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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

A propósito do último poste

 

Uma pátria tem algum sentido
quando é a boca
que nos beija a falar dela,
a trazer nas suas sílabas
o trigo, as cigarras,
a vibração
da alma ou do corpo ou do ar
ou a luz que irrompe pela casa
com as frésias
e torna, amigo, o coração tão leve.


Eugénio de Andrade (1923-2005), in Rente ao Dizer (1992).

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

De um livro rejeitado de E. de. A.

 

Em geminação com a Livraria Lumière, que se lembrou do aniversário de Eugénio de Andrade (1923-2005), hoje, aqui deixo um pequeno e singelo poema do terceiro livro (Pureza, 1945) do Poeta, menos conhecido, pois não mais foi reeditado.

Madrigal

Coisinha frágil...:
Teu corpo perdeu-se
no meu coração.

Queres encontrá-lo?
- Tenho-o fechado
na minha mão.

terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Um poema, para o acabar do ano

 


Ver Claro

Toda a poesia é luminosa, até
a mais obscura.
O leitor é que tem às vezes,
em lugar de sol, nevoeiro dentro de si.
E o nevoeiro nunca deixa ver claro.
Se regressar
outra vez e outra vez
e outra vez
a essas sílabas acesas
ficará cego de tanta claridade.
Abençoado seja se lá chegar.



Eugénio de Andrade (1923-2005), in Os Sulcos da Sede (2001).

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Ainda Eugénio

 

Por opção e exclusão pessoal não mais voltaram a editar-se as primeiras três obras de Eugénio de Andrade (1923-2005): Narciso (1940), Adolescente (1942) e Pureza (1945), sendo que a sua bibliografia canónica se inicia, na prática, com As Mãos e os Frutos, publicado em 1948. Muito embora o Poeta venha a recuperar, em 1978, 9 poemas desses livros iniciais sob o título de Primeiros Poemas, que agrupou com os dois livros já reconhecidos, numa edição conjunta da editora Limiar (Inova).
Assim, pareceu-me interessante reproduzir por imagem dois pequenos poemas de Pureza, cuja frescura juvenil deverá interessar conhecer àqueles que apreciam a poesia de Eugénio de Andrade. E que o Poeta, lá do alto, me perdoe a ousadia atrevida.


quarta-feira, 10 de setembro de 2025

Lembrar

 

Vêm da infância

Vêm da infância, essas mulheres.
Caladas, discretas, sem pressa
de existir. Esplêndidas mulheres essas,
penteadas com a risca ao meio,
as orelhas descobertas pelo cabelo
de sombra clara.
No seu coração o mundo
não era tão pequeno e o que faziam
não lhes parecia humilhação.
Sabiam envelhecer com a vagarosa
luz das crianças
e dos animais da casa.
A par da rosa.

Eugénio de Andrade (1923-2005), in O Sal da Língua (1995).


Nota pessoal: é habitual que, dos poetas consagrados, nas citações se reproduzam não muito mais que 5 a 10 poemas, sempre os mesmos, até à exaustão, numa cacofonia delirante. Para lembrar Eugénio preferi, escolher um poema menos conhecido, mas que não deixa de ser um belo poema.

segunda-feira, 3 de março de 2025

Divagações 203

 

O facto de termos conhecido pessoas da vida real, permite-nos avaliar a autenticidade próxima da reprodução pictórica, feita por desenhadores ou pintores, dessas figuras públicas.
Ao escolher, para encimar o poste anterior sobre Eugénio de Andrade (1923-2005), um desenho do murciano José Antonio Molina Sánchez (1918-2009), fi-lo pela semelhança indiscutível com o Poeta.
Imensamente retratado, Eugénio tem reproduções que são autênticos mamarrachos, ainda que, muitas vezes, sejam de autoria de artistas consagrados. Nem todos os pintores, porém, são bons retratistas...
Da galeria dos retratos, como os melhores pela semelhança, eu distinguiria mais cinco nomes, por ordem alfabética: Angelo de Sousa, Armando Alves, Augusto Gomes, Carlos Carneiro e Dordio Gomes.

domingo, 2 de março de 2025

Antologia 23



"... O primeiro poema de Nemésio que conheci foi o dos alciões*. Ouvi-o da boca de Manuela Porto, há muitos anos, juntamente com outros que esqueci. Só os alciões, que regressavam cansados da viagem, me ficaram na memória. E nunca nenhuns outros versos do autor de La Voyelle Promise me surpreenderam tanto, me abriram tanta janela para a aventura sempre nova da poesia. Muito diferente daquele sortilégio é A Águia, de Jorge de Sena, escrito em 1970 e publicado postumamente. É um poema de linguagem rigorosa, implacável, dura, a linguagem de grande prosa, mas que serve também a grande poesia:

No olhar verde e vazio de pupilas raiadas
pelo sangue a escorrer do bico para as penas sujas
pardas e grisalhas de um pó excrtementício
que as grossas patas cobre como lama sua...  "

Eugénio de Andrade (1923-2005), in Prosa (pg. 151), Ed. Modo de Ler (2011).


* para quem desconhecer o poema referido, poderá lê-lo no Arpose (20/2/2010): Favoritos IX: Vitorino Nemésio.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                  

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2025

Osmose 142

 



Tenho vindo a reler, de forma continuada, os textos em prosa de Eugénio de Andrade (1923-2005) que a Modo de Ler editou em Abril de 2011, com um competente e útil prefácio de Luís Miguel Queirós (1962).  A temática ganha muito lida em conjunto e sublinha, indirectamente, a mestria e qualidade da prosa do grande poeta.
Das suas palavras saem nítidos retratos com evocações singulares e comoventes de Pascoaes e Pavia, justas, embora talvez um pouco cruéis, de Botto e Homem de Mello, entre outras figuras que ele conheceu de perto.

sexta-feira, 23 de agosto de 2024

Registos

 


De Eugénio de Andrade (1923-2005) eu poderia lembrar dois percursos reais. Do Porto e pedestre, da rua Duque de Palmela até ao Café Majestic. Em Lisboa, do Café Canas, de táxi, para a travessa das Mónicas.

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

Últimas aquisições (53)

 

Recém chegados do Porto, estes dois livros que se fizeram acompanhar, graciosamente, de um marcador alusivo à sua origem. Tenho as melhores expectativas quanto à sua leitura próxima futura.



quarta-feira, 5 de junho de 2024

Sobre poesia, ainda


 
Um poeta, como deve ser e obra bastante, tem muitas vezes um poema para cada situação. A exemplo de Thomas More, e nas palavras do dramaturgo Robert Bolt (1924-1995), é  A man for all Seasons (1967).
Ao meu lado direito, há dias, no restaurante, sentou-se uma balzaquiana com um vestido de cor muito singular. E lembrei-me logo de dois versos de Eugénio de Andrade, do Mar de Setembro (1961):

De que cor te vestiste?
De madrugada ou limão?
...
que se lhe aplicavam lindamente.

quinta-feira, 19 de outubro de 2023

Uma louvável iniciativa 64

 


O jornal Público tem vindo a editar, quinzenalmente, uns originais livrinhos com temas literários portuenses, abordando assuntos diversos. O mais recente (3) foi dedicado aos cafés literários da cidade Invicta. Só anotei uma falta: a do Café Aviz (referido apenas de passagem), que costumava abrigar jovens universitários. Mas não faltava o Café Ceuta, onde almocei algumas vezes uns bons bifes à Ceuta, nem o celebrado Café Majestic, na rua de Santa Catarina, onde entrei pela primeira vez, em meados dos anos 60, na companhia de Eugénio de Andrade, que para lá me encaminhou.
O preço módico dos voluminhos e a sua impressão singular convida-nos a fazer a sua colecção.
Com curadoria e organização de Luís Gomes, alfarrabista residente em Óbidos, o próximo volume (4), a sair na Terça-feira (24/10), tem como título e tema O Porto dos Poetas.

sexta-feira, 6 de outubro de 2023

Natureza latente



Na zona climática intermédia, depois da natureza generosa dos frutos de Verão, a rosa alta, embora se tenha despedido de todas as folhas, mantém-se na jarra com todas as pétalas ressequidas, mas presas ao caule, em suspensão. Como se quisesse ficar connosco. A laranja, enrugada embora, conserva a maturidade e faz-lhe companhia, na fruteira ao lado. Perto, há pêras em abundância, melão, bananas da Madeira e sul-americanas, mais um diospiro já maduro. Do Outono já entrado, só podemos esperar em diante a surpresa das romãs, as castanhas e outros (poucos) frutos secos.
Quanto a romãs, uma amiga dedicada ofereceu-nos 3 bem bonitas. Por sainete, HMJ, juntou-lhes um diabrete barcelense, na fotografia que tirou. E talvez para lembrar Eugénio de Andrade: Das romãs eu amo/ o repouso no coração do lume.

quinta-feira, 6 de julho de 2023

O separar das águas



Para um observador mais atento há, quase sempre, pequenos sinais de futuro no presente. O último Colóquio, na temática principal, dedica os artigos importantes a Eduardo Lourenço (1923-2020) e a Eugénio de Andrade (2023-2005), a propósito dos dois centenários de nascimento que se celebram este ano.
Porém há uma diferença de tomo*: o ensaista ocupa, em folhas de texto, muito mais do dobro das páginas que abordam o poeta, na publicação da Fundação Gulbenkian. Apraz-me lembrar Pessoa que dizia: "Como a família é verdade!". E tem peso, acrescentaria eu. 
Estão definidos, quanto a mim, os tempos de eternidade de cada um dos artistas nos arquivos do futuro...

* embora não fizessem como a BNP que, indesculpavelmente, omitiu por completo a celebração do centenário do Poeta.

domingo, 23 de abril de 2023

Bibliofilia 204



Nem sempre se guardam estes encartes, muitas vezes, e é pena. Servem, com textos apropriados, para apresentar exposições temporárias e, por isso, nem sempre se conservam, apesar da qualidade estética, gráfica, mas também, por vezes, lírica dos textos. Tenho mais dois, para além destes, com textos de Eugénio de Andrade (1923-2005), que era amigo de Júlio Resende (1917-2011). Sobre mostras do Pintor.



Este último, em imagem, era um livrinho da Fundação do Mestre, com vários desenhos a esferográfica do Pintor, e dedicatória datada de Novembro de 2007.

P. S.: De Resende entre a Angústia e a Esperança, de Eugénio de Andrade, passo a citar:

Em páginas de extrema juventude, Paul Klee recusava-se a acreditar na expulsão do paraíso. Vários anos depois ainda se interrogava: "Posso então morrer, eu, cristal?" Recentemente outro pintor, Manolo Millares, afirmou: "El quadro se parió así porque está hecho en un tiempo feo... Aqui no hay nada más que basura..." Entre o tempo adolescente de Klee e o tempo apodrecido de Millares, muita água correu. Klee ainda viveu o suficiente para conhecer a expulsão do paraíso: a bestialidade nazi se encarregaria disso; quanto à certeza de que também ele, cristal, era mortal, as suas últimas obras a ninguém deixam  dúvidas de a ter adquirido. O que Klee já não viu, viu-o Millares: um tempo em que a confiança dos homens foi reduzida a lixo.
Todos os paraísos tiveram sempre a dimensão do homem, e os deuses que lá habitaram nunca foram mais que o reflexo da sua face branca, da sua face negra. A história dos deuses é o espelho da nossa aflição, da nossa esperança. ...
(São Lázaro, Outono, 1965)

sexta-feira, 10 de março de 2023

Últimas aquisições (44)



Veio ontem ter comigo, em boa hora e da editora Modo de Ler, a obra A Cidade de Eugénio (2012), que o mesmo é dizer: o Porto. Mais do que a prosa dos textos, é a beleza das fotografias de João Menéres (1934) que nos seduz, descobrindo espaços e recantos que não teríamos decerto achado, ainda que no rasto de Eugénio de Andrade (1923-2005), que por lá viveu, uma grande parte da sua vida.



terça-feira, 21 de fevereiro de 2023

Pinacoteca Pessoal 191



A propósito da obra de Augusto Gomes (1910-1976), dizia o poeta Eugénio de Andrade que: ...antes que cante, o pássaro solar que todo o artista tem dentro de si exige uma longa, infinita paciência. Em Augusto Gomes a espera durou anos e anos...
Ainda que tivesse sido assim e a maturidade tivesse tardado, a sua obra é ampla, na minha perspectiva.




Nela podemos surpreender, desde uma frescura e um lirismo que nos pode aproximar de Florença e Botticelli, como no desenho a tinta da china "Jovem com dedo na boca" (1953); como também nos suscitar influências soviéticas da arte musculada realista nos seus pescadores e mulheres do norte beira-mar, dos anos 40, que nos irão encaminhar, talvez depois, para uma plena maturidade artística.








quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

Desabafo (75)


A parolice nacional, por vezes, excede a capacidade da minha tolerância e da minha paciência. A BNP, que foi capaz de ignorar ou omitir o centenário do nascimento de Eugénio de Andrade (1923-2005), desdobra-se agora em publicitar uma exposição sobre o faraó egipcio Tutankhamon. Eu imagino que se deve ao facto de usarem a palavra inglesa superstar no título da mostra da Gulbenkian. Nas mentes débeis, há palavras que têm efeitos mágicos. Outro exemplo é o termo procrastinar. E ninguém nos consegue livrar destas parvoíces mentais...

quinta-feira, 19 de janeiro de 2023

Opções


De uma forma geral e de quase todos os poetas há meia dúzia ou até uma dezena de poemas a que se recorre frequentemente para falar do autor. De Eugénio de Andrade, cuja poesia conheço razoavelmente, poderia até referir os títulos que são, na sua maioria, dos primeiros livros. 
E não é que os considere menores, mas eu tenho uma particular predilecção por um outro, pequeno poema que apareceu em Mar de Setembro (1961) e que veio a ter algumas alterações do Poeta, no tempo posterior. Chama-se Quase nada e sendo breve, mas denso, tem uma radiação infinita e poderosa de sugestões.
Aqui fica, lembrando:

Passo e amo e ardo.
Água? Brisa? Luz?
Não sei. E tenho pressa:
levo comigo uma criança
que nunca viu o mar.

De um poema de E. de A., o alegretto de Mozart



Envio

...
A Mozart
que escreveu o Alegretto do Concerto em Sol
 (K. 453) à memória de um estorninho.
...

Eugénio de Andrade (1923-2005), in Obscuro Domínio (1972).