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sexta-feira, 26 de maio de 2023

arte menor (38)



Os Clínicos  
                                                  à memória de F. J. V. de C. F.

Eles sabem ou suspeitam,
adivinham às vezes
mas também se deixam
morrer.

Por cansaço ou tédio,
por já nada os entreter
ao viver.


Sb., 20-26/5/2023.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Da riqueza e das dificuldades da língua portuguesa


Comecei a ler Aquilino já tarde. Creio que pelos idos de 70. Mas já me habituara a identificá-lo pelas capas sóbrias das suas obras, editadas pela Bertrand. Na Póvoa e por Agosto, costumava ver um advogado, frente ao mar e reclinado na sua cadeira de lona, absorto em leituras aquilinianas; o pai do meu amigo Chico, que era médico, também não dispensava, nas férias balneares, o seu Aquilino, repimpado frente ao Atlântico poveiro.
Quando me iniciei nas leituras aquilinianas não estranhei muito o seu vocabulário luxuriante. Já frequentava Guimarães Rosa, nessa altura, bem como o minhoto Tomaz de Figueiredo, para não falar de Camilo, que caprichava em usar as palavras exactas. O transmontano, médico também, João de Araújo Correia, veio mais tarde à minha mão. Também ele purista, terrunho, rico em aplicar tesouros e termos quase esquecidos em tudo aquilo que escrevia.
Há dias, comprei mais um livro dele, de contos (23) curtos, distribuidos por 97 páginas. Usado custou-me apenas 2,50 euros. Pequena monta para tanta riqueza lexical. Logo, nas duas primeiras e breves narrativas, me deparei com 6 estranhas palavras de que só conhecia, por vaga ideia, três delas. Que aqui deixo:
1. lambisqueira
2. galhipo
3. madrigueira
4. estriga
5. prear
6. calipígia.
Tenho grandes dúvidas que as novas gerações sejam atraídas para estas leituras, que lhes serviriam de enriquecimento notório da sua limitada língua portuguesa que, resumidamente, praticam. Sempre frenéticos e à procura de qualquer novidade estridente, estas antiqualhas devem parecer-lhes odiosas. Mas, com isso, estarão cada vez mais condenadas aos grunhos quotidianos do costume. E é pena!

para a Maria Franco, que é fã de Araújo Correia, com estima.

terça-feira, 28 de agosto de 2018

Memória 123


Eu creio que terá sido em finais dos anos 50 que eu assisti à primeira Ópera, completa e ao vivo. Improvavelmente, integrada nos Festivais Vicentinos, no pátio dos Paços dos Duques de Bragança, numa cálida noite de Verão, em Guimarães. Ia, na presidência da autarquia, o esclarecido e culto Dr. Castro Ferreira, pai do meu grande amigo Chico, já falecido. Provavelmente, no programa cultural previsto para esse ano, teria sido ajudado a concebê-lo por outro médico, de grande craveira intelectual, embora mais discreto de feitio - o Dr. Carlos Saraiva. Também ele pai de outro grande amigo meu, felizmente, este, ainda vivo e de boa saúde, que é da minha colheita cronológica, em idade.
Sabia eu lá, noviço e adolescente, quem era Gioachino Rossini (1792-1868)!? A ópera era, nada mais nada menos, que "O Barbeiro de Sevilha", de que eu gostei imenso, na altura. Mais tarde, talvez em 1963 ou 1964, já em Lisboa, ali pela Av. Miguel Bombarda, Rossini viria a cruzar-se comigo, de forma avassaladora, através de um LP maravilhoso. Com as suas aberturas de ópera, mais famosas e tonitruantes. Até porque vibravam em uníssono com a minha tumultuosa juventude, como todas sempre abertas ao excesso, ao heroísmo, ao tom épico da vida a acontecer. Vim a saber depois, que Rossini fora também um homem generoso, amigo do seu amigo, gastrónomo nato. E bom cozinheiro.
Descobri, ainda mais tarde, que o grande compositor italiano tinha, também, composições musicais de grande finura e sensibidade, como esta:

Acrescente-se, porém, que também os grandes génios podem errar. Rossini, bissexto de nascimento (29 de Fevereiro de 1792), encontrou-se, em 1822, com Beethoven, que lhe deu um conselho prudente, assim: "Ah! Rossini. Então foi você que compôs «O Barbeiro de Sevilha». Dou-lhe os meus parabéns. É uma obra que será sempre tocada e cantada, enquanto houver ópera em Itália. Mas não tente compor nada que não seja opera buffa; qualquer outro estilo não vai bem com a sua natureza."

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Memória (102)


Setembro era a fronteira de águas, entre o mar da Póvoa e o rio Ave.
A memória, porém, há-de ser sempre ingrata, pouco lógica e desapiedada, com os anos. Não perdoa o desaparecimento físico, nem tem em conta a diferença da pujança juvenil com a debilidade gradual dos corpos mais próximos e amigos - a marcha do tempo, inexorável, infinita.

quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

Divagações 62


Da memória comum, que se complementava por igual, uma parte apagou-se. Resta apenas um dos lados, fragmentário, insuficientemente fundamentado, já sem contraditório para apurar a verdade dos factos, sem mais perspectiva ou testemunho. Como se fosse apenas uma ficção longínqua, pouco credível.
A Póvoa já não faz eco, o mar silencioso, nem o puzzle faz sentido. Como se vão esbatendo o comboio de madeira e o rio Ave de Sto. Estevão, o poker e os primeiros shots da juventude, as injecções infantis dadas numa almofada de folhelho, as anilinas das análises inocentes, as corridas de caracóis no tanque grande do quintal da rua Francisco Agra...
E o imenso areal de Agosto vai ficando mais deserto e menos nítido.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

quinta-feira, 3 de março de 2011

Inventário sucinto sobre os rios que vão


Ao princípio do Verbo, foi o Mondego. Mas não devo ter dado por ele, porque mal tinha aberto os olhos para a luz, nesse fim de Maio tão distante, muito embora ele corresse para a foz, ali defronte. Logo depois o pequeníssimo Selho, muito mais a Norte, que no Verão desaparecia, mas ainda dava água para as fábricas de curtumes que lhe fizeram à beira, logo depois do Campo da Feira.
Veio depois o Ave, que era o meu rio de Setembro, em Santo Estevão de Briteiros, há muitos anos atrás. Um pouco traiçoeiro, porque tinha fundos inesperados que pareciam querer-nos sorver para baixo. O Chico vendeu a quinta e nunca mais por lá passou para evitar as saudades e a tristeza. De um tempo em que nem sequer havia luz eléctrica, mas as noites eram lindíssimas. E lá voltei ao Mondego, ainda desordenado, que no Verão não corria: um fiozinho de água que parecia ficar pasmado a olhar Coimbra. Por amores, herdei o Cávado e a sua linda foz de Esposende. Mas, em simultâneo e um pouco antes, o Tejo tinha feito a sua aparição na minha vida, em todo o seu esplendor, ainda cheio de barcos e navios. E, em 1968, o Lisandro de má memória - será melhor nem dizer nada dele... Anteriormente, um amigo falara-me com muito afecto do Sabor, um dos últimos rios selvagens de Portugal. Só me vim a banhar no seu leito pedregoso nos anos 90, num tórrido Verão transmontano. Que bem me soube aquela água fresca!...
Mas não posso deixar de falar do Vouga, o "rio mais tímido de Portugal" (Ruben A. dixit), que conheci em 1979, ali para as bandas de Albergaria-a-Velha. Passava por uma quintinha frutuosa e bonita, com um chalet mandado construir por um engenheiro suiço que ali se aboletou durante a II G. Guerra, por causa do volfrâmio. E o Vouga, remansoso, a lamber aquelas terras úberes era quase apaixonante - ainda hoje tenho saudades. Da quintinha, do chalet e do rio...
O Douro, o Reno e o Mosela ficarão para outro dia.
Porque, hoje, foi dia de molhar os olhos nas águas do Tejo como, às vezes, faço. À conversa, com a límpida luz primaveril, reflectindo-se em espelho, quase cegando. Depois, havia um pato selvagem rasando as águas, em idas e voltas. A que se juntaram mais dois em az, que subiram mais alto, e por ali andaram, interminavelmente, sobre o rio.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Christine





Do tempo chegam memórias, às vezes, inesperadamente. Basta que regresse uma voz a interromper um silêncio, para que um capítulo do arquivo morto volte ao primeiro plano das imagens activas.
Nos finais dos anos quarenta do séc. XX, depois da II Grande Guerra, cerca de oito centenas de crianças austríacas - dadas as carências do seu país natal - foram acolhidas por famílias portuguesas e por cá ficaram até 1953. Aprenderam o português, vestiram à portuguesa, tomaram contacto com os costumes portugueses. Depois, regressaram à Áustria.
Hoje, um Amigo com quem já não falava há muito tempo, telefonou-me. E, o arquivo morto da memória, reabriu um capítulo esquecido.
P. S. : para F. J. V. C. F..