1.
O cego parece desajeitado. Apesar da bengala extensível, embateu por 3 vezes com obstáculos, até atingir o seu objectivo. É certo que, na zona, havia cheiros intensíssimos e é possível que o olfacto do invisual tivesse obnubilado os outros três sentidos condutores. Para afastar uma vontade obsessiva, basta criar um outro interesse, bem forte. Para atenuar uma dor (de dentes, por exemplo) insistente, uma beliscadela, com força, quase faz esquecer a outra dor, temporariamente...
2.
O mármore, na base do monumento - só hoje reparei nisso -, vai acusando a erosão das águas. Como o sépia, das fotografias mais antigas, vai ficando mais pálido com a exposição à luz dos anos que vão passando. Até desaparecerem, de todo, as imagens? No buraco branco da eternidade.
3.
A princípio, eu estranhava que os nossos irmãos brasileiros, visitantes do Arpose, tantas vezes colocassem, como search words, nomes completos (?) de pessoas. Fui compreendendo que não era por questões meramente genealógicas ou linhagistas. Na imensa dispersão de um país grande, como o Brasil, esses visitantes querem encontrar ramificações. As migrações e deslocações são inúmeras. A solidão acaba por parecer maior. Ou infinita.
4.
Almoço de dois amigos. Por entre uma língua de vitela estufada, com esparregado e batata frita, uma apurada feijoada à transmontana, e um Quinta de Cabriz, tinto, um dos amigos ( o mais novo) afirma: "- A eternidade são três gerações!" O outro, surpreendido, pergunta: "- Como?"; e o primeiro prossegue: "- Sabes o nome completo de algum dos teus bisavós?" O amigo mais velho confessa que não.