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sábado, 29 de agosto de 2020

Esquecidos (3)


Permito-me opinar sobre um assunto momentoso e próximo, de que não sou porém especialista.
Eu creio que a degradação e miséria dos resultados práticos do ensino se devem, essencialmente, não à quantidade de cultura ministrada, mas à ausência de uma estratégia coerente  (ministério), à insuficiência dos agentes de educação (professores, maioritariamente), à passividade ignorante das famílias inertes e ausência de intervenção sua positiva junto dos jovens. Tudo isto maximizado pela idade das trevas em que vivemos e que alguns querem com fervor perpetuar, para seu descanso administrativo. Pão e circo sempre narcotizaram o povinho, em favor da tranquilidade dos imperadores e das ditaduras...


Dizia-me, há dias, HMJ que só não tiraram Camões dos programas de ensino (e Pessoa), porque seria excessivamente escandaloso. Mas, entretanto, todo ou quase todo o século XVI, talvez o mais rico da nossa história, literariamente, foi varrido do ensino às criancinhas, para lhes proporcionar o cómodo facilitismo das aulas reinadias.
E, no entanto, houve nesse século, alguns verdadeiros best-sellers, como por exemplo a Comédia Eufrosina, de Jorge Ferreira de Vasconcelos (1515?-1585?), que, em 11 anos teve nada menos do que 4 edições (1555, 1560, 1561 e 1566). Tendo sido traduzida para castelhano, com prefácio de Quevedo, em 1631.  E, em 1951, o filólogo e bibliófilo espanhol Eugenio Asensio (1902-1996) fez imprimir em Madrid uma nova edição da comédia referida, com uma elucidativa introdução.
Creio ter sido o último trabalho de vulto, até hoje, que se produziu sobre o escritor português.


Já M. Bernardes Branco (1832-1900), em pequeno prefácio à segunda edição do Memorial das Proezas da  Segunda Tavola Redonda (Typ. do Panorama, Lisboa) se interrogava assim: "Mas quem lerá esta obra? Os leitores dos modernos romances? Certamente que não. Jorge Ferreira de Vasconcellos não é um Walter Scott, nem um Alexandre Herculano, Rebello da Silva ou C. Castello Branco. Os antigos talvez não gostassem dos modernos romances, se os podessem ler; mas bofé que os modernos tãobem se não deleitam muito na leitura dos romances dos seculos XV e XVI.
Quem serão então os leitores do Memorial dos Cavalleiros?
Hão de ser, com rarissimas excepções, os amantes dos livros portuguezes antigos, que considerarão sempre esta obra como util para os amantes da pureza  de linguagem, para os que gostam de ver os progressos que os estudos romanticos fizeram em Portugal, para os estudiosos dos antigos usos e costumes nacionaes e para pouco mais."


Estas palavras de Bernardes Branco são realistas e de sabedoria... E hoje será ainda pior.
Concordo que, para a imensa maioria, ler uma das obras de Jorge Ferreira de Vasconcelos seria grande sensaboria e só, talvez, alguns poucos chegariam ao fim do livro.
Estes textos terão, no entanto, pequenas e gratas compensações. Se a acção e enredo dos livros não são muito movimentados, o entrelaçamento de sentenças, anexins, máximas e provérbios é enorme. E o léxico é riquíssimo e fresco, apesar de antigo. Deixo por aqui um cheirinho, para apreciação, retirado da página 18, da Eufrosina:
"A filha da puta estava bonita como ouro, de sua vasquinha amarela quartapisada, em mangas de camisa, seus cabelos ataviados com hua fita encarnada tam de verão que vos ride vos de mais Serea pintada. E por mais ajuda em me vendo ficou brasa."


Admito que Jorge Ferreira de Vasconcelos será um caso esquecido e perdido, para sempre, como escritor. Ainda para mais, as edições das suas 4 obras conhecidas, além de raras, saem sempre caras, em alfarrabistas ou leilões, em que  escassamente aparecem.
Que se há-de fazer?!...

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Citações CCCLXVIII


A erudição impõe à história uma lentidão insuportável.

Marcel Bataillon (1895-1977), referido por Eugenio Asensio (1902-1996), in Revista de Occidente.

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Curiosidades 22


Com os anos e leituras, a figura controversa, e algo enigmática, de Felipe II (1527-1598), de Espanha (I de Portugal), foi ganhando contornos nítidos muito diferentes daqueles que o definiam, para mim, na adolescência. Filho de Isabel de Portugal e de Carlos V, era neto de D. Manuel, o nosso rei Venturoso. E muito de português tinha ele, sem dúvida, além de gostar de Portugal - em Lisboa, ficou ele cerca de dois anos, com agrado, embora tivesse saudades das filhas. Felipe I (de Portugal) era um burocrata minucioso, respeitador escrupuloso dos acordos que fez com os portugueses, cristianíssimo e pio, mas também misterioso, talvez obsessivo em questões de Poder.
Mas, recentemente, tive notícia, através de Eugenio Asensio (Los «Lusiadas» y las «Rimas» de Camões en la poesia Española - 1580-1640, F.C.G. Paris, 1982), de mais um facto insólito da personalidade de Filipe I. Acontece que ele admirava muito Camões e, não menos, a saga dos descobrimentos portugueses. Sucede que uma das mais célebres naus da Índia, a Cinco Chagas (mandada construir pelo vice-rei Constantino de Bragança) que fizera 10 viagens de ida e volta, estava já imprestável, e foi abandonada no Tejo. Filipe mandou recolher algum do madeirame, e fê-lo enviar para Espanha. Dessa madeira se fez um crucifixo grande para a sua capela particular. As tábuas restantes, por vontade dele, serviram-lhe de caixão: nelas foi amortalhado, no Escorial.