e por outro lado: (em Portugal) "em 2009 se ter atingido um novo recorde de aberturas de centros comerciais..."
Quando saí, esta manhã, deparei com uma velha mulher andrajosa a vasculhar com um pau o contentor do lixo. Como em Dezembro de 2005, desembarcado cerca da meia-noite, entre a Av. da República e a Av. E. U. da América, dei de caras com um grupo de 4 ou 5 emigrantes em volta dos contentores de um supermercado.
Um sexto faminto (?) aproximou-se, pé ante pé, lentamente. O grupo do leste, quando o viu, já próximo, correu-o à paulada...