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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

De Eugenio Montale (1896-1981)


Depois da chuva

Sobre a areia molhada aparecem ideogramas
como sinais de pássaros. Olho para trás
mas não distingo ninhos, nem abrigos de aves.
Por certo que terá passado um pato, já cansado, talvez coxo.
Mas eu não saberia decifrar essa linguagem
nem que fosse chinês. E bastará um sopro 
de vento para apagá-la. Não é de todo seguro
que a Natureza seja muda. Fala sim, sem tom nem som
e a única esperança é que não se ocupe
por demais de nós.

domingo, 12 de outubro de 2014

Montale, em prosa


É, talvez, um livro um pouco estranho, este em imagem de capa, mesmo para quem conheça alguma da poesia do italiano Eugenio Montale (1896-1981). De quem alguns diziam que tinha uma obra hermética, até que a Academia Sueca, em 1975, não pensando assim, lhe atribuiu o Nobel da Literatura.
O registo desta prosa está contagiado de algum surrealismo e de um irónico absurdo de situações, em muitos destes 15 contos, que, pelo menos, nos faz sorrir na leitura. Desengane-se o putativo leitor que pense, pelo título, que se trata de um livro de viagens e paisagens, no sentido clássico. Elas são apenas o motivo secundário, porque a atmosfera e os factos são outros, que não de vilegiatura.
Esta tradução de 2002, feita a partir do francês (creio), por Antonella Nigra, para a Ambar (Porto), permitiu-me também travar conhecimento com a palavra portuguesa cunículo, na página 31, que eu não conhecia de todo, nem de nada.
Depois de muito procurar, fui encontrar o significado do vocábulo, no Dicionário de Morais (pg. 761): "Passagem subterrânea. Escavação extensa e profunda."
Um destaque especial para a capa bem sucedida deste livrinho, devida a Patrícia Proença.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Arte, liberdade e intervenção


Quando, a 1/9/14, aqui citei uma frase de Justin Willis, veio-me à memória um verso de Drummond de Andrade: "...não faças versos sobre acontecimentos..." Mas também poderia invocar W. Wordsworth que definia poesia como "emoção recordada em tranquilidade". Não significa isto que o artista não deva participar, activamente, e do ponto de vista cívico, no dia a dia da sua comunidade e contemporaneidade, tomando posição clara sobre os acontecimentos mais relevantes. Mas deve deixar de lado a sua arte, para que ela se possa assumir com mais isenção e intemporalidade.
À roda das obras de Yeats e, mais recentemente, de Seamus Heaney criou-se, em alguns espíritos mais preconceituosos, a ideia de que esses poetas irlandeses quiseram manter uma certa neutralidade, nos seus poemas, de forma a poderem beneficiar, por uma certa ambiguidade, de um público mais alargado. No entanto, uma leitura mais atenta das suas obras, permitirá ver que eles assumiram posição sobre as questões que afectaram a Irlanda, nas suas épocas - que foram conturbadas.
Há que lembrar, ainda, Robert Frost: "(a poesia) nasce da liberdade criativa, mais do que da obrigação social". Ou, finalmente, referir Eugenio Montale: "a poesia terá de fazer uma peregrinação obscura através da consciência e da memória", muito embora deva mergulhar na "circulação diária, donde retira o seu primeiro alimento e inspiração".

segunda-feira, 21 de abril de 2014

Montale


L'Arno in Rovezzano

Os grandes rios são a imagem do tempo,
cruel, impessoal. Vistos de uma ponte
afirmam a sua inexorável nulidade.
Só a curva vacilante de um juncal
pantanoso, algum espelho que brilha
por entre as ervas daninhas e o musgo,
pode vir a revelar que a água se pensa,
como nós, a si mesma,
antes de ser turbilhão e rapina.
Passou já tanto tempo, mas nada se passou
desde quando eu te cantava ao telefone "tu
que te fazes adormecida" em dupla brincadeira.
A tua casa era um relâmpago vista do comboio.
Debruçada sobre o Arno como a árvore de Judas,
que parecia protegê-la. Talvez agora seja
ou não uma ruína. Toda cheia - dizias -
de insectos, de todo inabitável.
Outra comodidade nos convém agora,
outro desconforto.

Eugenio Montale (1896-1981), in Satura (1971).

quarta-feira, 17 de julho de 2013

Conversa fiada


Há um tremeluzir na imagem das casas, depois do rio, vistas da janela aberta à aragem caprichosa desta noite de Julho. Não se recolheram ainda as andorinhas, muito menos as gaivotas, que serão as últimas.
Alguém dos confins da Etiópia (primeiro visitante da Abissínia, a chegar ao Arpose) vem parar à imagem  de um chinês a rir - coisa pouco comum, que eles são, por tradição, discretos. Um garoto (?) de Aveiro, incessantemente, procurou, pelo Blogue, imagens de cromos de jogadores de futebol, antigos: veio já 5 ou 6 vezes, repetidamente, hoje. Um brasileiro, quiçá fetichista, anda na devassa de tranças: encontrou umas loiras, bem bonitas, por aqui, mas não se contentou... 
Ao meu lado esquerdo, no livro pousado, dizia Montale:

...A vida que dá sinais
é a única que vês.
Vais-te chegando a ela
da janela escurecida. ... 

quinta-feira, 4 de julho de 2013

De Montale, quase 1 haikai


«E o Paraíso? Existe um paraíso?»
«Creio que sim, senhora, mas os vinhos doces
já ninguém os quer.»

Eugenio Montale (1896-1981), in Satura.

sábado, 30 de março de 2013

acidentalmente, e sobre a memória


A sociedade portuguesa anda envenenada e confundida, mas não me lembro que E. P. C. tenha traduzido, alguma vez, Montale, como as search words ("eugenio montale traduzido eduardo prado coelho") de um cibernauta alfacinha deixariam supor, e que chegaram até ao Arpose, hoje, pela mão canhestra e parva do Google.
Pessoas há em que a memória mal se inscreve: vivem um presente contínuo. E talvez sejam felizes, à sua tona de água.
Eu olho para a varanda a sul, para o limoeiro que, depois da tosquia profunda de Inverno, só consegue ressurgir tímido e de poucas folhas, e não consigo esquecer quatro ou cinco limoeiros viçosos, na minha vida passada. Mas não sou infeliz. Ainda, para mais, o sol ilumina os tenros rebentos da Primavera leviana deste ano rigoroso. E quase me chega, de esperança. Coisa pouca, convenhamos, para quem tenha sonhos altos.

sexta-feira, 15 de março de 2013

De Eugenio Montale (1896-1981)


Il Tu

Os críticos repetem,
por mim despistados,
que o meu tu é uma instituição.
Sem esta culpa minha saberiam já
que em mim os muitos são apenas um, ainda
que apareçam multiplicados por espelhos. O mal
está sempre no pássaro que, preso nas redes,
não sabe se ele próprio é o único dos seus vários
duplicados.

Eugenio Montale, in Satura (1962-1964).

Nota: não posso deixar de considerar que este pequeno poema de Montale tem o seu quê de pessoano.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

Quase um epigrama, de Eugenio Montale


O doutor Schweitzer

lançava peixes vivos a pelicanos famintos.
São vida também os peixes, observou alguém, embora
de hierarquia inferior.

A que hierarquia pertencemos nós
e para que mandíbulas...? E aqui se calou o teólogo
e enxugou o suor, pelo seu rosto.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Música e Poesia L : Montale / Gassman


Uma concentrada atenção permitirá perceber grande parte deste belo poema (  Casa sul mare ) de Eugenio Montale (1896-1981), dito de forma admirável, no original italiano, por Vittorio Gassman (1922-2000), com música de fundo, de Richard Gibbs. E que começa pelos versos: "Il viaggio finisce qui/ nelle cure meschine che dividono..."

segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Eugenio Montale, a propósito


Fim de '68

Contemplei da lua, ou quase,
o modesto planeta que contém
filosofia, teologia, política,
pornografia, literatura, ciências
exactas ou antigas. Lá dentro, está também o homem
e eu entre eles. E é tudo muito estranho.
Dentro de poucas horas será noite e o ano
acabará pelo meio de explosões de espumante
e fogos de artifício. Talvez de bombas ou de algo pior,
mas não aqui, onde estou. Se alguém morrer,
ninguém se vai incomodar desde que
não dê nas vistas e morra bem longe.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Mais um poema de Eugenio Montale


Para rematar

Recomendo aos meus descendentes,
(se é que os tenho) no campo literário,
o que parece pouco provável, que façam
uma bela fogueira de tudo o que disser
respeito à minha vida, do que fiz e não fiz.
Não sou um Leopardi, deixo pouco para arder
e já é muito viver à percentagem.
Vivi a cinco por cento, não aumenteis a dose.
Muito a miúdo, em troca, chove
no molhado.

para matar a curiosidade de c. a..

domingo, 9 de dezembro de 2012

Um poema de Montale


Sinto remorsos por ter esmagado
o mosquito contra a parede, a formiga
contra o solo.
Arrependo-me mas estou aqui de fato escuro
para o congresso, para a recepção.
Dói-me tudo, sofro até pelo ilota
que me aconselhou a vir,
sofro pelo andrajoso a quem não dei esmola,
sofro até pelo demente que preside
ao conselho de administração.

quinta-feira, 12 de abril de 2012

2 poemas de Eugenio Montale (1896-1981), em 3ª via


A Conjectura

A conjectura segundo a qual o mundo
seria uma farsa, nada resolve
nem será o puzzle fundamental.
Se querem a minha opinião
a ilusão é a única escapatória
porque cada um dos dias da nossa vida
ultrapassa o limite que nos coloca.



Em Forte dei Marmi

Um enorme guarda-sol de sombras
que, ora redondas, ora oblongas
decidem do meio-dia ou do cair da noite.
Tardes e entardeceres róseos, neste
salão estranho onde eu vi
desfilar os teus amigos. Paola,
a morena com olhos esmeralda,
virá ainda?

Nota: as traduções foram feitas sobre a versão francesa de Philippe di Meo.